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Álbum de figurinhas: Maria José e as desapropriações para a Copa em Pernambuco

Maria José criou a si mesma, os seis filhos e os netos no Loteamento São Francisco de Timbi, na periferia de Camaragibe. Em novembro do ano passado, a necessidade de deixar para trás o município da região metropolitana do Recife bateu à porta da senhora de 65 anos.

E não se trata de sentido figurado.

Um funcionário terceirizado pela prefeitura lhe avisou, em uma quinta pela manhã, que sua casa precisava estar vazia até a segunda-feira seguinte. As obras para a passagem dos BRT’s (Bus Rapid Transit) do Ramal da Copa e para a expansão do Terminal Integrado de ônibus Camaragibe passariam pelo terreno que dividia com outros sete grupos de sua família.

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Recolheu as portas de alumínio e as janelas do espaço recém reformado, pagou R$ 100 pela mudança e passou três meses fora do lugar que sentia como seu. Voltou ao bairro em fevereiro de 2014, e encontrou um poste de luz e um descampado vazio onde ficava a entrada da antiga casa. As partidas da Copa em Pernambuco já terminaram, mas as obras do BRT estão incompletas e as obras do TI Camaragibe sequer foram licitadas.

Maria José recebeu nesta segunda-feira, 30 de junho – oito meses depois da desapropriação –, os 36 mil reais de indenização a que tinha direito. Dinheiro na conta, resta a engenharia financeira: as casas na região custam entre 80 e 100 mil reais.

Caso compre o terreno de R$ 10 mil que o filho Edimilson encontrou no topo de uma ladeira, seria necessário um empréstimo para completar os R$ 40 mil que imaginam para a construção em si. Na casa aual, o aluguel sai por R$ 450 mais as contas, um preço alto para o conjunto de dois salários mínimos que os quatro moradores – ela, o filho e dois netos – recebem entre pensão e seguro desemprego (o orçamento também diminuiu em R$ 200 com o fim da banca de verduras que alugavam no endereço anterior).

Ruim para o bolso, o dia a dia também tem sido um problema para a cabeça. O posto de saúde que atende a comunidade se mudou. A igreja de que Maria José é fiel ficou mais longe. As vizinhas, com quem passava os dias proseando na soleira de casa, se espalharam como a tristeza que ronda por ali. Quando a casa fica vazia, restam apenas a televisão e os quatro gatos como companhia.

Não é a toa que, mesmo a 20 minutos a pé de um dos palcos mais bonitos do Mundial 2014, a família mal quer saber dos jogos da Copa. Nas palavras da neta de 13 anos:

Eu não vou assistir não. É por causa deles que tiraram a casa da senhora.
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Uma Copa do Mundo se faz com pessoas.

As que entram em campo, as que viajam para testemunhá-la, as que enchem as ruas, as que se voluntariam, as que torcem e as que veem no evento uma oportunidade para garantir seu sustento ou para extravasar.

A seção “Álbum de Figurinhas” pretende contar, com um microrrelato artesanal e um retrato por dia, a história de algumas dessas pessoas, muitas vezes invisíveis, que povoam os bastidores da Copa do Mundo do Brasil.

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Para ler todos os textos, basta entrar no nosso Álbum de Figurinhas.


publicado em 02 de Julho de 2014, 17:30
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Ismael dos Anjos

Ismael dos Anjos é mineiro, jornalista e fotógrafo. Acredita que uma boa história, não importa o formato escolhido, tem o poder de fomentar diálogos, humanizar, provocar empatia, educar, inspirar e fazer das pessoas protagonistas de suas próprias narrativas. Siga-o no Instagram.


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