A primeira ressaca

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— Senhor?

— Sim?

— Adão está retornando Sua ligação. Ele está na linha quatro.

— Ótimo. Pode passar.

— Alô?

— Adão?

— Oi, Deus. Tudo bem?

— Tudo. E você?

— Mais ou menos. Minha cabeça parece que vai explodir.

— Adão, faz horas que estou tentando falar com você. Onde você se meteu?

— Eu não sei. Acho que estava aqui embaixo mesmo. Não tenho certeza.

— O Paraíso está totalmente abandonado! Os animais estão sem comida. As árvores não foram

regadas, e os lagos...

— Eu sei, eu sei. Prometo que darei um jeito em tudo isso ainda hoje. Eu só preciso conseguir

me levantar direito.

— Você ainda nem se levantou?

— Mais ou menos. A minha perna esquerda já está fora da cama. Assim que desligar o telefone,

vou tentar um dos braços.

— Adão, você está bem?

— Estou. Acho. Preciso apenas de um copo de água e um comprimido.

— Enfim, Eu liguei para saber ao certo o que aconteceu na festa de Ano Novo que vocês fizeram

aí embaixo.

— Como assim?

— Adão, pelo que Eu ouvi falar, as coisas saíram um pouco de controle durante a festa.

— Bem, talvez não tenha sido tanto assim...

— Não foi o que Me disseram.

— Quem disse?

— Isso não importa, agora.

— Aposto que foram as gralhas.

— Não vem ao caso.

— Tenho certeza que foram as gralhas. Elas não fazem outra coisa aqui embaixo a não ser

fofocar. O tempo inteiro.

— Certo. Meu ponto é...

— Aliás, o Senhor não me disse que estava pensando em fazer uma lista de mandamentos?

— Adão?

— Se quiser fazer um deles sobre fofoca, eu posso ajudar a redigir. “Não cuidarás da vida do

outro”. Algo assim.

— Adão, posso...

— Malditas gralhas.

— ADÃO!

— Ai!

— Será que Eu posso falar?

— Desculpe. Apenas tenha piedade e não grite mais. Parece que estão enfiando um prego na

minha cabeça.

— Assim você aprende a não beber tanto da próxima vez. Enfim, as gralhas não Me contaram

nada. No dia seguinte à festa, Eu vim trabalhar e encontrei um macaco aqui na Minha sala.

— Na Sua sala?

— Sim. Aliás, não apenas na Minha sala. Estava dormindo em cima da Minha mesa.

— Mesmo?

— Completamente bêbado.

— Entendi.

— Abraçado a uma garrafa de tequila.

— Tequila? Eu não me lembro de ter visto tequila na festa.

— E usando uma camiseta com a inscrição “Sou um pinguim”.

— Bem, o Senhor sabe como esses macacos são...

— Sim. Eu não faço ideia de como esse macaco chegou aqui. Na verdade, nem ele sabe explicar direito. Quando entrei na Sala, ele acordou, olhou para Mim, perguntou se Eu era o rapaz da pizza e voltou a dormir.

— Sinto muito. Se o Senhor me mostrar qual macaco estava aí, eu posso falar com ele e pedir

para que ele não faça mais isso.

— O macaco é apenas um exemplo. Como Eu estou tentando dizer, duvido que as notícias que ouvi sobre a festa tenham sido exageradas. Som alto. Guerra de comida. Danças obscenas. Os porcos pichados.

— Porcos pichados?

— Sim, Adão. Alguém escreveu “Lave-me, por favor!” em todos os porcos. Tive que mandar dois anjos descerem até aí logo cedo para apagarem as inscrições. Os porcos estão traumatizados até agora. Disseram que querem ir embora do Paraíso.

— Sinto muito. Eu posso cuidar disso. Eu vou falar com eles. Preciso apenas de uma aspirina.

— Isso sem falar na girafa, que foi amarrada à beira do lago por outros animais e usada como

tobogã. Ou no guepardo que estava bêbado e apostou que conseguia romper a barreira do

som, e correu cinco metros antes de enfiar uma cabeça numa árvore. Precisou levar dez

pontos, e não se lembra mais nem do próprio nome.

— Sinto muito, Senhor. Eu não vi nada disso.

— Não. E aposto que você também não viu o macaco que subiu num penhasco e ergueu um

filhote de leão, dizendo que a cena ficava bonita e parecia coisa de cinema.

— Não, Senhor.

— Bom, o pai do leãozinho viu. E quase matou o macaco.

— Desculpe, eu não vi. A festa era grande, e...

— Da mesma forma que você não viu as lontras promovendo um concurso de danças sensuais

entre os outros animais.

— Não, Senhor.

— Nem o ornitorrinco que passou a noite chorando porque as outras criaturas falaram que ele

foi criado com sobras de outros animais.

— Não, Senhor.

— Aposto que você também não viu os mamutes capturando um elefante e o obrigando a

encher sua tromba de vodca.

— Não, Senhor.

— Nem as gaivotas que quase mataram um bicho preguiça ao convencê-lo de que voar era

fácil. Nem os hipopótamos que decidiram jogar futebol usando um tatu como bola. Nem os

esquilos que subiram nas costas de um touro, gritando que “é festa de pião, é festa de rodeio”,

deixando o pobre animal enfurecido. Ou babuínos que viraram um barril de cerveja no rio,

para que os peixes pudessem participar da festa.

— Eu acho que ouvi falar algo sobre os hipopótamos montarem um time de futebol. Acho que

me lembro de algo assim.

— Mas você não viu nada.

— Não. Acho que não.

— Sim. Pois você estava bêbado.

— Não, imagine. Eu bebi só uma cerveja.

— Adão...

— Certo. Uma cerveja e um uísque. Mais nada.

— Adão, a última vez que olhei para a festa, você estava debruçado na beira de um lago.

Lembra-se disso?

— Vagamente.

— Com um macaco e um leão marinho segurando você.

— Sim, acho que me lembro disso.

— E vomitando.

— Ah, mas isso é porque eu comi algo que não caiu bem. Acho que foi a maionese.

— Já prometi para os patos que a primeira coisa que você vai fazer hoje é limpar o lago.

— Sim, Senhor.

— E que isso não vai acontecer de novo.

— Não, Senhor.

— Mas, por favor, não Me diga que você não estava bêbado.

— Bem, talvez alguém tenha colocado algo na minha bebida. Não sei.

— Adão, quanto você bebeu?

— Umas três. Umas duas ou três. Talvez oito. Algo assim.

— Dezoito. Foram dezoito.

— Como o Senhor sabe? Malditas gralhas.

— As gralhas não têm nada a ver com isso. Aliás, pelo que pude averiguar, elas nem estavam na

festa.

— Não?

— Não.

— Mas, enfim... Assim que eu beber algo e tomar um remédio, eu começo a ajeitar as coisas

aqui.

— Certo.

— Mas pelo menos eu sei que ninguém mexeu na macieira. Eu deixei claro aos animais que

ninguém poderia chegar perto daquela árvore, ou a festa acabava.

— Sim. Eu sei disso.

— Aliás, falando nisso... Eu nem vi a serpente na festa. O Senhor sabe se ela aprontou algo?

— Esqueça a serpente. Queria apenas que você soubesse que tem até o final do dia para limpar

tudo.

— Sim, Senhor.

— Deixei na porta da sua caverna uma lata vermelha com uma bebida negra dentro dela. Chama

Coca-Cola. Beba, vai lhe fazer bem. Mas não comente com os outros animais sobre isso.

— Sim, Senhor. Obrigado.

— Adão?

— Sim?

— Não me desaponte. Eu quero meu Paraíso limpo ainda hoje.

— Sim, Senhor.

— Até logo.

— Tchau.

Assim que desligou o telefone, Deus esfregou os olhos com as mãos. Sentia-se mentalmente cansado. Observou o Paraíso e viu que muito precisava ser feito. Tudo precisava ser limpo ou consertado. E Adão ainda estava tentando sair da cama.

Pelo menos, não precisaria se preocupar com a serpente nos próximos dias. Horrorizada com o que havia testemunhado durante a festa, ela fora ao encontro de Deus logo no início da manhã para contar tudo o que havia visto. Em detalhes.

E aproveitou para reclamar que, com tudo isso, se sentia pouco valorizada.

Depois do que vira durante a noite, a serpente percebeu que a única coisa que sabia fazer da  vida – tentar o homem a comer uma simples maçã – não algo exatamente notável. Comer uma maçã, de repente, não parecia mais ser algo tão importante, especialmente se comparado aos oceanos de uísque consumidos durante a noite.

Deus prometeu arrumar tudo e afirmou que aquilo nunca mais aconteceria. Mesmo assim, a serpente insistiu em tirar uns dias de folga, para colocar sua cabeça no lugar.

Precisava repensar sua vida profissional e traçar novas metas.


publicado em 03 de Janeiro de 2013, 22:00
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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