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A profunda aceitação de que podemos ficar paralisados em algum ponto: e tá tudo bem

Ansiamos movimentos grandiosos para os nossos filhos e nós mesmos, e acabamos criando percalços por conta dessas esperanças. Como simplificar isso?

Quando nossos filhos estão realmente lutando com um problema comportamental, emocional ou de aprendizagem, muitas vezes não queremos ver algo que está bem à nossa frente. Na realidade, encontramos muitas maneiras de distorcer uma verdade que é simplesmente desconfortável demais para reconhecermos. Muitos pais apenas se esforçam cada vez mais para manter o filho no caminho certo. Mas se olharmos claramente o que se apresenta e então aceitarmos o que há ali — este é o momento em que ocorrem as verdadeiras mudanças.

A primeira vez em que um pai ou uma mãe passa por um desses momentos “ahá!” é quando o filho atinge algum limite comportamental e recebe um diagnóstico. Outro momento desses pode se dar quando os pais recebem os resultados de testes acadêmicos ou de uma avaliação psicológica da criança. Ou talvez seja quando recebam uma recomendação para que um de seus filhos comece um tratamento com uma medicação psicotrópica. Essas são mudanças sísmicas imensas que podem ser bem-vindas — para lidar com uma situação comportamental persistente em casa ou na escola — ou temidas. Apesar disso, muitos desses pareceres e avaliações destacam características ou padrões que a criança possivelmente apresentou durante anos — talvez ao logo de toda a sua vida. É comum que os pais se protejam dessas verdades dolorosas — e é notável como muitos se entregam ao pensamento mágico.

Por exemplo, se uma criança começa uma terapia ou um programa de tratamento, os pais entram direto em um processo de pensamento linear: tratamento = sucesso na escola = formatura = universidade = emprego = vida bem-sucedida. Os pais querem que tudo volte rapidamente ao seu curso — o que é compreensível. Mas ao optarem por não ver o que está diante de seus olhos, acabam construindo represas que mantêm a dor estancada e resistem às correntezas. Os pais podem continuar a ter sonhos e desejos para o filho, porém é melhor não projetar essas metas mais longínquas e permanecer no momento presente — por mais incerto que este possa ser. Para muitos pais, nada na vida do filho seguiu um caminho sequencial ou lógico.

A realidade é essa.

Melhorar significa, em parte (tanto para o filho quanto para os pais), ver o problema de uma forma crua — e até mesmo deixar que o problema fira seus sentimentos. Lembre-se de que temos que aceitar o fluxo de sentimentos que existe ali — e permitir que essas emoções sigam o seu curso natural. Os pais ficam tristes, com medo e devastados; é melhor sentir essas coisas de verdade. Quando os pais dão o exemplo de que estão com medo de sentir e, portanto, apresentam comportamentos de ansiedade, como tentar consertar as coisas, eles não estão se abrindo e aprendendo com a crise; ao contrário, estão fugindo dela.

Não há problema em sentir o coração partido — isso significa que você ama o seu filho. Uma vez que os pais lamentem a perda da vida que desejavam para o filho, eles podem aceitar e ficar frente a frente com a criança no ponto em que ela se encontra hoje. Para alguns, isso significa abrir mão de ser mãe de um jogador de futebol ou pai de um jogador de hóquei, abandonar o sonho de preparar a filha para a festa de formatura ao final do ensino médio ou levá-la até a universidade escolhida como primeira opção, ou simplesmente perder os eventos que preenchem o curso “normal” ao longo da infância e da adolescência. Enquanto os pais continuarem firmemente agarrados ao que poderia ter sido (consciente ou inconscientemente), sempre haverá um indício de decepção — que as crianças percebem. Quando os pais sentem completamente essa perda, conseguem aceitar quem o seu filho é por inteiro e percebem a dádiva que um caminho não tradicional ao longo da infância e da adolescência pode trazer.

Pema Chodron, professora do budismo tibetano, escreveu em "Quando tudo se desfaz" que abrir mão da esperança é “o começo do começo. Sem abrir mão da esperança — de que exista um lugar melhor para estar, de que exista alguém melhor com quem estar —, nós nunca poderemos relaxar com o lugar em que estamos ou com quem estamos”. Além disso, a expectativa está sempre associada ao medo; temos a expectativa de que nosso filho ou filha com problemas vá melhorar, porém tememos que não melhore. Pema escreve:

“Em tibetano, a palavra que designa esperança é rewa; a palavra que significa medo é dokpa. De um modo mais geral, utiliza-se a palavra re-dok, que é uma combinação das outras duas. Esperança e medo são um único sentimento com dois lados. Enquanto existir um, sempre existirá o outro. Re-dok é a origem da nossa dor.”

Essa é a essência da atenção plena: permanecer presente e vivenciar esse momento — não importa o quanto possa ser doloroso. Se você conseguir fazer isso, é muito provável que também esteja presente quando a dor desaparecer e der lugar a outra emoção. Mark Epstein, um psicoterapeuta budista, escreve: “A minha experiência é que as emoções — independentemente de sua intensidade — não são devastadoras quando as deixamos respirar.”

Quando os pais abandonam a esperança, por mais estranho que possa parecer, estão se permitindo sentir esse momento, esse evento. Em vez de ficarem com as emoções presas em seu peito ou em sua garganta, congeladas no tempo, deixam o curso dos sentimentos fluir outra vez — talvez consigam dormir outra vez, sorrir outra vez, até mesmo rir outra vez —, seja qual for o comportamento que seu filho esteja apresentando. Isso é aceitação. Epstein escreve:

“A felicidade vem desse abandonar da esperança.”

Quando há a esperança de um resultado sequencial — concluir um tratamento, concluir o ensino médio, concluir a faculdade, entrar com sucesso na idade adulta —, há também muita expectativa e pressão. Independentemente dessas expectativas serem silenciosas ou manifestas, as crianças sempre sentirão essa pressão. Quando os pais têm grandes esperanças com relação a mudanças ou resultados, as crianças sempre terão a sensação de que há alguma coisa errada com quem elas são hoje, como se apresentassem algum defeito e precisassem ser consertadas. Muitas reagem a essa pressão de forma passiva ou inconsciente em oposição à falta de aceitação por parte dos pais. Infelizmente, isso pode também significar mais comportamentos autodestrutivos.

Sei que esse é um território confuso e delicado, mas o objetivo é romper padrões paralisados na relação entre pais e filhos. Os pais podem providenciar que os filhos façam algum tratamento para que aprendam estratégias mais eficazes para administrar seus pensamentos, emoções ou suas vidas —, porém estas são habilidades que os pais também podem aprender. Parte disso significa aceitar a dor e a perda associadas aos conflitos do filho. Ainda assim, a aceitação faz surgir uma suposição desafiadora.

Muitos pais sentem que ser um “bom” pai ou uma “boa” mãe significa se esforçar mais. Os pais associam a desistência a não se importar ou mesmo a aceitar o fracasso. No entanto, essa ideia é um pouco diferente. Quando os pais realmente abandonam a esperança, pode surgir algo novo. Ainda pode haver esperanças e sonhos para o futuro, mas os pais precisam se permitir ficar abertos para o presente desconhecido.

Todos nós já ouvimos histórias de casais que lutam para conceber, que tentam tratamentos de fertilidade e que muitas vezes até dão início à papelada para adoção e chegam a ponto de desistir — e então simplesmente a gravidez acontece. Desistir não significa que você não quer mais um filho — significa simplesmente que você aceita o que está posto. Você está se afastando do pensamento mágico, da negação e das distorções, está indo em direção a uma situação de estar entranhado na realidade.

Um pai com quem trabalhei recentemente perguntou sobre a questão da esperança: “Será que não devemos incutir um sentimento de esperança em nossos filhos?.” Bem, na verdade não é tão simples. É muito frequente que os pais façam afirmações de esperança e incentivo quando pressionam seus botões automáticos:

“Vai dar tudo certo.”
“Não se preocupe.”
“Você adora a escola, lembra?”
“Você vai terminar logo, vai ficar tudo bem.”
“Não é tão ruim assim.”
“Veja pelo lado bom.”

Essas afirmações começam a soar como as mensagens pré-programadas de invalidação discutidas no capítulo anterior. A criança está se sentindo triste, frustrada e chateada, e, em vez de ouvir algo que valide a autenticidade da sua experiência, tentam preenchê-la com esperanças. Essa é uma batalha perdida. Todos nós sabemos o quanto as crianças são capazes de estourar os nossos balões de esperança. E logo abaixo da esperança está o medo. As crianças precisam sentir a esperança vir de dentro; não podemos entregá-la a elas como algo que vem de fora. A criança apenas passará a sentir esperança quando estiver pronta.

Na verdade, forçar o surgimento da esperança pode com frequência ter um efeito contrário ao desejado. Quando uma criança não se sente ouvida, muitas vezes ela vai escalar para a culpa ao direcionar o seu mal-estar de volta para os pais, com afirmações como “Tudo está horrível, e a culpa é sua”. A tentativa de dar esperança rapidamente pode causar um colapso, gerando outra discussão ou uma ruptura na relação entre o pai, a mãe e o filho. Quando os pais se apegam à esperança, acabam por perder a circunstância que o filho vivencia no momento presente.

Em vez disso, os pais podem se encarregar do seu próprio processo de crescimento. Essa é a mudança que podem controlar. Não sabemos o que o futuro trará para os nossos filhos — por sinal, para qualquer pessoa —, mas os pais podem ter consciência de que estão fazendo a sua parte. Afaste-se do planejamento e vá em direção à incerteza do momento presente. Isso pode proporcionar alívio.

Abordagens paradoxais

Para muitos de nós, aceitar a dor, a confusão, o caos, a decepção ou o medo é algo totalmente paradoxal. Muitas pessoas acreditam que o ideal é lutarmos com a vida. Em alguns casos, isso pode ser verdade, como quando a pessoa luta para defender algo em que acredita. No entanto, com os nossos sentimentos, causamos mais danos quando lutamos com eles. Imagine por um instante qualquer sentimento ou conflito emocional que você esteja vivenciando neste momento. Primeiro, confronte-se com ele com toda a sua força — depois permita-se senti-lo plenamente e aceitá-lo. É muito provável que a última atitude proporcione mais alívio. Ainda assim, você pode ser um desses pais e mães que pensam:

“Meu filho ainda vai se sentir irritado, triste, ansioso ou desanimado, mesmo que eu faça tudo certo – ouvir, refletir e validar.”

Lembre-se de que nossos filhos podem ainda assim ficar irritados; nosso trabalho é simplesmente permitir que sintam. Mas ainda assim é sempre bom ter mais algumas ferramentas no cinto de utilidades caso as crianças estejam se esquivando da vida. A abordagem paradoxal é uma dessas ferramentas.

Pesquisas mostram que as abordagens paradoxais — em especial aquelas relacionadas à ansiedade — são bastante eficazes na redução dos sintomas. Por exemplo, se alguém tem medo de altura, você pode simplesmente dizer a essa pessoa para superar isso, o que na verdade alimenta o estresse. Quando alguém diz “Por que você tem tanto medo de altura?”, a mensagem que pode ser ouvida é “O que há de errado com você?”. Quando alguém valida ou reassegura a ansiedade, isso na verdade reduz a tensão e permite que a pessoa ansiosa desabafe um pouco e até mesmo comece a relaxar. Uma abordagem paradoxal se aproxima um pouco mais da ansiedade do que o contrário. Tente dizer: “A sua ansiedade na verdade é uma informação importante que o seu corpo fornece. O que você acha que o seu corpo está lhe dizendo?”

Por exemplo, se um menino sente ansiedade em relação à escola, o pai poderia dizer a ele: “É totalmente certo e normal a pessoa se sentir ansiosa na escola. Você pode tentar combater essa ansiedade, mas acho que mesmo assim ela vai continuar existindo. É melhor aceitar esse sentimento. E se você se permitir ficar ansioso, ou mesmo permitir que isso seja algo bem-vindo? Todos os dias que você vai para a escola estão na verdade expandindo o seu mundo — se você estiver ansioso, isso significa que você está crescendo e expandindo o seu universo. Sentir-se ansioso pode ser uma coisa boa”. Embora seja paradoxal e possa não fazer sentido com tanta obviedade, realmente funciona. Quando a filha estiver realmente triste e sem sair da cama, uma mãe pode dizer: “A sua situação parece ser realmente perturbadora. Posso entender o motivo pelo qual você se sente triste.

Talvez você não deva sair da cama até que esteja pronta para isso.” Isso inverte completamente a situação na cabeça da criança ou adolescente, e também remove qualquer conflito de poder no relacionamento entre mãe e filha. Além disso, elimina qualquer gratificação que a criança possa obter com a resistência. Nesse exemplo, a filha sairá da cama mais rápido porque ela não vai ganhar nada por ficar na cama, exceto mais tristeza. A partir do momento em que for ouvida e validada pela mãe, ela irá processar a emoção e sentir o impulso de superar e seguir em frente. Os pais não se contrapõem à emoção da criança, e a criança não se contrapõe à própria emoção, logo o rio segue o seu curso.

É muito bom experimentar as abordagens paradoxais — elas essencialmente levam um pouco além a ideia da aceitação dos sentimentos ao enquadrarem a emoção negativa como algo positivo.

A emoção negativa se torna algo a aceitar e descobrir, em vez de algo a combater como se fosse uma droga, um litro de sorvete ou um videogame. As abordagens paradoxais continuam enviando a mensagem de que não há nada errado com os sentimentos.

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Nota do editor: este texto é um trecho do livro Educação Valente, de Krissy Pozatek, terapeuta e assistente social focada em pacientes adolescentes. Ele foi traduzido e publicado pela editora Lúcida Letra, do Vitor Barreto, amigo e autor no PapodeHomem.

É parte de uma parceria nasce do respeito que temos pelo trabalho da editora, que promove um conteúdo de florescimento humano apoiado por nós. 

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publicado em 02 de Janeiro de 2018, 00:05
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Krissy Pozatek

Krissy Pozatek é terapeuta e assistente social focada em pacientes adolescentes. Também é escritora, com dois livros publicados sobre o processo de educação dos filhos, sendo Educação Valente o único traduzido para o português até aqui.


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