Aproximando estilos de vida: entre o comilão e o monstrão

Nem tanto céu e nem tanto terra? Poxa, dá pra começar a levar uma vida mais saudável sem deixar de curtir comilança e festa

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No contexto das sociedades contemporâneas, criou-se um abismo entre o estilo de vida sedentário e comilão – aquele que o nosso corre-corre facilmente nos leva – e o outro extremo, das pessoas obsessivas por estética e saúde.

Sábio aquele que consegue transitar nesse continuum sem se atracar a nenhum dos extremos. Subir apenas um andar de elevador e tomar refrigerante zero com pudim. Comer panqueca com calda de Whey e passar um fim de semana inteiro no Netflix. Todos nós temos inúmeros exemplos ridículos, então partiremos desse princípio para termos um objetivo em comum: o equilíbrio.

Legal, bonito, maneiro. Mas não é disso que eu tô falando

Essa tão visada proporcionalidade, quando conquistada, nos proporcionaria um corpo funcional, autonomia nas nossas escolhas alimentares e a possibilidade de continuar frequentando eventos sociais que estejam relacionados às comidas e bebidas sem ataques de culpa e compulsões.

Em uma única semana eu moro em três cidades, o que implica em rotinas, geladeiras e exercícios físicos completamente diferentes entre si. Poderia tentar uma carreira de instafitness ao dizer que eu carrego meu tênis em todas essas viagens e que corro feliz antes do nascer do sol, mas não, estou numa luta constante entre cansaço, sede, fome, travesseiros diferentes e gula.

No texto anterior, "Comece a ser saudável dormindo, comendo e bebendo", sugeri 5 atitudes bem simplórias que são passíveis de grandes mudanças pessoais. A ideia agora é que avancemos um pouco juntos, afinal, você, um cirurgião cardíaco, um personal trainer e eu encontramos as mesmas dificuldades para iniciar e manter um estilo de vida saudável. Estamos vivendo num mundo hipocinético e com uma acessibilidade incrível às delícias provenientes do bacon e peperonni.

De maneira bastante pessoal, estabeleci algumas ações que me auxiliam nessa tentativa. O objetivo desse texto é que vocês continuem esses itens nos comentários e que troquemos informações.

Programas familiares ativos

Dá pra mais pessoas levarem o cão pro passeio

Nas distâncias das nossas vidas e compromissos, às vezes é muito difícil encontrar tempo para os que deveriam estar próximos, mas penso que uma forma interessante e que otimiza muitas coisas seria acompanhá-los em programas envolvendo atividade física.

Colocar o papo em dia numa caminhada, conhecer sem compromisso uma aula nova da academia, se inscrever em uma sessão em duplas de pilates semanal, mãe, pai, irmãos, amigos. É mais agradável, nos aproxima e cuidamos e cobramos um do outro.

Nada deixa a minha mãe mais feliz quando eu a acompanho na academia. Posso estar em qualquer canto que quando a vejo ela está me olhando com aquela cara de orgulhozinho.

Impagável.

Caminhadas como meio de transporte

Que não sejam todos os dias e em todos os programas. Sei que é difícil, principalmente quando se trata de ir para o trabalho, transpiramos, faz calor, somos assediados, mas alguns programas são super possíveis, principalmente nos fins de semana. Mercados, pequenas prestações de serviços, casas de amores e parentes (se algum parente ou amor ligar que você apareceu suadinho ela merece rever o que é gostoso de verdade nessa vida).

Ah é longe? Ótimo. Vá sem pressa

Duvido que não será gostoso.

Lojas de produtos naturais

Numa dessas caminhadas, que se torne rotina uma ida semanal a uma loja de produtos naturais. Procure os alimentos mais in natura e os menos industrializados. Castanhas, frutas secas, biscoitos integrais, são várias possibilidades bem gostosas.

Credo, uva passa!?

Pausa para eu te odiar um pouco. Experimente manga, mamão, morangos desidratados. É de comer ajoelhado.

Carregue esses lanches com você e em quantidade. Não pense em calorias, pense em se nutrir. Se alimente a cada 3 horas, economize nas idas aos cafés. Dá um orgulho danado quando temos fome e temos algo saudável para comer.

Você não está enfadado? Pão de queijo borrachudo e caríssimo, salgados que raramente achamos gostosos, requentados e exatamente iguais da rodoviária ao café gourmet. É o mesmo fornecedor!

Somos enganados e roubados porque não temos o mínimo planejamento. Pastel de feira não entra nesse quesito, ressalto.

Vá ao mercado

Em qualquer rotina que esteja, qualquer cidade, qualquer situação, vá ao mercado. Planeje sua semana e as refeições que fará. Se previna de não ter absolutamente nada na geladeira e pedir algo qualquer por telefone. Deixe para pedir pizza e afins quando estiver acompanhado, que essa ligação se torne um evento gostoso, que dure um tempo, que aproxime pessoas.

O tempo que leva para chegar a sua casa é maior do que o que você leva para comer sozinho, desenganado, sem propósito.

Aproveite o restaurante por quilo

Vai almoçar num restaurante por quilo? Escolha os alimentos que tem dificuldade de cozinhar, ou sabe que não comerá em casa no jantar. Peixes, frutos do mar, feijões, legumes diferentes.

Seu jantar será um sanduíche e não comerá salada? Aumente essas porções no almoço.

Penso também que é um exercício financeiro: vai pagar 50 reais o quilo do macarrão alho e óleo? Da lasanha “apresuntada”? Na batata frita peloamordedeus?

Pense nesse momento como "vou pagar por uma refeição que realmente me trará benefícios".

Cozinhe sempre que puder

Não precisa sair por ai torrando sua grana comendo fora o tempo todo

Quando cozinhamos passamos a fazer melhores escolhas alimentares. Aprendemos quando determinado alimento é frito, assado ou grelhado, o quanto de manteiga aquela receita precisa para ficar cremosa, o tanto de óleo necessário numa fritura e que, é claro, o restaurante irá reaproveitá-lo ao máximo. Sabemos que as comidas estragam rapidamente e que viram “risotos”, “ensopados”, “arroz de forno”, e “escondidinhos” de restinhos de ontem, os quais pagamos muito caro.

Mais uma vez, somos enganados. Quando conhecemos o processo, observamos que é mais barato fazer um prato chicoso em casa com poucos, porém riquíssimos, ingredientes. É triste, mas ultimamente está muito fácil enganar os paladares que estão assustadoramente mal acostumados.

Quando passamos um tempo numa reeducação alimentar são notáveis as mudanças no paladar, nosso gosto fica mais delicado e o  simples nos satisfaz.  

Escolher o dia da riqueza

Não há nada mais delicioso que conhecer restaurantes, bebidas e comidinhas. Lembra, em outros tempos, quando sair de casa para ir a um restaurante era uma ocasião especial?

Prestávamos mais atenção nos detalhes, na entrada, no ambiente. Sabíamos os nomes dos garçons e os pratos eram reconhecidos pelo nome. Era algo familiar. Hoje, por sua vez, temos mais opções, está mais fácil e quase banal, e estamos mais fofos. Dessa forma, podemos tentar escolher um ou dois dias que sabemos que será uma orgia. Que seja um happy hour, uma pizza, uma feijoada, a rabada da vovó. É interessante você já contar que nesses dias vocês terão suas cotas saudáveis de bebidas, carnes vermelhas, frituras e sobremesas.

É divertido almejar por esses dias.

Mas é necessário ter consciência que o presunto de cada dia, a salsicha, o açúcar do refrigerante passam também dessas cotas.

Daí fica a questão: você prefere comer uma merecida picanha com cerveja no fim de semana e dentro da cota do que é saudável ou se satisfaz com aquele apresuntado do salgado insosso da esquina do trabalho?

Percebe? É nesse momento que podemos fazer escolhas e, para fazê-las, temos sim que carregar a manga desidratada, a maçã, o iogurte e as castanhas de lanchinho.

Foquem nos lanchinhos.

E você? Tá fazendo como?

E daí as variáveis são infinitas. Dá pra gente seguir passos interessantes, saudáveis e deliciosos com muitos detalhes e trejeitos bem pessoais. Como vocês conduzem tudo isso? Quais de suas mudanças e hábitos estão consolidados e deram certo?

Seria interessante explicar o contexto, as dificuldades encontradas e o porquê de terem dado certo. Nada me tira da cabeça que as pessoas exemplares em estilos de vida são aquelas que a muito custo conquistaram inúmeras transformações, gente de verdade, que tem barriguinha, tem fome, tem cansaço, que não sabe cozinhar. As nossas transformações podem ser muito exemplares aos nossos próximos.

Quanto mais detalhe melhor, receitas, depoimentos, dicas. Nos falamos aqui embaixo.


publicado em 20 de Agosto de 2015, 00:00
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Débora Navarro Rocha

Educadora Física, mestre em Exercício Físico e Saúde para Populações Especiais. Atualmente é Docente do Instituto Federal do Paraná.


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