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A vida me tornou um cara frio | ID #46

Os calos que a vida vão gerando não necessariamente precisam nos fechar para as alegrias do mundo

"Estava eu lendo este texto 'a depressão masculina' e refletindo uma história que aconteceu comigo há um tempo:
Há dois anos, me envolvi com uma mulher na qual eu acreditava ser a mulher da minha vida, passei bastante tempo com ela acreditando que nós ficaríamos juntos eternamente. 
Depois de um tempo, terminamos, cada um pro seu lado e eu fiquei muito abatido. 
Decepcionado com as pessoas, me afundei no álcool até que resolvi direcionar o meu foco para outra coisa, esportes e crescimento pessoal, já faz um tempo que não bebo e estou praticando musculação, artes marciais e crescendo financeiramente. Até aí tudo bem.
O problema é que ultimamente tenho me tornado bastante frio com as pessoas, antissocial e não confio mais nas mulheres e nem deixo que cheguem muito perto. Isso é um problema ou é apenas uma defesa natural que com o tempo passa?
Fiquei com essa dúvida na mente depois de ler este texto pois já tive vários dos sintomas citados, hoje não os tenho, mas, sinto que apenas os troquei por um fechamento para as emoções e a vida social.
J.F."

Bem, meu caro J.F., se eu pudesse fazer um belo chute, diria que 9 entre 10 homens poderiam afirmar algo muito parecido com o que você descreve. Depois de certa idade ou evento traumático, parece que criam um tipo de casca emocional que os faz enxergar a vida de um modo "superior", direto, racional e sem afetação emocional.

Mas deixe-me contar um segredo. 

As emoções humanas estão presentes, goste ou não, aceite ou não, concorde ou não. 

Você tem um sistema límbico ativo, logo, as emoções estão aí. Se você não tivesse emoções, seria incapaz de ter uma vida funcional, produtiva, ativa e até minimamente sociável.

Para que servem as emoções?

As emoções tem uma importante função regulatória no convívio entre as pessoas, que é o de fazê-las entender qual é o grau de perigo ou amistosidade em relação aos outros. 

A nossa sobrevivência física e psicológica depende desses laços sutis que só podem ser regulados por uma capacidade de emitir e reconhecer emoções humanas. Elas regulam os limites psicológicos entre as pessoas e, mais que isso, permitem que nossas escolhas sejam tomadas seguindo algum tipo de eixo.

Quando você precisa decidir se vai casar ou comprar uma bicicleta, isso passa diretamente pelo campo das emoções. Os valores que cultiva na vida, como solidariedade, justiça, felicidade, prosperidade, comunhão, criam uma visão de mundo na qual as emoções bebem para que você direcione para qual lado vai.

Sem a consciência dessas emoções você decide com mais dificuldade, vive como alguém que não consegue escolher uma roupa, um prato de comida ou se vai tirar férias na Austrália ou no Himalaia.

Como as emoções nascem e murcham?

Olhe para uma criança, qualquer criança, e repare como ela atavicamente tem um instinto de abrir os braços e expressar afeto. 

Todos nós já fomos assim. Todos, mesmo o Hitler, mesmo o maníaco do Parque, mesmo qualquer pessoa que você considere sem coração, inclusive você. O que aconteceu no meio do caminho que fez todas essas pessoas se perderem?

O embotamento afetivo, termo técnico para a incapacidade de perceber as emoções, vai acontecendo aos poucos. Do mesmo jeito que as crianças são muito disponíveis, também são muito sensíveis. 

Elas oferecem as coisas gratuitamente não porque são puras, mas porque os neurônios-espelho são menos ativados. Elas tem menos empatia e capacidade de perceber o que os outros sentem, então, como uma pessoazinha sem noção, ela imagina que as pessoas estão muito alegres como ela e simplesmente se joga no colo e nos braços alheios. Para a maior parte das pessoas, essa intromissão infantil tem um efeito catártico, você se abre como uma flor para retribuir aquela alegria.

Algumas crianças e adolescentes vão notando precocemente que os demais nem sempre eram receptivos como antes e essa rejeição foi criando "calos emocionais". Lentamente aquele bebê disponível se torna um adolescente arredio por temer ser rejeitado emocionalmente. 

Se antes era uma criança que todos recebiam incondicionamente, agora ele começa a ser testado, avaliado, julgado e, dependendo do seu rendimento intelectual, escolar, social, esportivo entrará para o panteão dos deuses-adultos ou não.

Os meninos sofrem uma pressão extra, pois são obrigados a mostrar força e desenvoltura numa idade onde eles mal sabem articular meia dúzia de gracejos. Depois de um tempo, o lema subconsciente é "sofri e por isso me fechei". Ou seja, por medo de dar unilateralmente sem receber nada em troca, ele se tranca numa masmorra da qual pagará um preço alto se quiser sair.

Dar ou receber afeto será visto como uma maneira de se expor e se vulnerabilizar, coisa que recusará fazer a qualquer custo.

"Mas e daí se eu me fechar? Me sinto melhor assim!"

Pois é, meu jovem, existem muitos efeitos colaterais ao fechar seu coraçãozinho.

  • Entrará em um ponto-cego: será incapaz de ver pequenos milagres de bondade na vida cotidiana ou de fazer uma introspeção e auto-avaliação adequada. Portanto, terá perdas sociais, profissionais, financeiras, e será bloqueado para ser um líder inspirador genuíno.
  • Perda de brilho: se tornará uma pessoa cínica e muitas vezes incapaz de ter fé, confiança, otimismo e auto-motivação (que depende da conexão com as emoções).
  • Perda do radar: muitas percepções sociais ficarão fraturadas, será incapaz de perceber um climão, um constrangimento alheio e será candidato a ser rude (e profeticamente excluído do bando).
  • Perda de conexão emocional: sua disposição para intimidade emocional será muito baixa e tudo que passar perto de "relacionamento amoroso", "casamento", "paternidade", vínculo" será visto como um inimigo (enganoso) de sua liberdade (quando na verdade o que você protege é seu controle).
  • Perda de desejo: seu tesão depende de conexão emocional, mas você ficará refém de masturbação e pornografia que darão um subproduto visual do que é o sexo de verdade que depende de carne, osso e sentimentos. Você ejaculará, mas nunca terá um orgasmo.
  • Perda de traquejo social: como não percebe com clareza suas emoções, não conseguirá ter desenvoltura ou saber a hora de se posicionar ou calar, correrá o risco de ser inconveniente.

Como se abrir emocionalmente?

É importante seguir em um treino constante de lembrar que a vida não dará garantias e, ao mesmo tempo, ficar aberto para todo o tipo de impacto externo. 

Essa é uma decisão psicológica e moral, pois você lidará com coisas indigestas e o mundo não será mais benevolente com você só porque se abriu. Com o tempo, se acostumará e, como tudo na vida, isso tende a se tornar um novo hábito.

Apesar do esforço, esse movimento vai tirar uma venda dos olhos que permitirá que respire psicologicamente de um jeito mais arejado. 

Antes de terminar o texto, deixo também cinco sugestões em formas de dicas rápidas para exercitar a abertura emocional.

  1. Tenha um diário. Anote tudo o que puder do seu mundo interno por 30 dias seguidos (que vão mudar sua vida).
  2. Aprenda o nome de uma emoção nova a cada dois dias. Procure no dicionário, saiba dar nome aos bois.
  3. Saiba dar nome para a emoção despertada por um evento externo. Crie conexões causais entre algo que fora com dentro.
  4. Aprenda a reconhecer 3 emoções básicas em você, as mais fáceis são tristeza, medo, raiva. Faça uma tabela para saber quando elas surgiram e relacionadas com o que.
  5. Aprenda a reconhecer emoções nos outros. Tente identificar o que os outros sentem.

* * *

Nota: A coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas), mas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão livre, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta olhe as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa e se mesmo assim achar que ela beneficiará outras pessoas envie para id@papodehomem.com.br.


publicado em 21 de Maio de 2015, 00:05
File

Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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