Análise combinatória

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Não deu muita atenção quando sentiu alguém sentando na poltrona ao lado.

Olhos fechados, fones de ouvido, tudo que ele queria era conseguir transformar aquela viagem de seis horas no mais próximo possível de uma experiência de teletransporte, pegando no sono antes que o ônibus saísse e só acordando quando ele chegasse, sem interrupções. Por isso não foi exatamente com a expressão mais simpática do mundo que ele respondeu aos tapinhas no ombro quando eles começaram.

Ela dizia que tinha comprado a passagem da janela, poltrona 23 e ainda que ele soubesse que isso não era possível a não ser que aquele ônibus fosse o primeiro de uma nova linha com bancos repetidos, resolveu conferir as duas passagens. Ela riu de um jeito encabulado e engraçadinho quando viu que na verdade aquele era o número da plataforma e a poltrona dela era a do fundo, colada na porta do banheiro. Como já tinha um casal sentado por lá, perguntou se podia continuar sentada ali. Ele, meio pra ser simpático, meio porque tinha uma queda por risadas engraçadinhas, disse que sim, tudo bem.

Mario Kart

Conversaram a noite toda. Ela tinha acabado de se formar em direito e estava indo pra cidade fazer uma prova. Ele estava voltando pro casamento de um amigo e estava com medo de rever uma ex-namorada. Ela tinha 26, uma covinha no queixo, uns olhos castanhos de personagem de mangá e uma risada que podia ser ouvida pelo motorista do ônibus da frente. Ele tinha 25, sempre escolhia o Toad no , não gostava de usar óculos e desconfiava que ia ficar careca antes dos 30, o que não ia ser nada divertido.

Ele achou que tinha com ela mais coisas em comum do que com qualquer outra garota que já tinha conhecido, assim como viu nela as diferenças mais fascinantes que já tinha reparado. Tinha sido bailarina, morou dois anos na Turquia, sabia falar japonês. Mas ela gostava de Matt Sharp, tinha fechado Marvel x Capcom num fliperama e riu da piada sobre a polícia do cereal. Na última meia hora ela viajou com a cabeça encostada no ombro dele e ele só não tentou um beijo porque ela parecia estar dormindo. Mas antes disso ela falou que nunca ler errado uma passagem tinha dado tanta sorte.

Quando viu que estava se aproximando da sua parada pediu o telefone dela. As duas cidades eram próximas e, quem sabe, eles podiam sair no final de semana, fazer alguma coisa. Ele estava sem celular, então ela acendeu a luz do assento, tirou da bolsa papel e caneta e escreveu um número. Se despediram com um beijo no rosto. Ele pegou a mochila e saiu na chuva, desviando das poças d'água e procurando um táxi pra casa dos pais.

No dia seguinte tentou telefonar. Atenderam de uma serralheria e ao que parece ninguém lá conhecia nenhuma Amanda com olhos castanhos enormes e uma covinha no queixo, ainda que tivessem uma ótima promoção de compensado naquele mês. Tentou com diferentes DDDs, tentou ler aquele 5 como se fosse um 6, aquele 3 como se fosse um 8, tentou ligar do celular do irmão. Mas nada. Aquele não era o número e mesmo sabendo pouco de análise combinatória dava pra notar que chutando ele não ia conseguir acertar.

Foi pra frente do videogame e ficou tentando imaginar que razões ela teria pra dar o número errado. Afinal, ela poderia apenas não ter dado o número, dito qualquer coisa, falado que estava sem celular também. Ou mesmo poderia ter dado o número certo, já que tinha sido uma noite bacana, a viagem foi divertida e ele achava que de alguma forma eles tinham realmente se conectado, mais do que a média, mais do que ele costumava sentir nesse tipo de ocasião. Ainda mais porque esse tipo de ocasião não acontecia toda hora, na verdade.

Na frente da TV continuou pensando em boas razões pra que ela tivesse errado de propósito o telefone. Lá pelas onze da noite chegou a uma que, se não era a melhor, rapidamente virou a sua favorita: ela não quis estragar o que eles tinham tido.

Ainda que um lado da cabeça dele achasse isso totalmente absurdo, o outro lado – provavelmente o mesmo que tinha alugado Simples como amar – viu uma certa lógica romântica em ela não querer apagar uma noite que tinha sido tão bacana com tudo que poderia dar errado depois.

Ok, foi só uma viagem de seis horas, mas tinha sido uma viagem de seis horas realmente legal, não? E se eles se encontrassem de novo e fosse ruim? Ou fosse bom, mas esse bom levasse a coisas ruins depois, como um relacionamento catastrófico, neurótico e frustrante?

E se ela tivesse alguma razão realmente boa pra não querer mais topar com ele, como ter apenas mais 3 dias de vida, estar de viagem marcada pro Afeganistão ou um namorado em outra cidade por quem ela não era mais apaixonada mas que ela não podia abandonar porque ele estava vivendo através de aparelhos e ela, uma garota bacana, nunca conseguiria sobreviver a reprovação familiar e pública que viria de se entregar a um novo amor enquanto Rodolfo – e agora o cara tinha até nome – esperava por ela?

E se ela apenas tivesse achado que aquele momento tinha sido tão perfeito, tão exato, tão bonito, que decidiu manter aquilo pra sempre estático na lembrança, pra que a ideia do que eles poderiam ter sido servisse pra aquecê-la nas noites frias e dar algo pra que ela pensasse nos domingos solitários em que não tem nada legal na TV e os vizinhos começam a ouvir Leoni como se o mundo conspirasse pra que ela se sentisse triste e solitária? E se ela, mais do que um possível futuro, quisesse manter daquilo apenas o que eles já tinham, uma lembrança?

Com esse tipo de ideia na cabeça ele largou o joystick de lado, desligou a TV e achou que talvez, apenas talvez, aquele tivesse sido um final bonito pra história dos dois.

Enquanto isso, em outra cidade, Amanda se perguntava se tinha sido muito cruel não dar o telefone certo pro carinha do ônibus só porque quando ela acendeu a luzinha da poltrona notou que ele tinha orelhas de abano.


publicado em 23 de Abril de 2011, 05:12
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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