A Seleção Brasileira Feminina de Futebol tem um novo técnico. E ele é homem

Troca de Emily Lima por Oswaldo Alvarez é mais uma mostra do que há de errado na CBF... e no país?

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Depois de uma passagem com resultados modestos quando conduziu a seleção feminina ao 4º lugar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro e a uma eliminação nas oitavas de final da Copa do Mundo do Canadá, Oswaldo Alvarez, o Vadão, foi anunciado ontem pela CBF como novo técnico da seleção brasileira feminina de futebol, 10 meses depois de ter deixado o mesmo cargo.

Vadão foi técnico do Brasil em duas decepcionantes campanhas recentes e agora volta ao cargo.

Ele será o substituto de Emily Lima, demitida na última sexta-feira pelo presidente da entidade, Marco Polo del Nero, após dois amistosos com derrota na Austrália. E até aí você poderia dizer: nada de novo, troca precoce de treinadores por resultado ruim é a coisa mais comum do futebol brasileiro. Acontece que essa troca não foi uma qualquer e tampouco o real motivo pela troca de Emily por Vadão foram as derrotas do outro lado do mundo:

"Eu já esperava que isso (demissão) fosse acontecer. Não pelos resultados em si, como alegaram, mas pela falta de respaldo da coordenação técnica. Nunca tive esse respaldo do Marco Aurélio (Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF). Já entrei com ele contra mim. Então foi complicado. (...) Saio de cabeça erguida, sabendo que toda a comissão técnica trabalhou e fez um trabalho diferente. Mas isso era errado para o nosso coordenador. O Marco Aurélio me falou várias vezes que eu trabalho demais e que trabalhar demais é errado."

Emily Lima, ex-treinadora da seleção brasileira de futebol em entrevista ao espnW.

Emily Lima, à direita, ao lado de Marta, durante treino da seleção.

Perguntado sobre a demissão de Emily, Marco Aurélio disse:

"Primeiro, desconheço a demissão. Segundo, dei todo o respaldo possível. Às vezes o trabalho tem que ser mais calculado, grau de exigências mais calculado, e quem tem 39 anos de futebol tenta auxiliar. Fiquei esse ano todo trabalhando direto, ofertando tudo que ela necessitava. Tudo que ela pediu foi dado. (Sobre a demissão) eu não acho nada, quem acha é o presidente da CBF."

Marco Aurélio Cunha, coordenador de futebol feminino da CBF em entrevista a ESPN

A demissão e as declarações deixaram clara uma divisão interna no setor que cuida da seleção feminina. Mas se o presidente Marco Polo Del Nero resolveu ficar do lado do coordenador Marco Aurélio Cunha, as jogadoras da seleção chegaram a se reunir com o mandatário e até escreveram uma carta pedindo a permanência da treinadora que, como sabemos, foi em vão:

Carta enviada pelas jogadores ao presidente da CBF solicitando a permanência de Emily Lima

Se surpreender com uma decisão da CBF, a essa altura, é difícil. Nós já estamos calejados e nos tornamos espectadores inertes de uma sucessão de absurdos. Contudo, algumas decisões ainda merecem certa avaliação. E esta parece ser uma. Numa outra entrevista, que Emily concedeu também após a demissão, chegou a dizer:

"O problema ali já tinha nome e como eu via muita coisa errada, eu não me segurava e falava! Porque eu sou assim: gosto das coisas corretas, se eu aceito a coisa errada, estou fazendo parte dela. Foi então que comecei a bater muito de frente e acabou não dando muito certo."

Emily Lima, ex-treinadora da seleção brasileira de futebol em entrevista ao UOL Esportes.

Ela agora, terá uma oportunidade de demonstrar quais eram essas coisas erradas e abrir a caixa preta que a CBF se tornou. É claro que consequências negativas como o comprometimento de sua carreira podem surgir, mas Emily já demonstrou ter personalidade forte o suficiente para encarar a alta cúpula quando estava lá dentro, poderia pelo menos calcular o risco, estando do lado de fora.

Enquanto ela não faz isso, seguimos do lado de cá tentando entender o que fez com que a CBF interrompesse um trabalho promissor de desenvolvimento do futebol feminino. Ao que nos toca, além de contar com o apoio do grupo de atletas da seleção principal, Emily foi a responsável por implantar um banco de dados das Seleções Femininas de modo que se tornou possível, através um único software, mapear o desenvolvimento das jogadoras do Sub-15 e do Sub-17.

Soma-se a isso ainda o fato de que Emily replicou no Brasil práticas comuns de seleções de sucesso mundo a fora, como Alemanha e Estados Unidos, nomeadamente: além de ter uma mulher no comando da seleção feminina, definir um calendário de jogos para a seleção contra as adversárias mais qualificadas, abrir espaço para que revelações como Gabi Nunes e Juci convivessem com jogadoras experientes como Marta e Cristiane, além de trazer uma coach esportiva, Sandra Santos, para a comissão técnica da seleção. Uma profissional que também vinha sendo elogiada pelas jogadoras e que agora, tudo indica, terá seu trabalho interrompido.  

"Quando eu entrei, o planejamento sempre foi trabalho de longo prazo. Mas logo no começo desses dez meses vi que seria bastante difícil porque o coordenador é os olhos do presidente. O Marco Aurélio nunca disse que era contra mim e vai continuar negando, mas tenho informações de dentro da CBF. [...] (Sobre os resultados negativos, eu) busquei resultados do Vadão (ex-treinador) e foram vários negativos: 3 a 0, 4 a 0; mas no caso dele, isso nunca importou"

Emily, na Gávea, assistindo partida do Flamengo pelo Campeonato Brasileiro de Futebol Feminino

O contexto todo fica ainda mais estranho quando consideramos o currículo de Emily antes mesmo de assumir a seleção. A ex-volante que está prestes a completar 37 anos fez cursos para se tornar treinadora na própria CBF e na Europa (algo que nem mesmo Tite fez), compreende a realidade do futebol feminino do Brasil pois já chegou a trabalhar nas seleções de base e teve grande êxito à frente do São José, quando foi vice-campeã da Copa do Brasil.

Esse 'cartel', porém, foi insuficiente, pelo menos na visão dos cartolas da entidade que não conta com nenhuma mulher em sua diretoria e nem na comissão técnica da seleção feminina de futebol. Emily, é claro, foi perguntada se houve preconceito na decisão, ao que respondeu:

"Não sei se existe lobby por técnico homem, mas acho bem difícil outra mulher assumir o cargo. É bastante complicado, no Brasil, uma mulher trabalhar em um cargo como esse."

Pelo sim ou pelo não, é de se imaginar que, considerando o poder social que a seleção brasileira tem, ter uma mulher no comando máximo de sua seleção poderia proporcionar um grande movimento de interesse no esporte por parte das meninas, das marcas e da imprensa. Ou simplesmente o início da discussão da necessidade de mais mulheres em posições de destaque no esporte - tal como estamos fazendo agora.

A CBF, porém, dá sinais sucessivos de que não enxerga o esporte como uma ferramenta de transformação e engajamento social. Aliás, pior do que isso, só enxerga a representatividade cultural de sua seleção quando isso ajuda a impulsionar o negócio que movimenta milhões e emprega milhares... de homens?


publicado em 26 de Setembro de 2017, 00:05
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