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Por que não há no mercado uma pílula anticoncepcional masculina?

Motivos econômicos e técnicos atuam contra o surgimento de um medicamento voltado para os homens

primeira pílula anticoncepcional feminina chegou em 1960 ao mercado americano. Ela funciona à base de hormônios e traz às mulheres uma forma simples, barata e não definitiva de impedir a própria gravidez.

Pesquisas em torno de um tratamento similar voltado a homens também têm sido feitas desde essa época, e homens já demonstraram ter interesse em um método do tipo.

Um estudo realizado em 2005 com mais de 9.000 homens entre 18 e 50 anos em nove países aponta que, na média, mais da metade deles estaria disposta a usar um método contraceptivo capaz de barrar a produção de esperma – a taxa variava entre 28% e 71%, dependendo do país pesquisado.

Mas ainda não há uma pílula anticoncepcional masculina vendida comercialmente, apenas vasectomia e métodos contraceptivos como a camisinha. Existem vários fatores que contribuem para que isso ocorra.

Custo para desenvolver um método seguro

Em artigo escrito em 2013 para a revista Wired, Carl Djerassi, um dos pioneiros do desenvolvimento de anticoncepcionais femininos, destacou fatores econômicos e científicos entre os motivos de um anticoncepcional masculino nunca ter vingado.

Ele afirma que, enquanto a idade reprodutiva de uma mulher dura cerca de 20 anos, a de um homem pode durar entre 40 e 60.

Segundo ele, uma mulher jovem não costuma perguntar se o uso continuado da pílula pode afetar sua fertilidade a longo prazo, uma vez que quando tiver 45 ou 50 anos as chances de ter um bebê são bem menores naturalmente. "Já muitos homens exigiriam essa garantia [pois sua idade reprodutiva é maior]”, argumenta.

Dar essa resposta exigiria testes caros realizados ao longo de muitos anos. E abriria brechas para que os usuários processassem a empresa que produzisse a pílula quando encarassem problemas de saúde ou associados à perda de virilidade. “Usuários poderiam culpar a pílula por disfunção erétil e problemas na próstata relacionados ao envelhecimento”, afirma. Ou seja, chegar a um resultado comercial e legalmente seguro é extremamente custoso.

Certeza de que não é definitivo

Um dos pontos mais sensíveis é obter um método que não afete permanentemente o sistema reprodutor. Por exemplo: uma droga não hormonal chamada gossipol foi testada com sucesso em 8.806 homens na China em 1972. Ela diminuiu a produção de esperma, mas testes posteriores feitos com ratos mostraram que ela danificava o epidídimo, um duto que coleta e armazena os espermatozoides produzidos pelo testículo. O método anticoncepcional poderia se tornar irreversível.

Desafio científico

A pílula feminina usa hormônios para bloquear a produção de um óvulo por mês. A produção de espermatozoides é muito maior, o que torna uma pílula masculina algo mais complexo.

“Os testículos masculinos produzem uma quantidade enorme de espermatozoides por dia. Portanto, zerar essa produção implica em um tratamento muito rigoroso e com muitos efeitos colaterais indesejados. Na mulher, o bloqueio hormonal é diferente, mais simples”  – Fernando Lorenzini, médico do departamento de reprodução humana da Sociedade Brasileira de Urologia, em entrevista concedida em 2015 ao jornal ‘Zero Hora’

Há homens e mulheres que apoiam a pílula

Apesar dos obstáculos, a criação de uma pílula anticoncepcional masculina recebe apoio de homens e mulheres, à medida que alteraria a dinâmica entre casais fixos heterossexuais.

Há uma vertente feminista que defende a mudança como positiva, à medida que em muitos casos a mulher arca com a responsabilidade pela contracepção e os problemas de saúde associados à pílula, como ganho de peso, risco de esclerose.

“Eu diria que [um anticoncepcional masculino] amplia as opções de mulheres. Homens e mulheres deveriam partilhar o ônus da contracepção”, afirmou em entrevista concedida em 2014 ao jornal britânico “The Telegraph” a escritora feminista Ariel Levy.

Em que pese o receio de perda de virilidade, homens também teriam a ganhar com um anticoncepcional, pois ampliariam o poder sobre a reprodução e poderiam realizar sexo sem proteção e sem o risco de engravidar a parceira.

“O surgimento de uma pílula masculina marcaria a primeira vez na história em que um homem seria empoderado a ver a si mesmo como participante quase completo em escolhas reprodutivas”, afirmou o ativista pró-homens Paul Elam’s, fundador da entidade A Voice For Men, também em entrevista ao “Telegraph”.

Pílula hormonal ainda não é considerada segura

Uma pílula anticoncepcional masculina particularmente promissora foi testada em 2011 pela OMS (Organização Mundial de Saúde). Ela funciona de forma análoga à pílula anticoncepcional feminina, mas ainda não é considerada segura.

Como funciona a pílula anticoncepcional feminina

Para entender o método anticoncepcional masculino é importante compreender de onde ele parte: a pílula anticoncepcional feminina. Ela funciona ao impedir que o óvulo da mulher seja liberado.

Sem um óvulo, a mulher não pode ser fertilizada e engravidar. Um das pílulas mais populares é a chamada pílula combinada, que usa dois hormônios produzidos artificialmente ao mesmo tempo, o estrogênio e o progestagênio, como forma de interromper o ciclo natural da mulher. A taxa de sucesso é de cerca de 99%.

O estrogênio:

  • impede que a glândula pituitária, localizada no cérebro, produza dois outros hormônios, o hormônio folículo-estimulante e o hormônio luteinizante.
  • A falta desses hormônios inibe a ovulação, ou seja, impede que a mulher libere um óvulo maduro durante o seu ciclo menstrual.

O progestagênio:

  • Também impede que a glândula pituitária produza o hormônio luteinizante, barrando a ovulação.
  • Ele torna impossível para o útero da mulher receber um óvulo fertilizado

Como funcionaria o anticoncepcional masculino com base hormonal

O progestagênio também tem capacidade de interferir no aparelho reprodutivo do corpo masculino. Há, no entanto, diferenças marcantes –enquanto uma mulher libera um óvulo por mês, homens produzem mais de 1.000 espermatozoides por segundo, para citar apenas um exemplo.

No corpo masculino um tratamento a base de progestagênio seria acompanhado pelo hormônio testosterona.

O progestagênio:

  • Inibe a produção do hormônio luteinizante e de hormônios folículo-estimulantes pela glândula pituitária, de forma análoga ao que ocorre no corpo da mulher.
  • Sem esses dois hormônios, os testículos deixam de produzir esperma. Como efeito colateral, também deixam de produzir testosterona, o que pode acarretar em efeitos colaterais, como queda de libido ou músculos mais fracos.
  • Por isso, complementa-se a testosterona artificialmente.

Riscos do método hormonal

Testes em pequena escala tiveram sucesso em suprimir a produção de esperma sem grandes efeitos colaterais através desse método. Em 2011, a Organização Mundial de Saúde iniciou testes em maior escala em parceria com a Conrad, uma organização de pesquisa sem fins lucrativos.

Cerca de 200 casais de oito países participaram da pesquisa. Mas, segundo as duas instituições, o trabalho foi cancelado devido aos efeitos colaterais, “em particular depressão e outros tipos de mudanças de humor, assim como o aumento de libido”, segundo um comunicado à imprensa.

Possível alternativa

Apesar das dificuldades de se desenvolver uma pílula, um método anticoncepcional masculino alternativo reversível pode chegar ao mercado em dois anos.

Ele está sendo testado pela American Parsemus Foundation, que se define como uma pequena fundação privada cuja meta é “encontrar soluções de baixo custo que têm sido negligenciadas pela indústria farmacêutica”.

Trata-se de um gel chamado de Vasalgel, que seria injetado no canal deferente, o duto que conduz o esperma após esse ser produzido pelos testículos. Ele bloquearia a passagem do líquido, que seria então reabsorvido pelo corpo.

Segundo a empresa, o método deve ser “provavelmente mais reversível que a vasectomia” – há cirurgias que permitem reverter a vasectomia, mas o sucesso não é garantido. A Parsemus anunciou recentemente que o produto deve chegar ao mercado em 2017.

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Nota da editora: este texto foi escrito por André Cabette Fábio e originalmente publicado em Nexo Jornal. É parte de uma parceria de republicações, fruto de uma visita nossa à sede do jornal e de uma conversa das boas. O Nexo é um jornal digital pra quem busca informações precisas e interpretações equilibradas sobre os fatos do Brasil e do mundo, que agora funciona por modelo de assinaturas. O PapodeHomem reconhece valor no jornalismo de informações contextualizadas e generoso do veículo e recebe com alegria sua republicação por aqui.


publicado em 25 de Julho de 2016, 15:44
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