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Animais noturnos mostra como é bonita demais a nossa tristeza

O novo filme do estilista Tom Ford é forte e bonito, esteticamente encantador e terrivelmente triste

"Eu tenho pensando muito nele ultimamente. E há pouco tempo ele me mandou este livro que ele escreveu. É violento e deprimente. E ele o dedicou a mim". 

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Para quem não sabe, Tom Ford é um dos estilistas mais conhecidos do mundo, responsável pela revitalização da marca italiana Gucci que, da beira da falência, ganhou com ele respiro extra para voltar a ser uma das marcas mais importantes da moda, com faturamento de 3,1 bilhões de euros em 2011.

Sim, se você liga bulhufas para o mercado da moda ou de luxo, não faz sentido algum eu falar sobre a carreira dele nesse meio. Mas posso dizer que o texano de cinquenta e quatro anos escreveu, produziu e dirigiu o filme Animais Noturnos, esse que vamos saber mais agora. Daí a coisa começa a fazer mais sentido.

Ford vive em meio a pessoas extremamente ricas, num mundo consumista e exacerbado em que uma bolsa com seu nome chega na casa dos 60 mil dólares. Mesmo tendo muitíssima grana (sim, as hipérboles aqui são muito bem cabidas), ele não escapou de passar por um período de depressão e ter problemas com álcool. Viu toda a delícia de sua realidade e posição valer nada e enxergou, na contrapartida, beleza justamente na tristeza profunda e na derrota de sua condição. 

Sua melancolia é estética e ele usa isso a seu favor em Animais Noturnos.

Tudo em seu devido lugar, o filme é constantemente belo, impecável, e propositadamente perturbador. Na trama, Amy Adams faz uma curadora de obras de arte que tem a vida que qualquer um pediria. Bem-sucedida e bem casada, rica e requisitada. Só que sua carreira é só frustração e seu relacionamento é de conveniência e a carreira de seu marido está em colapso. Vive, logo, uma vida de fachada. E é nesse recorte de repensar toda a sua trajetória que ela recebe pelo correio um pacote com os manuscritos do romance escrito pelo seu ex-marido (Jake Gyllenhaal).

Disso vemos como ela se relaciona com a obra, pesada e violenta, e seu próprio cotidiano, seus pensamentos. E é aqui que Ford vai impondo em seu trabalho essa dualidade de beleza triste e tristeza bonita. A história é agressiva, pessimista, desolada, enquanto a noção harmoniosa de Ford nos vai impondo uma experiência visual deslumbrante, quase aconchegante. Aquela coisa de sentir repulsa sem conseguir fechar os olhos, o teste máximo da nossa perversão humana sendo constantemente seduzida pelos olhos, pela trilha, pelas atuações incríveis do casal e do resto do elenco, que ainda tem Michael Shannon em ótima apresentação e Aaron Taylor-Johnson, aquele garoto que fez o Kickass, fazendo o melhor papel até o presente momento em sua carreira, ganhando, inclusive, o Globo de Ouro deste ano como melhor ator coadjuvante em drama. 

Em entrevista, Ford disse que “nossa cultura nos diz: 'Beba isso e você será feliz! Compre isso e você será feliz!'. O que é triste não vende". Talvez, até de maneira inconsciente, ele esteja tentando, com este filme, contradizer a própria crença e de seu mercado de trabalho afirmando, com Animais Noturnos, que o triste vende, sim, que ele é até procurado e remexido, que nenhum de nós possui desejos, mas temos o sofrimento como item obrigatoriamente adquirido e, já que tá comprado, que façamos dele algo bonito.


publicado em 17 de Janeiro de 2017, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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