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Arrumou o pau dentro das calças e disse que ia esperar por ela no banheiro

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Nem que fosse só mais uma vez ele queria voltar a ser triste, queria se aproveitar da melancolia e botar no papel aquelas palavras ásperas que, posteriormente, serviriam pra gerar elogios. Todo escritor que se preze tem que ser amargo e só. Tempos difíceis eram aqueles de um calor que inspirava felicidade e prazer. Não era bom para o cigarro que brigava pra descer a garganta, pra cerveja que, em vez de lhe servir de fardo, era o alívio que o impedia de reclamar.

Precisava sair.

Sabia que ela ainda andava pelas redondezas, aquela cavala de olhos verdes puro sabor picante que só causara problemas. Nunca soubera, na verdade, de onde surgiram os equívocos. Poderia ser a paixão que foi, ao mesmo tempo, arrebatadora e efêmera. Poderia apontar para o tesão em demasia, o sexo sujo exacerbado, os machucados , o excesso de fluidos, as putarias que, de catalizadoras de vontade, se transformaram em ofensas gratuitas, mas que apertava ainda mais a ereção ao ponto de doer, doer muito. Não saberia dizer se eram as discussões que vinham logo após as mais delicadas confissões amorosas de necessidade, de parceria eterna. Não sabia bem o que, mas sabia que toda a carga de dor vinha por causa dela. Era lá, ao lado dela, que ele buscaria a redenção.

Tentou ligar, ninguém atendeu. Foi à casa dela, um cigarro após o outro, bateu na porta, não houve resposta. Gritou pela janela. Nada. Foi à manicure onde ela passava as tardes e a negra dona do estabelecimento ameaçou ligar pra polícia. Nenhuma pista.

Ele praguejou enquanto acendia outro cigarro. Calor do cacete. Suas pernas foram levando-o de lá pra cá, voltou ao predinho onde morava mas não entrou. Jogou o cigarro no chão, olhou a calçada suja, praguejou um pouco mais. Necessitava daquilo. Continuou andando.

Lá pelas tantas ligou de novo. Nada. Foi pro bar, o único lugar que escondia aquele sol lá pra fora. Pediu uma cachaça e uma cerveja pequena. A aguardente desceu que nem percebeu, tomando conta da goela com o gelado da cerveja. Xingou o garçom. Então ela apareceu. Ficou sabendo da bagunça toda da tarde e sentou na mesa dele, quieta. Ele disse que ela estava bonita. Ela mandou ele tomar no cu. Ele pediu uma cerveja pra ela e ela recusou. Não queria ficar de conversinha.

Ele se levantou, deu uma golada na cerveja, arrumou o pau dentro das calças e disse que ia esperar por ela no banheiro. Ele se movimentou. Ela não.

Sabia que era pra tudo dar errado. Não ouvia os passos do salto alto em direção ao sanitário masculino. Respirou fundo, olhou a cara de paspalho no espelho sujo com os dizeres de que, toda terça-feira, o Carlão passava na segunda cabine e chupava até as bolas. Voltou pro centro do bar aos berros, chamando a safada de puta e de vadia, de animal, de égua sem criação. Nem percebeu o som quase surdo da garrafa em direção à têmpora esquerda. Caiu e sentiu a dor.

Ela saiu sem falar nada, o cara do balcão nem teve que segurar a vontade de separar a quizumba do fim de tarde.

Sangrou. Vazou. Ele se levantou sorrindo e foi pra casa, dando uma ou duas cambaleadas no caminho. Dormiu sem tomar banho.

No outro dia, escreveu 42 páginas de um novo romance. Estava com um sorriso de orelha a orelha.

Estava de volta ao lixo.


publicado em 07 de Março de 2013, 07:00
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Jader Pires

É escritor e editor do Papo de Homem. Seu livro de contos é o Ela Prefere as Uvas Verdes. Está no Facebook, no Instagram e escreve semanalmente sua newsletter, a Meio-Fio, com contos/crônicas e uma curadoria cultural todas às sextas, direto no seu e-mail.


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