Aquela manhã após o término (e outras crônicas pra sofrer de amor)

Sabe aquele sentimento que ninguém conta?

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Nota do editor: O Alberto Brandão é um autor velho de guerra na casa, mais conhecido por seus textos sobre produtividade e lifehacking, mas que também vem explorando uma veia mais literária por trás dos panos. Eu, Luciano, gosto bastante do que ele vem produzindo e resolvi compartilhar com vocês, não só os textos, mas o convite pra que acompanhem a série Um Sentimento no Medium dele.

Aqui vai uma pequena coletânea com alguns dos textos que ele já produziu por lá até agora.

* * *

Aquela manhã após o término

Acordei mas não abri os olhos. Queria ficar ali mais alguns segundos antes de de tudo mudar. Era tarde da noite quando terminamos nossa conversa.

Era tarde, terminamos.

Quinta-feira era dia de dormir juntos. Hoje, Sexta, acordei sozinho. O travesseiro que ela dormia estava intocado, abracei sem querer soltar.

Fiquei sentado na cama tentando entender o que tinha acontecido. Tudo o que vinha na cabeça eram as frases trocadas no meio da discussão. No calor do momento a gente fala o que não quer e ouve o que jamais imaginou.

Peguei o violão para tocar aquela música do nosso primeiro encontro. Estava tocando na festinha da casa do Diego quando ela parou para cantar junto. Toquei as duas primeiras notas e não consegui continuar. Fui tomar um banho.

Entrei no chuveiro e dei de cara com aquela calcinha. Ela lavou e deixou pendurada. Sempre reclamei, agora sinto que nunca mais vou tirá-la dali. O banheiro parece um campo minado: toalha, escova de dente, camisola, perfume…

Ah, o perfume.

Vesti a camiseta que ela odeia. Foi de propósito. Vai que a gente se esbarra na rua. Escolhi a bermuda que ela me deu. Quero que ela se irrite com a camiseta, mas saiba que lembrei dela quando me vesti.

Ainda tem as fotos do porta-retrato, o que vou fazer com tudo isso? Tudo aqui tem um pedaço dela. As cortinas que comprei porque ela reclamava do sol no fim da tarde, os temperos indianos que ela curtia… até a mancha na parede que nunca limpei, ela me falava sempre disso. Vou limpar agora.

Hoje era dia de sair para jantar. Será que o pessoal vai fazer alguma coisa? Nem me chamam mais, até perdi o contato. Engraçado. A pessoa sai da nossa vida e ficam os buracos. Preciso aprender a viver de novo.

Acho que vou mandar uma mensagem, só pra saber se está tudo bem. Ela vai ficar com raiva, certeza que quer ficar sozinha. Talvez eu pudesse inventar uma desculpa. Vou perguntar se vem buscar as coisas, ou sei lá, se quer que eu leve. Não vou fazer isso, deixa ela ter o tempo dela.

Eu deveria dar o meu.

Tenho que ir trabalhar, mas acho que vou ficar deitado na cama. Nem quero falar com ninguém. Sempre perguntam da Carol, nem tenho energia. É, vou mandar uma mensagem dizendo que to gripado. Depois falo com o Mário, ele vai entender que terminei e tava não tava legal.

Vou assistir uma série, ajuda a passar o tempo.

Netflix é um bom amigo, vai ajudar.

Pelo menos até ela me deletar da conta família.

* * *

Aquele quase amor

O 875A sempre para depois do ponto. Faz dois anos que Seu Marcos sabe que pego esse ônibus, mas insiste em parar lá na frente. Certa vez tentei esperar mais adiante onde normalmente para, não funcionou muito.

Seu Marcos é um senhor de barba e bigodes grisalhos, cabelo acinzentado escorrendo por debaixo do boné desbotado e um mal humor característico de quem dirige um ônibus por São Paulo cedo pela manhã.

Subi ofegante as escadas do ônibus. Seu Marcos sorriu. Amanhã paro mais perto.

Ele diz isso todos os dias.

Sento sempre no banco alto, no lado esquerdo de quem vai. Fico um pouco ansioso quando já tem alguém sentado no meu lugar. Hoje era um bom dia, o banco estava vazio.

Foi bem ali, enquanto Jon Snow falava no quinto livro das crônicas de gelo e fogo que daria sua vida pela patrulha da noite, que algo aconteceu. Tirei os olhos do livro e avistei uma mão levantada acenando para o ônibus.

O ponto de ônibus da São Judas é na frente da loja que vende estátua de santo e leva o nome da avenida, mas Seu Marcos, sabe como é, parou quase no farol depois do Subway. Olhei para trás em tempo de ver a moça correndo, subir no ônibus e procurar o cartão do bilhete na bolsa.

Quando olhou para frente, nossos olhares cruzaram —levantou as sobrancelhas e congelou por alguns segundos. Passou a roleta meio afobada, procurou um lugar para sentar, mas preferiu ficar de pé.

A moça da blusinha roxa nem tentou disfarçar. Me olhava o tempo todo e, quando eu retribuía, esboçava um leve sorriso, do tipo que a boca mexe pouco, mas que é impossível de esconder o brilho nos olhos.

Segui fingindo que queria descobrir o que vai acontecer com Jon Snow, vez ou outra tirando os olhos do livro e retribuindo os sorrisos. Cada sorriso criava uma erupção que subia pelo estômago até a boca. Dava para sentir meu próprio coração pelos ouvidos. Fiquei estático, as mãos suadas começavam a molhar as páginas do livro. Certeza que ela me viu secando a mão na calça jeans.

Queria conversar, mas o que eu diria? Pensei em mandar um bilhete… não seria muito bobo?

Olhei pela janela e vi que já estava na Washington Luís. Peguei minha mochila, dei sinal e fiquei de pé, parado, olhando para baixo e esperando a porta abrir.

Nos olhamos mais uma vez, ela sorriu, eu sorri.

A porta abriu e desci.

* * *

Aquele reconhecimento que vem tarde

Lucas acordou com o toque da mensagem ecoando no quarto. Esfregando as mãos nos olhos, tentava enxergar através do brilho da tela.

Engoliu seco, com gosto de ferro. O que a Jéssica quer? Tenho que acordar daqui duas horas.

— Oi… tá por ai?

— Oi, desculpe a demora. Já estava dormindo.

— Não queria te acordar, volta pro sono…

— Agora já acordei, diz aí.

— Ah, tava pensando aqui em você…

— Como assim?

— É que… você foi muito importante para a minha vida. Aprendi muito do seu lado. Foram só dois meses, mas amadureci tanto.

— Mas por que você está dizendo isso agora? Não estou entendendo…

— Ah, veio na cabeça. Fiquei inquieta e não conseguia dormir. Por isso vim falar com você.

— É legal saber disso, só não entendi onde você quer chegar.

— É que os homens parecem que não me enxergam como uma pessoa, sabe? Não perguntam da minha vida, não conversam comigo direito. De todos os caras que passaram, você foi o único que demonstrou se importar de verdade comigo.

Você é diferente do outros homens que conheço. Me olhava nos olhos, queria saber cada detalhe das coisas que eu gosto. Parece tão bobo isso, mas nenhum outro cara foi assim. Você me ajudou a entender minha importância, sabe?

— Ah, Jéssica, deixa disso… Nem fiz nada. Só te tratei normal, é o mínimo.

— Hoje em dia eu também acho que é o mínimo, mas aí que está o problema. Os caras não são assim, são todos muito superficiais. Nem quando querem namorar fazem questão de ter um papo legal.

Você me fez ser uma pessoa melhor, aprendi até a ser mais empática com os outros. É sério. Você é a pessoa mais compreensiva que eu conheço. Trata todo mundo com educação, sabe se colocar de verdade no lugar das pessoas. É fantástico isso.

Acho que nunca agradeci, então devo agradecer.

De coração.

— Nem sei o que dizer. Mas se te fiz um pouco mais feliz, já valeu.

— Me fez muito feliz, até hoje faz. Você é o cara mais fantástico que já conheci.

— Nem é pra tanto, já disse.

— Lu, tá muito tarde… Melhor irmos dormir.

— Tudo bem. Boa noite. Não some.

— Ah, você sabe… melhor ficar meio afastada.

— Está tudo bem entre você e o Marcelo?

— Tá sim. Ele tá roncando aqui.

— Certo, se cuida.

— Você também.

* * *

Aquele duelo com a força de vontade

Estou parado, estático. Meu coração acelera e a pupila dilata. Ainda me arrependo da última vez. Olho para o passado e lembro de tudo o que poderia ter feito, tinha uma saída. Eu sei que tinha.

Puxo o ar e penso que não tem jeito, não saber o que vai dar é ainda pior. Aperto os olhos e movo meus pés, agora foi.

Subi na balança.

Ganhei mais alguns quilos, preciso voltar a comer direito e parar de bobagem.

As pessoas já me olham diferente. O julgamento seguido do sorriso tímido denuncia o pensamento: "nossa, engordou, hein?"

É, eu também notei.

O dia segue, ligo na academia e ajusto o horário. Vou voltar. Vocês vão ver.

Hora do almoço. Tô no foco. Salada e peito de frango. Nada de suco. Esses sucos são piores que refrigerante, li num blog.

A tarde chega acompanhada da fome. Vou só beber água. Tá, um cafezinho, mas sem açúcar.

Não entendo as pessoas comendo coxinha no meio da noite. Lanchonete da universidade lotada. Por que isso a sociedade tá cheio de obesos, ninguém come direito, ninguém tem força de vontade.

Estudar a noite é difícil, fazer tudo isso e ainda cozinhar para não fugir da dieta. Tô tão cansado. Só queria dormir um pouco. E se eu não comer nada? Li em algum lugar que é melhor comer bobagem do que ficar sem comer. Faz sentido, eu acho.

Acho que posso passar em algum lugar para comer, deve ter algum restaurante saudável aberto. Quase meia noite, não tô achando nada. Eu deveria é ir pra casa e cozinhar mesmo. Nem grana eu tenho, acho que vou deixar pra lá.

Tô cansado, trabalhei o dia todo e tive aula até tarde. Ainda ter que fazer comida agora, aquele frango borrachudo e alface sem gosto.

Tem um McDonald’s no caminho. Hoje é terça, acho que tem promoção. Lembrei, tenho esses cupons aqui. Vou pegar leve. Comer lá, mas manter a dieta.

Boa noite moça, quero duas promoções do dia, batata grande e coca grande. Adiciona também um nuggets de 10, por favor?

Já fechou o pedido? Adiciona uma tortinha de maçã.

Ah, é pra viagem.

* * *

Aquele amigo tóxico

Faz um tempo que ando meio mal, meio pessimista e sem vontade de tentar coisas novas.

É tão estranho, eu não era assim.

Semana passada a Talita até comentou, disse que eu costumava ser mais animada. Você tinha mais vida nos olhos. Foi como ela disse.

Na hora achei que estava exagerando.

Sempre fui de sonhar, passar o tempo bolando planos para minha vida. Pensar no lado bom das coisas nunca foi uma dificuldade, mas agora parece que nada de bom nunca mais vai acontecer. Não sei onde foi que mudou. Me sinto fracassada.

Às vezes até tenho vontade de fazer algo de novo, mas depois parece que é perda de tempo.

Sei que é estranho ficar falando disso pra você, Pedro, mas não tenho muita gente para conversar. Você me entende?

— Claro, entendo sim.

Por exemplo, eu estava pensando em fazer gastronomia, talvez me desse um ânimo. Gosto de cozinhar, seria uma boa oportunidade.

— Mas você sabe que gostar de cozinhar não é suficiente, né? E acho que você não leva jeito. Pensa em qualquer outra coisa, mas gastronomia não.

Ah, eu poderia fazer algo que eu faço bem, igual fotografia.

— Você acha mesmo? Até eu tiro foto melhor que você, não viaja. Além do mais, como você vai pagar uma faculdade a essa altura do campeonato? Você sabe né, nunca passaria numa pública sem cursinho.

É, tem razão. Talvez essa seja minha vida mesmo, melhor aceitar. Ainda bem que tenho você pra conversar.

— Não esquenta, amigos são pra essas coisas. As suas amigas é que ficam enchendo sua cabeça com bobagem. Amigo mesmo é aquele que fala a verdade, doa a quem doer.

Obrigada, amigo. O que seria de mim sem você?

* * *

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publicado em 20 de Novembro de 2017, 13:48
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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