A conversa sobre paternidade é uma das mais importantes do nosso tempo. Venha para o PAI: Os desafios da paternidade atual, discutir e colocar em prática o tema.
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"Pai, o que tem pro jantar?" de uma boa relação familiar com a comida

Um convite a explorar uma paternidade mais ativa na alimentação dos filhos

O que exatamente os pais fazem pelos seus filhos? Quanto os pais se importam com eles? O vínculo infantil é limitado às mães? Os pais contribuem para o desenvolvimento e desempenho dos seus filhos?

Até que as mulheres começaram a entrar no mercado de trabalho com grande intensidade na década de 70, os pais tinham a função de garantir o sustento da família. Entendo que esse não seja um gesto muito carinhoso, mas era de extrema importância para manter as crianças bem alimentadas, por exemplo.

Mas você ainda acredita que essa é a única contribuição de um pai?

Se voltássemos uns 40 anos no tempo, poderíamos até dizer que sim. Por muito tempo, os especialistas acreditaram que a relação mãe-bebê era única e mais importante que qualquer outro relacionamento. Acreditava nisso até mesmo Darwin, que via nessa relação uma vantagem evolucionária.

Diversos cientistas sociais, que deveriam estar atentos às mudanças de conceitos sobre paternidade, contribuíram para a desvalorização dos pais. Por acreditarem que as mães eram as cuidadoras primárias, tinham muito mais importância do que os pais. Os homens não conseguiam ver seu real papel, já que eram informados pela sociedade que eram apenas provedores da renda familiar.

Os próprios veículos de comunicação reproduziam as ideias da época. Essa imagem paternal é antiga, e ainda em 1920 os desenhos do The Saturday Evening Post retratavam o pai como um bobo que não sabia disciplinar seus filhos, cozinhar uma refeição, nem pôr seus filhos para dormir sem fazer uma besteira.

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Temos exemplos mais recentes: em 2012 as fraldas Huggies lançaram uma campanha publicitária que simulava uma investigação para saber se as fraldas eram anatômicas e mais resistentes que a concorrência.

“Testadas com pais reais” eles diziam. A mensagem dizia que, se funcionasse com a péssima habilidade de um pai, poderia funcionar com qualquer outro cuidador

Seria essa uma contribuição relevante de um pai?

É muito interessante ver o crescente engajamento de pais que querem romper com preconceitos e ainda criar novos caminhos e possibilidades. Novos papeis têm surgido recentemente, e pais são considerados companheiros, cuidadores, maridos, protetores, modelos, guias, professores, etc. E claro que, com essa perspectiva, eu, como nutricionista e homem, fico muito feliz, pois passamos a ver pais atuando em atividades que tradicionalmente são ocupadas por mulheres – a alimentação dos filhos, por exemplo. Assim, com essa maior presença paterna, podemos melhorar o desenvolvimento dessas crianças.

Então, já que esse papel está em aberto, qual a função do pai hoje? Prover autoridade e estabilidade econômica na vida das crianças? Garantir o alimento?

Nós podemos fazer mais, podemos nos envolver em todas as fases de aprendizado e vivência dos filhos.

Nota do autor: Entenda que todas as atividades que serão citadas não são “ajuda”, são atribuições de alguém que quer o melhor aos seus filhos.

Antes da criança vir ao mundo

Muito do que influenciará o desenvolvimento dos seus filhos acontece antes mesmo da notícia de que você será pai. Podemos citar aqui o seu fator genético e também a sua alimentação. Esse segundo está muito claro quando falamos sobre uma mulher grávida – ela deveria ter uma alimentação saudável, não é mesmo? Isso é fácil de entender, já que o feto e a mãe estão intimamente conectados.

Caso seguíssemos essa linha de pensamento imaginaríamos que o pai teria pouca ou nenhuma influência na saúde dessa futura criança, afinal de contas, eles não têm nenhuma conexão. Mas esse raciocínio está errado. A alimentação paterna tem efeito direto na saúde do feto e na saúde dos netos desse pai.

Gladys Friedler, uma farmacologista que em meados dos anos 60 estudava os efeitos da morfina em ratas, observou que a droga alterou o desenvolvimento da prole. Curiosa, a pesquisadora decidiu aplicar morfina em ratos machos para posterior cruzamento com ratas saudáveis. Os filhotes nasceram subdesenvolvidos.

Essa descoberta foi tão inovadora que Gladys sofreu muita resistência e preconceito pela sociedade científica por causa de seus resultados, que demonstravam diretamente a influência que um homem poderia ter na saúde dos filhos. Em suas palavras:

"Não me ocorreu que você não deveria olhar para os papéis dos pais nos defeitos de nascimento. Inicialmente eu não estava ciente da resistência. Eu era na verdade uma dessas pessoas ingênuas demais para trabalhar neste campo”.

Com o passar dos anos essa ideia passou a ser aceita e estudada por diferentes modelos experimentais, incluindo nutrientes. Investigadores alimentaram ratos machos com rações hiperlipídicas a ponto de tornarem-se obesos, e em seguida os cruzaram com fêmeas sadias. Novamente, a prole foi influenciada negativamente, tendo um maior risco de desenvolvimento de diabetes.

Ou seja, você pode ainda não ser pai, mas já está afetando o futuro dos seus futuros filhos com a sua alimentação atual.

Outros fatores que podem influenciar negativamente na saúde do feto são a alimentação com pouca proteína, estresse, experiências traumáticas, instabilidade social e sua ocupação e trabalho.

Gestação

Seu filho já está em formação, e o seu papel principal está em acompanhar as consultas de pré-natal, entender o que está acontecendo e estar preparado para mudanças.

Essa será uma ótima oportunidade para aperfeiçoar suas habilidades culinárias e criar uma nova rotina. E quando falo rotina, não é simplesmente rotina alimentar, mas também a forma como você tem levado a vida: é preciso ver a cozinha como um treino para a vida.

Pronto, nasceu, acabou?

Muitos pais só se sentem pais depois do nascimento. Pra esses, todos os cuidados e treinamentos dos quais falamos até agora aparecem de uma só vez, em uma enxurrada de informação. Não é o ideal, mas faz parte.

Quando falamos em amamentação, muitos projetos e campanhas mundiais vêm em mente, mas especificamente no Brasil vende-se a imagem de que apenas incentivar o aleitamento materno basta. Só que não é tão simples.

Além do preconceito que diversas mães sofrem ao alimentarem seus filhos em público, acredita-se que essa é uma atividade simples, fácil, natural e que mães já nascem sabendo o que fazer. Mas a verdade é que o momento pode ser de adaptação complicada e exigir técnica, necessidade de prática e empatia com o bebê.

Está aí mais uma ótima oportunidade para ser pai. Além de todo suporte emocional à mãe por conta dos momentos de dificuldade, ele poderá aprender todas as estratégias necessárias para auxiliá-la durante a amamentação, como também responsabilizar-se pelas tarefas da casa e cuidados com os outros filhos. O segredo aqui é ter vontade de aprender e engajamento.

Exemplo inspirador: o fotógrafo Hector Cruz conta que, quando sua esposa estava grávida, ele queria aprender sobre como cuidar de recém-nascidos, mas foi proibido de frequentar as aulas de amamentação, o que gerou frustrações. E é justamente assim que muitos pais se sentem: desorientados, confusos e indefesos. Pensando nisso fundou o Breastfeeding Project, com o objetivo de educar homens e empoderar mulheres.

"Se nós educarmos os homens, nós empoderamos as mulheres, e toda a estigma de amamentação em público sai pela janela, isso já não é mais um problema! As mulheres precisavam ver não apenas ouvir que nós, como pais , éramos favoráveis ​​a elas, que estávamos apoiando” - Hector Cruz.

Introdução alimentar

A alimentação da criança desde o nascimento e nos primeiros anos de vida tem repercussões para toda a vida. Nesse sentido, o leite materno é o alimento mais adequado para nutrir as crianças até os 6 meses de vida. Após esse período torna-se necessário complementar seu cardápio.

É nesse momento que o pai forma hábitos que podem durar por toda a vida da criança, dependendo de como for sua experiência com esse novo alimento. Ela pode ser negativa quando o cuidador é apressado, usa a força, aumenta o tom de voz, se irrita, prepara a refeição de qualquer jeito. A fase exige muita paciência, respeitando o aprendizado do bebê, valorizando cada avanço e oferecendo uma refeição saborosa preparada com carinho.

Onde você encontra os alimentos para consumo? Na feira? No mercado? Na horta da sua casa?

Quais alimentos vocês consomem? Industrializados? Minimamente processados? Orgânicos? Frutas? Verduras? Cores variadas?

Quem prepara as refeições? É trabalho da mãe? É trabalho do pai? É trabalho de todos?

Qual o local da refeição? No sofá? Na rua? Com os amigos? Com a família reunida?

Como é realizada essa refeição? Conversando? Vendo televisão? Mexendo no celular? Interagindo um com o outro?

Todas essas são perguntas estão diretamente relacionadas a quão saudáveis são os hábitos alimentares do núcleo familiar. Suas crianças encontrarão as respostas observando a relação dos pais com a alimentação, portanto, seja exemplo.

Demonstre como é possível criar um relacionamento mais saudável e feliz com as crianças através da alimentação. Ensine que o momento de comer está também nos sentimentos e carinho que você proporciona aos seus filhos durante uma conversa na mesa de almoço ou até mesmo na hora de cozinhar.

Se você pudesse jantar com qualquer pessoa no mundo, quem escolheria?

O pai que alimenta sonhos

Estou no mundo da nutrição há dez anos e meu trabalho deu uma chacoalhada quando recebi o seguinte depoimento:

"Perdi minha esposa há alguns meses e minha filha tem sido a minha razão de viver."

Nos últimos anos tenho trabalhado desenvolvendo relações positivas entre famílias e sua alimentação, e tem sido muito gratificante ajudar centenas de mães, pais e filhos na primeira infância. Por outro lado, algo não faz sentido: a cada dez novos contatos que recebo, nove são de mães.

Quando iniciamos os serviços para a criação de novos hábitos alimentares, alguns homens um pouco tímidos se dedicam e se esforçam para participar da alimentação de seus filhos. Uns aprendem a cozinhar, outros passam a frequentar feiras e até mesmo começam uma plantação de temperos no quintal de casa. Todas essas ações aumentam incrivelmente a qualidade de vida da família, pois fortalecem o vínculo familiar e trazem o cultivo de hábitos saudáveis.

Por outro lado, mesmo observando os efeitos positivos do engajamento dos homens nos cuidados de filhos, comecei a achar curiosa a situação de serem minoria no interesse dessas questões. Então iniciei alguns testes internos em nossas campanhas de divulgação, criando materiais com uma linguagem direcionada para homens que têm filhos.

O resultado?

Mais de 4 mil pessoas receberam esse conteúdo e apenas 224 interagiram com o conteúdo. Uma dessas foi justamente pai do depoimento no início do texto. É como se as atividades “pai e filho” mais profundas apenas acontecessem na pressão da vida e não por interesse da maioria dos homens.

Questione suas certezas, desafie os diversos papéis que a sociedade apresentou a você. Então olhe no fundo dos olhos do seu filho ou de sua filha e se pergunte:

"Qual o meu papel? Eu quero pagar pelos alimentos ou quero alimentar o sonho dessa criança?"

Você poderá encontrar algumas novas razões para viver, antes que a vida decida por você.


publicado em 20 de Abril de 2016, 11:30
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Eduardo Szpak Gaievski

Nutricionista mestre em ciência dos alimentos e sonhador em tempo integral. Também é idealizador e fundador da Alimente Saúde, ajudando mães, pais e filhos a criarem uma relação positiva com a alimentação.


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