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A Primeira Delação Premiada

Pobre Adão, agora se vê no meio de uma disputa entre dois grupos politicamente exaltados.

– Senhor?

– Pois não?

– Adão na linha nove.

– Pode passar.

– Sim, Senhor.

– Alô?

– Oi, Adão. Faz tempo que não falo com você. Tudo bem?

– Tudo. E o Senhor?

– Correndo como sempre. O que manda?

– Ah, eu não vou tomar muito do Seu tempo. Liguei só para esclarecer uma dúvida. Quais os tipos de porcos que existem aqui no Paraíso?

– Como assim?

– Os porcos que existem aqui embaixo. Eles são de vários tipos, certo?

– Isso. Existem os porcos, os porcos do mato, os javalis...

– O otorrino...

– Não é otorrino, Adão, é ornitorrinco. Eu vou ter que corrigir você toda vez?

– Desculpe. Eu não consigo decorar dessa palavra.

– E o ornitorrinco não é um porco.

– Não? Na verdade, eu sempre achei que esse bicho fosse uma espécie de coringa.

– Como assim?

– Ah, achei que ele pudesse ser visto como qualquer outro animal, dependendo do caso. Por exemplo, se alguém precisar de quatro cavalos e só encontrar três, pode usar o ornitorrino como quarto cavalo.

– Ornitorrinco. E não, ele não é um coringa. Ele é um animal como outro qualquer.

– Certo. Mas vamos falar dos porcos. Porco do mato, javali... Que mais?

– Adão, para que você precisa saber isso?

– Porque meu advogado disse que eu preciso de um habeas porcos, e eu não faço ideia de quais porcos são esses.

– Adão, isso não é um porco.

– Não?

– Não. O nome é habeas corpus, e isso é um... Espere um pouco. Desde quando você tem um advogado?

– Desde que eu fui acusado de corrupção.

– Corrupção? Como assim?

– Sim, já faz uns dias que está uma baita confusão aqui embaixo. Eu fui acusado de superfaturar as obras do Paraíso e de subornar os animais para fazerem meu serviço enquanto eu fico descansando.

– Mas que obras do Paraíso? Não tem nenhuma obra aí embaixo.

– Sim, eu tentei explicar isso, mas ninguém quis me ouvir. Então contratei um tubarão como meu advogado para construir minha defesa.

– O tubarão?

– Sim.

– Você contratou um tubarão como advogado?!

– Ele ofereceu os serviços. Como não conheço nenhum outro advogado... Bem, eu aceitei.

– Mas, Adão... Que acusações são essas? De onde elas vieram?

– Do pessoal da oposição.

– Que oposição? Você não tem oposição nenhuma!

– Sim, era o que eu pensava. Mas, na verdade, eu tenho. Quer dizer... Nós temos.

– Nós? Como assim?

– Sim. Quem está à frente de toda essa confusão é a serpente. Eu percebi isso logo depois do depoimento dos macacos.

– Depoimento? Que depoimento?

– Vou contar desde o começo. Um dia, o Paraíso amanheceu sem banana alguma. Todas as bananeiras estavam peladas. Logo depois, os macacos foram acusados de desviar as bananas do Paraíso para a floresta onde eles moram. Então os animais aqui embaixo resolveram criar uma comissão para investigar o caso.

– Uma comissão?

– Isso. Eles chamam de CPI. Comissão Paradisíaca de Investigação. Os macacos foram chamados para depor e, no meio do depoimento, eles avisaram que entregariam o chefe da quadrilha caso a pena deles fosse reduzida.

– E eles falaram que o chefe da quadrilha é você.

– Isso. Disseram que eu estou por trás de tudo e que eles estavam agindo apenas como laranjas. Na verdade, eu não entendi direito essa parte, porque os macacos tinham sido acusados de desviar bananas, e até onde eu sei ninguém tinha falado nada sobre as laranjas. Aliás, as laranjas estão lá nas árvores, ninguém mexeu nelas. Não sei como elas entraram nessa história.

– Isso não tem importância. Continue.

– Macacos gostam de laranja?

– Adão, continue a história.

– Certo. Os macacos começaram a falar que eu ganho comissão por cada coisa nova que é criada no Paraíso. Falaram também que eu nem apareço no trabalho, fico na minha caverna descansando e, no final do mês, emito uma nota fiscal por uma empresa fantasma.

– Empresa fantasma?

– Isso. Na verdade, foi por isso que eu contratei um advogado. Eu não entendi nem metade das acusações.

– Depois a gente conversa sobre isso. O que você fez a respeito?

– Eu tentei argumentar com os animais, mas isso só piorou a situação. Eles fizeram um cocaço.

– Um o quê?

– Um cocaço. Eu subi numa pedra e comecei a falar que eu não tinha nada a ver com aquilo, que nem sabia do que os macacos estavam falando. Mas nenhum animal me ouviu. Todos estavam segurando cascas de coco e, assim que eu começava a falar, eles começavam a bater uma casca na outra. Eles fazem isso toda vez que eu tento falar.

– Isso é um cocaço?

– Isso. Foi aí que eu percebi que era a serpente por trás de tudo. Porque foi ela quem distribuiu as cascas de coco. Além disso, ela conseguiu dividir os animais em dois grupos que se odeiam e querem me expulsar do Paraíso.

– Espere. Eles se odeiam, mas querem acabar com você?

– Sim.

– Isso não faz sentido.

– Eu não entendi direito também. Pelo que eu entendi, a serpente disse para metade dos animais que eu quero começar uma ditadura comunista no Paraíso e que preciso ser impedido a qualquer custo. Para a outra metade, ela disse que sou reacionário e que preciso ser expulso daqui porque atrapalho o progresso.

– Comunista? Reacionário? Estão chamando você disso?

– Sim. Alguns animais querem que eu volte para Cuba e outros querem que eu me mude logo para Miami. Eu não sei onde ficam esses lugares. Isso é aqui no Paraíso?

– Bom, tem quem ache que sim.

– Ah, é?

– Esquece. Eu estava apenas pensando alto.

– Certo. Enfim, eu não tenho como me defender porque não sei o que essas palavras querem dizer. Cada grupo fica se atacando o dia inteiro e dizendo que eu pertenço ao outro grupo. Ficam trocando acusações, com cada um culpando o outro por tudo que eles acham que está errado aqui no Paraíso e se acusam de querer dar um golpe. Mas os dois lados querem a mesma coisa.

– Assumir o controle do Paraíso.

– Não! Eles querem minha cabeça!

– Todos os animais tomam parte nisso?

– Todos. Ah, não. O leão não. Ele preferiu não tomar partido.

– Bom, ao menos temos um animal com bom senso.

– Na verdade, é como se ele tivesse fundado um terceiro grupo. Disse que é monarquista e se autodeclarou o rei da floresta. Sinceramente, eu não estou entendendo mais nada que acontece aqui. Aliás, eu pensei em uma maneira de unir os dois grupos e queria a opinião do Senhor.

– Diga.

– Eu poderia criar ministérios e distribuir entre eles. Por exemplo, eu poderia criar o Ministério das Árvores e entregaria para um dos grupos. Aí eu criaria o Ministério dos Lagos e entregaria para um o outro grupo. Assim, quem sabe, eles me deixariam em paz.

– Não, essa é a pior coisa que você pode fazer.

– Como assim?

– Se você fizer isso, nunca mais vai conseguir fazer nada no Paraíso. E a briga vai continuar. Aliás, vai até aumentar. Logo, você vai ter que começar a criar um ministério atrás do outro, somente para agradar os dois grupos.

– Bom, então não sei o que fazer. Antes de mim, não tinha outro homem no Paraíso, certo?

– Não. Você é o primeiro. Por quê?

– Porque meu advogado disse que eu poderia colocar a culpa no meu antecessor. Falar que a culpa é dele e que tudo isso está acontecendo porque estou tentando resolver o que ele fez. Isso poderia acalmar um pouco as coisas.

– Não, Adão, não existiu ninguém antes de você.

– Olhe, eu não consigo fazer mais nada. Eu começo a limpar o lago, sou vaiado. Eu paro de limpar o lago, sou vaiado. Vou podar as árvores, sou vaiado. Paro de podar as árvores, sou vaiado. Aí eu tento falar algo e começam a bater os cocos. Não é fácil. E sabe o que é pior?

– Diga.

– Com toda essa guerra entre os dois lados, ninguém mais nem lembra que os macacos roubaram as bananas. Aliás, os dois grupos já avisaram aos macacos que, assim que eu for expulso do Paraíso, eles serão apontados os administradores daqui.

– Os dois grupos decidiram isso?

– Isso. Os macacos até mesmo formaram um grupo para isso. Partido dos Macacos Distribuídos pelo Bosque.

– PMDB?

– Isso. E os dois grupos ficam em guerra, querendo me destruir e tentando se aliar aos macacos. Eles não percebem que o Paraíso inteiro está sendo prejudicado por causa disso.

– Isso não pode continuar. Quando é sua audiência na tal da comissão?

– Amanhã. Por isso eu preciso de um habeas porcus ainda hoje.

– Corpus. Mas enfim, não se preocupe com isso. Você não vai precisar depor. Eu vou resolver isso. Amanhã tudo estará em ordem novamente.

– Mesmo? Obrigado.

– Até logo, Adão.

Assim que Deus desligou o telefone, começou a pensar no que poderia fazer para resolver o problema. Dilúvio? Fora de questão, era muito cedo. Quebrou a cabeça algumas horas até chamar os anjos para Sua sala. Ordenou a eles que descessem até o Paraíso e organizassem um campeonato de futebol. Isso faria com que os animais se esquecessem de tudo. Sabia que não era a saída mais correta, mas estava sem alternativas.

Horas depois, durante a noite, desceu até o Paraíso e procurou pela serpente. Não demorou até que se encontraram aos pés de uma montanha. Trocaram um aceno de cabeça e ficaram em silêncio por alguns instantes, até que a serpente resolveu falar.

– Eu quase consegui dessa vez.

– Sim.

– Isso é para Você aprender que o mundo é mais complexo que mexer ou não na maçã. Especialmente quando se trata de política.

– Eu sei. É por isso eu sou a favor do estado laico. Quero distância desse assunto.

A serpente sorriu.

– Eu não. Na verdade, creio que encontrei minha verdadeira vocação. Você não pode negar que ter dividido o Paraíso em dois, com um grupo odiando o outro, foi um toque de gênio.

– Sim. Foi um belo truque.

– Quando um lado está ocupado odiando o outro, ninguém se pergunta quem está ganhando com tudo aquilo. Tudo o que importa é destruir o outro lado a qualquer custo. E nada é mais fácil de corromper uma pessoa que está disposta a tudo.

– Mesmo que ela ache que está fazendo o bem.

– Exato. Por isso que na próxima vez, vou conseguir.

– Próxima vez?

– Sim. Eu vou tentar de novo. Mas não agora. Esse homem que você criou ainda é honesto. Eu preciso esperar até achar o cenário ideal, um local que já esteja bagunçado e com dois grupos dispostos a tudo para conquistar o poder. Preciso apenas disso e de um cargo nessa sociedade.

– Um cargo?

– Sim, uma posição que me permita transitar entre esses dois grupos. Assim, tudo o que eu preciso é esperar um escândalo qualquer e usá-lo como fagulha. Divido o povo e começo a jogar dos dois lados, alimentando a cegueira e o ódio. Quando ninguém mais souber em quem acreditar, a fagulha se torna uma fogueira. E, no momento que os dois lados simplesmente pararem de falar a verdade, é porque a fogueira se transformou em um incêndio. E eu preciso apenas de um cargo para dar início ao processo. Fogo e mentiras sempre se espalham sozinhos.

– Mesmo nessa sociedade, algumas pessoas vão tentar acalmar os ânimos e unir as pessoas em nome do bem comum. Você sabe disso.

– Sim. Mas elas serão minoria. O bom senso pode ter palavras bonitas, mas ele apenas fala. O ódio, por outro lado, grita o tempo inteiro. E, na confusão, as pessoas costumam seguir os gritos.

Deus suspirou. Queria que a serpente estivesse errada. Ela percebeu e jogou sua última carta, sorrindo mais uma vez.

– Presidente da Câmara dos Deputados. Que tal? Soa bem, não acha?

Deus não respondeu. Apenas se despediu e desapareceu, voltando ao Seu escritório. Tinha muito trabalho para fazer.

Afinal, talvez apenas dez mandamentos não fossem suficientes.


publicado em 10 de Novembro de 2015, 00:00
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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