"...and the last thing i saw was you"

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"Cause i left my mind in the airport,
my thoughts in a taxi,
my heart in reception
(and the the last thing i saw was you)"
Sondre Lerche

Saiu correndo do apartamento em direção a rua. Não trancou a porta, não cumprimentou o porteiro, não notou o desnível do elevador, quase torceu o pé, tropeçou na calçada, parou um táxi. Entrou e gritou “Aeroporto!”. Como estava no Rio, foi expulso pelo motorista e dobrou a rua pra pegar outro táxi. Dessa vez apenas disse, educadamente, “Aeroporto” e se sentou no banco de trás. Ajeitou a camisa – que era na verdade a parte de cima de um pijama – e limpou o suor do rosto. Tinha que chegar ao Galeão a tempo.

O trânsito lento e o motorista com cara de poucos amigos. Ou talvez nenhum, era mais provável. Tentou telefonar de novo, mas ela continuava sem atender. Lá fora o calor era africano como sempre, e o ar-condicionado do carro era uma espécie de El Cid da refrigeração tentando, a duras penas, manter a península ibérica que era aquele Passat longe do domínio mouro daqueles quarenta e dois graus celsius. As metáforas pioravam e ela continuava sem atender.

Desceu no aeroporto e deu setenta pro motorista, dizendo que ele podia ficar com o troco. O taxista discordou e disse que ainda faltavam 6 reais, que ele pagou com uma nota de dez e saiu correndo em direção ao embarque internacional. Subiu a escada, foi atropelado por um carrinho, derrubou uma placa, notou que estava no portão errado, voltou, foi atropelado mesmo carrinho, tropeçou na placa que tinha derrubado, foi xingado por um segurança. Subiu a escada e ela estava lá.

Não, não era assim que ela estava.

Sentada num café, um livro na mão, os óculos escuros prendendo o cabelo. O celular desligado em cima da mesa, um copo de água e o olhar meio perdido. Ele chegou correndo, parou na frente da mesa e, antes de perder totalmente o fôlego, conseguiu dizer apenas o nome dela. “Amanda”.

Confusa, ela olhou pra ele. Não tinham se falado desde o final de semana, desde a briga. Primeiro ela ligava e ele não queria atender e depois, quando ele viu que deveria atender, ela parou de ligar e resolveu desligar o telefone até chegar na Austrália. Ou talvez chegando lá ela apenas jogasse o celular no mar, não tinha certeza.

Ele ainda estava parado, ofegante. Sabia que só aquele futebol uma vez por semana não ia manter ninguém em forma, mas não achava que pudesse ficar tão sem ar assim. Ainda bufando, conseguiu soltar dessa vez um “Amanda... eu só vim... pra te dizer que...”. O ar faltou de novo e ele não conseguiu emendar com o que ele queria falar, que era algo na casa de “...que eu te amo, que eu quero ficar com você, que eu acho que a gente devia esquecer isso que aconteceu, que eu quero pegar as suas malas e levar elas e você pra minha casa e que sim, eu fui um idiota e que sim, eu estou disposto a ficar contigo do jeito certo, então fica comigo”.

Mas enquanto ele tentava puxar o ar necessário pra dizer de uma só vez isso tudo ela colocou a mão no ombro dele e disse “Calma, respira... senta aqui, bebe um copo d'água e aí você fala comigo, calma...”. E ele se sentou, e ele pegou o copo d'água, e ele bebeu. E claro, nesse meio tempo ele pensou.

Pensou na briga de sábado, pensou no que ele tinha dito e no que ela tinha dito. Pensou em como ela tinha sido egoísta com essa história toda da viagem, pensou em ficar com ela podia ser complicado. Em como eles queriam coisas diferentes, em como ele não se sentia pronto pra se comprometer assim. Pensou em como ela tinha toda essa coisa de ser “madura” e “responsável” e em como isso era irritante de vez em quando. Em como podia dar epicamente certo, mas em como podia dar monumentalmente errado. Em como talvez aquela viagem fosse o melhor pra ela. Pra ele. Pra eles.

E aí tudo isso foi interrompido pelo olhar de interrogação dela. “E então, Adolfo, porque você veio aqui?”. Ele colocou a mão nos bolsos e achou os brincos dela lá dentro. Colocou na mesa e falou “Ah, vim trazer seus brincos”. Ela sorriu. “Então você veio da zona sul até aqui só pra me devolver os meus brincos, é isso? Não tem mais nada que você queira me dizer? Nada?”. Ele tentou acenar um não distraído com a cabeça, já duvidando do quão bom pudesse ter saído.

O “Te amo” quase chegou até a boca, mas no lugar dele tudo que ela ouviu foi um “Não, nada”. O meio sorriso rapidamente sumiu e tudo que ele ouviu, antes que ela virasse as costas pra sair, foi um “Você é mesmo um babaca...”, que era exatamente como eles tinham terminado a última conversa. Ela pegou a mala de rodinhas e saiu pisando firme, não sem antes jogar os brincos numa lata de lixo.

Pediu alguma coisa pra beber no bar, mesmo sabendo que ia pagar dez reais num chopp só porque estava num aeroporto. Tomou um gole longo e enquanto o painel avisava que o vôo pra Sidney ia sair na hora ele pensou em como é complicado acreditar nas coisas se você passar tempo demais tomando fôlego.

Ainda bebeu mais 5 chopps antes de voltar pra casa.


publicado em 23 de Fevereiro de 2011, 12:32
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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