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Amor de velho

A chatice da Dona Antônia só não era maior que a paciência de seu marido. Casada já pra lá das bodas de ouro, a Dona Antônia passou a vida todinha ocupando-se com o zelo pela casa. Era um sobradinho bem localizado, quase na esquina da Avenida Pompeia, zona oeste de São Paulo.

A Dona Antônia era toda aplicada nas tarefas do lar. Ela tirava o pó dos móveis todas as manhãs, lustrava todos os cacarecos da estante, batia os tapetinhos da entrada da casa e os que ficavam ao lado da cama de casal. Varria, passava pano, organizava a louça lavada no escorredor, pedia ajuda para arrastar os sofás e passava aspirador embaixo de tudo.

Seu ajudante eterno era o Seu Vágner, um septuagenário que gostava de vestir calças sociais verde oliva e casacos de lã acinzentados. Todos os dias, ele acordava com o céu ainda negro e ia até a varanda para ver a vida começar em mais um dia. As primeiras pessoas que saíam de casa para trabalhar, a brincadeira das maritacas na árvore da frente, o sol clarear tudo o que ele conseguia ver. Sorria logo de manhã, dava bom dia a quem passava, ia para a cozinha para preparar o café da manhã.

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Ele era um doce imensurável de pessoa e seria uma das companhias mais cobiçadas do bairro se não fosse casado com a Dona Antônia. O problema é que a velha era só reclamação. Acordava bufando, saía do banho murmurando pragas contra o chuveiro, a toalha, o xampu, a escova de cabelos. Batia a porta do guarda-roupas ao se trocar. Babava críticas sobre a torrada, a gordura do leite, lia e relia a porção nutricional do saco de biscoitos e maldizia a comida industrializada. O Seu Vágner só fazia era silêncio enquanto ela discursava sobre o lado ruim da vida.

Se dependesse da vontade do Seu Vágner, todos os dias seriam dias de ouvir música alta enquanto a faxina da casa era feita. Adorava Lupicínio Rodrigues e poderia passar horas ouvindo as lamúrias do compositor gaúcho. Mas não era permitido ligar qualquer melodia enquanto a tarefa do lar não estivesse concluída. A Dona Antônia precisava que ele tivesse ouvidos de menino enquanto cuidava da poeira da casa, das mudas de roupa, da gordura na cozinha. Era para ele ficar sempre de prontidão caso ela necessitasse de mãos mais fortes, de uma ida à casa de material de limpeza, de alguém pra ouvir suas desaprovações.

Sempre que era convocado, lá estava o Seu Vágner levando mais um pouco do lustra-móveis, pronto para botar aquelas pedrinhas com cheiro de pinho no vaso sanitário, torcer panos, vigiar a panela de feijão. Todos os pedidos eram acompanhados de maldizeres, de comentários desgostosos sobre o estado da casa, o clima muito gelado ou abafado demais, a escadinha de alumínio de três degraus que era uma droga, a alça do balde que não foi feita para segurar, mas só para machucar as mãos.

A Dona Antônia choramingava e o Seu Vágner olhava para o céu, pela janela, através de seu reflexo no vidro do armário da cozinha. Era um cotidiano de subterfúgios repetidos para não dar de frente com as horas ranzinzas da esposa. Seu momento predileto era quando lhe era ordenado varrer a calçada. A Dona Antônia não gostava mais de colocar os pés para fora de casa e essa tarefa ficava como que exclusiva do homem da casa. Era bom porque ele tinha mais espaço para si mesmo e as lástimas de sua esposa ficavam mais longes. Isso até o acontecido.

Em frente à casa do casal, ao lado da portinhola de entrada, um abacateiro de mais de vinte metros que possuía uma bela quantidade de galhos fortes e, como haveria de ser, davam -- nas épocas certas -- muitos frutos. Abacates nasciam e caíam da árvore, levando a Dona Antônia à loucura. Um dia, um dos frutos maduros caiu em cima de um carro estacionado na frente da casa. Um barulho horrível e um amassado no teto do veículo. Ninguém se machucou, mas o trauma fora criado. Desse dia em diante, a tranquilidade na calçada acabou. Toda vez que ia para a frente de casa, era obrigado a conviver com a celeuma individual de sua esposa. Era uma gritaria ininterrupta. A Dona Antônia ficava na ponta dos pés, na varanda, avisando as pessoas para não pararem na frente de sua casa, para não estacionarem o carro debaixo do abacateiro, para não passarem por lá, para atravessarem a rua. Tudo isso junto com as ordens de limpeza que ela bradava, lá do alto, para o seu marido. Era um tal de "limpa aqui", de "não esquece ali", ela ordenava a maneira com que a limpeza teria de ser feita, de onde até onde, quais as partes importantes. Era pra recolher as frutas caídas, tirar do passeio todas as sementes, as folhas, os galhos, os chicletes grudados (como se ela os pudesse enxergar).

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Seu Vágner fazia tudo conforme o combinado. Executava suas incumbências com um silêncio só quebrado quando, sem deixar sua mulher perceber, pedia desculpas para as pessoas que passavam e ouviam as reclamações da velha maluca lá de cima.

Virou sina.

A Dona Antônia se tornou vigilante da calçada, sentinela do abacateiro. Ninguém passava em frente de sua casa sem ser prontamente informado sobre os perigos da gravidade, carro algum podia parar sob a árvore, enfim, a velha passava horas em sua diligência pedregosa. Sinalizava, avisava, ficava de olho. De quando em quando, entrava na sala para contar para o marido as sandices de pessoas que, mesmo sendo informadas dos perigos, se atreviam a passar pela calçada mesmo assim.

O senhor, assistindo televisão, apenas acenava com a cabeça, simulava concordar, aparentava escutar tudo o que ela dizia. Era um inferno.

Os lamentos se empilhavam durante o dia. Na hora do jantar, ela reclamava dos abacates. Vendo a novela, ela judiava os ouvidos do velho repetindo histórias passadas sobre a calçada. Na cama, já de pijamas e apenas com a luz do abajur acesa, ela confabulava sobre o que deveria ser dito e feito no dia seguinte, uma vez que queria sanar esse empecilho que era ter pessoas indo e vindo em frente a sua casa. Ele olhava para sua esposa e via, na iluminação branda do quebra-luz, gotículas de saliva que saíam feito tiro da boca da velha.

Era um sem fim de exigências, protestos, azedumes. O sono dela não chegava. A boca dela não cessava. O travesseiro quase que se moveu sozinho. Ele fechou os olhos e inclinou a cabeça para cima. Respirou fundo, daquela puxada de ar que busca frescor. As mãos ainda eram fortes o suficiente para manter a fronha em contato com os orifícios da narina. Sentir o tremor, o debater-se dela. Ele apenas desfrutava, concentrava seu peso nas duas mãos.

Sossego. A mudez do quarto era como um orgasmo celestial. Tudo ficou instantaneamente mais amplo, mais agradável, mais fluido. Os segundos deslizavam, o colchão era mais macio, a temperatura mais baixa da noite era ideal. Pegou um livro para ler e ficou acordado até as duas da madrugada, coisa que não fazia há décadas.

No outro dia, tratou de ir até o quintal e foi também até a calçada e recolheu alguns abacates que estavam no chão. Repetiu o feito a semana toda. No domingo, em vez de ir à missa, tratou de adornar a cama onde jazia sua esposa com todos os abacates que acumulara nos dias anteriores. Era um ataúde tropical, um esquife natural. Havia abacate em volta dela, nos criados-mudos, no chão. Dias depois, era já uma tumba frutífera, mal se conseguia entrar no cômodo de tanto abacate. Uma massa verde estava sendo acumulada em volta do cadáver. Ele achava tudo lindo demais.

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Um estalo e lá estava o Seu Vágner, tomando café com leite em um copo comum enquanto sua mulher, sentada  ao seu lado na mesa, queixava-se dos restos de pão acumulados na toalha da mesa. Perdeu-se em pensamentos e voltou ao estado consciente com as batidas do dedo da velha na mesa.

Ele não se mexeu. Seus olhos voltaram a ter foco e miraram a dona Antônia de sempre. Tomou um gole do pingado, respirou fundo, deixou ela falar. Matou na boca o que ainda havia no copo, pegou nas mãos dela com as suas. Beijou-as. O velho se levantou, chegou mais perto de sua mulher e tornou a beijá-la, dessa vez na testa, um beijo com tempo maior. Juntou os restos de pão na toalha, puxou-os para o canto da mesa e derrubou-os na mão esquerda. Jogou tudo no lixo, aproveitou para pegar a pá e a vassoura e chamou sua Antônia para ir lá fora, olhar da varanda enquanto ele varria a calçada.


publicado em 22 de Outubro de 2013, 22:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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