A primeira nota 10 da história | Mergulho Olímpico #5

Aos 14 anos, a ginasta romena Nadia Comaneci inaugurou a perfeição

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"Eu não costumava observar os placares. Eu costumava dar um nota para mim mesma, e eu achei que um 9,90 era bom o suficiente. Me virei e vi 1,00 no placar. Olhei meus colegas de equipe em volta e então percebi que o placar não poderia marcar o 10,00 porque eles não tinham espaço suficiente".

O "1,00" de Nadia Comaneci

Nadia Comaneci nasceu na pequenina Onesti, na quase sempre esquecida Romênia, em 12 de novembro de 1961. Escolhido por sua mãe, o nome veio de um filme russo que falava belamente de uma tal Nadiejda, ninguém menos que a esperança

Sem saber nem ter direito a opinar, Nadia seria justamente a esperança de tornar o regime cruel do ditador comunista Nicolae Ceausescu em algo palatável. Aos 13, a ginasta ganha seu primeiro título entre as principais atletas, no Campeonato Europeu de Ginástica realizado na Noruega. Ela varreu a competição, com exceção do solo, que terminaria com a prata.

Aos 14, chegaria gigante nos seus 1,50 m de altura e 47,2 kg. Com sua apresentação inigualável nas barras assimétricas, alcança a nota 10,00 e se torna a primeira atleta perfeita da modalidade naquele dia 18 de julho de 1976. A impossibilidade de imaginar alguém que conseguisse chegar lá, rendeu o tal erro histórico de placar.

Paciência. Nadia não tinha nada com isso. Se o placar eletrônico não estava preparado, que trouxessem as placas novamente. Porque a coisa sairia ainda mais do controle.

Foram outras seis notas 10,00 e três medalhas de ouro (barras assimétricas, trave e equipe). Viriam ainda outra prata e outro bronze.

Link YouTube | O "Perfect Ten" de Nadia

O que ela tinha a dizer sobre suas insistentes apresentações irretocáveis? Nada diferente do que uma adolescente diria: “Só penso em voltar para casa”, falou a pequenina Nadia aos sedentos repórteres na Olimpíada realizada no Canadá.

A tal casa continuava a  mesma sequência de perseguição, stalinismo, paranoia e supressão de qualquer tentativa de individualidade. Na pátria socialista de Ceausescu não havia margem de erro. Era ser esmagada pela burocracia estatal ou fingir viver bem como aliada dos patronos do país. Vale citar o genocídio de mais de 60 mil cidadãos. 

O capitalismo aos pés da menina nascida no comunismo romeno

Com isso tudo, Nadia se tornaria a maior honra de seu tímido país. Além das notas perfeitas na Olimpíada, ela faturou a tal ordem de "Herói do Trabalho Socialista", a mais jovem a atingir o reconhecimento.

À medida que o corpo espichava no ritmo natural dos hormônios, os feitos de Nadia teimavam em não acompanhá-la na mesma medida.

Já em 1989 - ano da queda do muro de Berlim -, Nadia aposentada da ginástica seguiria o caminho trilhado antes por tantos outros romenos: buscar refúgio. Foram longas horas de caminhada até chegar na fronteira com a Hungria. De lá, a escapada seguiu até a Áustria, para então pegar um voo até os Estados Unidos. 

Nas mãos do compatriota Constantin Panait, romeno radicado na Flórida, a campeã olímpica aprenderia que o capitalismo prevê outros tipos de prisões psicológicas, sendo a ânsia por fama e todos os trocados que puderem pingar na conta bancária os mais comuns deles.

Panait fazia o papel de bom moço para Nadia e, por debaixo do pano, negociava entrevistas exclusivas ao preço de US$ 5 mil com mais nova prova do fracasso comunista do Leste Europeu. E não foram poucos os jornais capazes de não pensar duas vezes...

"Nós somos amigos, bons amigos. Mas até que nos casarmos - se nos casarmos - não vai haver sexo entre nós. A ideia foi da Nadia. Nós temos um quarto, mas continuamos amigos. Posso segurá-la pela mão, dar beijos nas bochechas. Mas isso não significa um relacionamento sério. Ela não tem ninguém. Estou ajudando", contou um estranho Panait na chegada de Nadia aos Estados Unidos.

"Eu não fujo de um desafio porque tenho medo. Pelo contrário, eu confronto o desafio porque a única forma de livrar-se do medo é colocá-lo embaixo de seus pés", disse a ex-atleta certa vez.

Nadia só conseguiria iniciar a vida em 1990. Sem ditador nem falso empresário ou namorado. Deixando burocratas e especuladores onde merecem estar: na sola da sapatilha da atleta que criou a perfeição.


publicado em 20 de Abril de 2016, 00:05
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Rafael Nardini

Vive de escrever bobagem. Torcedor de arquibancada, fake de músico e curioso na cozinha.


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