A tampa (im)perfeita de cada panela

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Tenho 27 anos, sou solteira e não tenho filhos. Para os mais velhos talvez eu até já figure entre o rol das que ficaram para a titia, já que há uma geração atrás a regra era casar-se até os 20 anos. Mas, para outros, eu ainda não sou um caso perdido: não canso de receber olhares do tipo “A sua vez chegará”, “Vou te apresentar um amigo”.

Quando eu não tenho que ouvir a célebre frase “Relaxa, para toda panela há uma tampa”.

Jorge Amado e Zélia-Gattai: um amor de 56 anos. Panela e tampa, perfeitamente encaixados

É curioso perceber as pessoas desejando a minha salvação, enquanto eu não ache que esteja perdida (pelo menos não nesse aspecto). Aliás, o que garante que alguém que casa e tem filhos seja mais feliz do que alguém que não o faça? Acreditem, é possível ser feliz solteira. Não sei se eu continuarei pensando assim daqui a 20 anos, mas, por enquanto, esse tema não me causa ansiedade. Aliás, acho até que precisamos aprender a ficar bem e sozinhos, para que o relacionamento não se torne uma muleta sem a qual não avançamos, mas um apoio, uma possibilidade de andar ainda melhor.

Conceber um relacionamento ou ainda o pacote “casamento + filhos” como passaportes para a felicidade pressupõe um script cósmico da configuração externa das coisas como garantia de satisfação. Porém, a cara que a nossa vida tem é só fachada: não diz absolutamente nada sobre como estamos nos sentindo de verdade.

Eu não tenho nada contra namorar, casar ou ter filhos. Aliás, já namorei bastante e, se isso vier a acontecer na minha vida de novo, nada contra, acho até bem gostoso. O que parece problemático é assumirmos algum tipo de status civil como sinônimo de felicidade, uma vez que ele, em si, não tem a capacidade de garantir satisfação na vida de alguém, logo, não vem ao caso se considerar na vantagem por ter um maridão e um filhinho lindo. O contrário também é verdadeiro, no caso dos solteiros. Ambas as experiências oferecem inúmeras vantagens e desvantagens, como tudo na vida.

Não se trata de fazer apologia à solteirice. São abundantes os exemplos de solteirões afundados em depressão, assim como a lista de casamentos tensos e infelizes é enorme. A expectativa de que uma configuração de vida em específico nos garanta alguma vantagem perene é o verdadeiro problema. Ainda assim, os indicadores que usamos para avaliar felicidade ainda residem em aspectos bastante externos da nossa vida. Quem nunca escutou o diálogo abaixo?

-- Como está fulano?

-- Está bem! Casou, teve dois filhos, está com um emprego legal, ganhando bem. Até ofereceram a ele um cargo no exterior. Esse tá encaminhado!

A resposta à pergunta parte de um referencial assustadoramente estreito: o de que estar bem é casar, ter filhos, um emprego legal, ganhar bem, trabalhar no exterior.

Quando recebemos uma reposta dessas na vida, deveríamos refazer a pergunta. Eu quero saber como a pessoa realmente está e não o que ela está fazendo.

"Você não é o seu trabalho", disse Tyler Durden. Dá pra acrescentar: "Você não é o seu relacionamento"

É completamente alienígena não incluirmos nos nossos indicadores critérios como brilho no olho, disposição, alegria, relaxamento, saúde, enfim, métodos que digam respeito a como a pessoa realmente está. Nós sequer temos linguagem para falar sobre isso. Tanto é que o diálogo abaixo poderia soar estranho e até um pouco piegas.

-- E fulana, como está?

-- Está super bem! Com o olho brilhando, alegre, saudável, cheia de vida e inspiração!

-- Casou?

-- Não, nem teve filhos. E acabou de se demitir do trabalho, vai tentar alguma coisa diferente.

Enquanto nossos referenciais de felicidade se limitarem a um empregão, maridão, viagens, dinheiro e filhos, o diálogo acima permanecerá raro e as solteironas (e os solteirões!) continuarão a receber o olhar de “Você é um perdedor”.

Poderíamos pensar que, no fundo, já somos bem moderninhos e que ultrapassamos a noção de que a solteirona é uma loser e que a mulher casada e com filhos se deu bem. Talvez tenhamos de fato ultrapassado essas ideias no nível mais político e social, afinal, ninguém ousaria julgar abertamente uma solteirona, porém, internamente, a sensação predominante parece ser a de que ela está um pouco fora do eixo, está fazendo algo deslocado e com menos chances de sucesso.

O que sustenta esses referenciais estreitos de felicidade parece ser uma crença muito entranhada e sutil de que, de fato, há um gran finale, um momento ideal em que os tambores tocarão para nós, em que vamos encontrar as pessoas perfeitas, ter os filhos perfeitos, a casa perfeita, circunstâncias que finalmente farão da nossa vida uma experiência agradável e angelical. Como esse momento nunca chega, ou, se chega, dura pouco, nos frustramos. Mas ainda assim seguimos, com uma esperançazinha de que há uma luz no fim do túnel, de que para cada panela há uma tampa, de que em algum lugar existe o encaixe perfeito esperando por nós.

Porém, com o passar dos anos, todas as tampas se deformam, entortam, mudam de cor. E aí? Se o que nos sustentava era a perfeição do encaixe, vamos inevitavelmente nos espatifar no chão. Para aliviar a queda e um dia não cair mais, precisamos olhar diretamente para a realidade e ver que as coisas não funcionam como esse software alienígena sugere.

Tom Cruise e Katie Holmes. Feitos um para o outro...

Exercício de contemplação

Um bom exercício prático para ver isso operando, sugerido pelo Lama Padma Samten, é o seguinte:

1. Pegue uma revista Caras antiga cuja capa mostra artistas recém-casados radiantes e felizes na Ilha de Caras. Investigue os próximos capítulos até achar o entortamento da tampa. Se você não encontrou, espere mais um pouco. Esse é um bom exercício para combatermos o péssimo hábito de acharmos que a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa.

2. Concentre-se. Agora pense em quantas pessoas você conhece, incluindo você, que encontraram (várias vezes!) com convicção a tampa para sua panela e depois se entortaram (várias vezes!). Devíamos, no mínimo, sorrir diante das nossas convicções de que encontramos a tampa perfeita, como quem sabe que aquilo é uma piada cósmica gostosa. Pra não chorar depois, podemos sorrir no começo, de saída.

Toda hora me flagro procurando os encaixes perfeitos. E cada vez mais me convenço de que isso é um tiro no pé, porque o mundo é muito mais dinâmico, plástico e maleável do que aquilo que eu espero dele. Por isso, tenho tentado viver a vida com menos expectativas de achar as tampas das panelas. Não só em relacionamento, mas em qualquer área da vida.

É como deixar de acreditar em príncipe encantado, em trabalho encantado, em cidade encantada, em amigos encantados, em corpo encantado, em família encantada. É como parar de exigir um encantamento particular das coisas. E deixar elas serem o que são.

Curiosamente, a coisa toda vai ficando muito mais interessante do que o mundo encantado dos encaixes perfeitos que eu queria pra mim.


publicado em 21 de Julho de 2012, 21:00
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Stela Santin

Stela Santin é uma catarinense sagitariana que adora chimarrão. Acha a vida extremamente intrigante e desafiadora. De resto, nem vai dizer do que gosta ou o que é, porque amanhã já mudou tudo. Pouco confiável.


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