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As dores da ausência paterna e como lidar com elas?

Como reconhecer as feridas, entender as consequências e trilhar um caminho de transformação.

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), com base no Censo Escolar de 2011, apontam que há 5,5 milhões de crianças brasileiras que não possuem o nome do pai na certidão de nascimento. Fora os que possuem o nome, mas são ausentes. 

Crescer sem pai é uma constante e um problema para muitos brasileiros, mas este texto não é uma forma de criticar estes pais. Não. 

Este texto é um olhar para os homens que são filhos, e que, de alguma maneira, sofreram com a ausência paterna, mas que gostariam de se lidar de alguma outra forma com esta ferida. 

Esta semana o Luciano Ribeiro inclusive escreveu sobre como voltou a falar com o pai dele depois de 10 anos sem nem saberem um do outro. 

Das várias ausências paternas

 

É importante pontuar que o conceito de ausência paterna comporta mais de uma definição. 

Uma primeira definição diz respeito à ausência paterna diretamente relacionada à falta de afeto do pai, ou seja, tal ausência seria decorrente da distância emocional entre pai e filho, que pode acontecer mesmo quando se tem a presença física do pai. Portanto, seria aquela que mesmo “presente” não soube ou não quis exercer o seu papel. É uma ausência psicológica capaz de criar diversas feridas emocionais.

Por outro lado, a ausência paterna pode ser entendida também como a falta de contato entre pai e filho, que pode ser decorrente de uma separação conjugal, morte e/ou trabalho do pai em outra cidade ou estado. Nesse caso, não se tem a presença física do genitor.

Infelizmente, para algumas pessoas, a ausência física do pai acaba contribuindo para uma distância afetiva. 

É importante destacar que a ausência paterna decorrente de falecimento do pai desperta sentimentos diferentes nos filhos em comparação aos casos em que a ausência é motivada por uma separação conjugal e/ou divórcio. Enquanto no primeiro caso os sentimentos dos filhos estão ligados à sensação de perda e tristeza, no segundo tem-se, geralmente, também sentimento de revolta e indignação, já que estes entendem que o pai poderia reverter tal situação, caso quisesse, o que é inviável no primeiro caso.

Quais são os problemas da ausência paterna?

Cena de Viva! A vida é uma festa (2017). No filme a história da família é marcada pelo sumiço do pai.

Quem cresceu sem um pai por perto nem sempre “sente falta” ou, muitas vezes, não nota a falta que sente, afinal, não conhece uma forma diferente de crescer. 

Pensando que uma importante parte de nossas vidas gira em torno na família, a ausência  da figura paterna pode gerar mágoas, faltas e feridas que afetam a formação da pessoa e de sua personalidade. 

Vamos citar aqui alguns dos sentimentos ou consequências que a ausência paterna pode causar, lembrando que cada pessoa vai apresentar a sua própria combinação de sentimentos, do seu jeito, e que nem todas as feridas se notam conscientemente.

Culpa: Muitos homens que não receberam o amor e o apoio de seu pai, crescem sentindo que algo está errado consigo. Culpam-se pela ausência do pai, mesmo sabendo que isso, racionalmente não é verdadeiro: “Talvez se eu fosse um filho melhor, meu pai não teria ido embora”. 

Baixa auto-estima:  Sentir-se culpado pelo ocorrido, pode levar a pessoa a ter uma visão pouco valorosa de si mesma, ou seja, uma baixa auto-estima. Para mascarar o sentimento de que algo vital está faltando, diversos homens tentam mostrar-se duros, fortes e auto-suficientes. 

Embora não seja consciente, parte dos homens buscam provar para si que o pai não faz falta. Há também os que, desde muito cedo, encaram esse papel de durão (que não necessariamente é verdadeiro) porque acreditam que devem ser “o homem da casa” e assumir responsabilidades de força e proteção. 

Isolamento emocional: Evita-se de entrar em contato com a ferida por ela ser profunda, por ser muito doloroso lidar com a ausência e, muitas vezes, por se ter a sensação de que pensar nisso ou elaborar esse sentimento não vai mudar em nada a situação.

Muitos homens não se permitem sentir dor e não dividem os seus sentimentos de amor e de afeto. Se fecham emocionalmente até para si mesmos. 

Propensão a vícios e outras formas de fuga: Também a partir do isolamento emocional, sente-se um desconforto interno que muitas vezes não é compreendido ou encarado. Para evitar entrar em contato com isso, muitos usam bebidas, drogas, pornografia ou até mesmo o excesso de trabalho. O que a princípio, pode até parecer para a própria pessoa que é um simples alívio de estresse, pode se tornar uma fuga da dor do seu passado.

Depressão ou ataque de raiva: Decorrente de todo esse cenário, que vai se acumulando, diversos homens tornam-se cada vez mais irritados e zangados, mesmo com aqueles que amam. Possuem dificuldades de lidar com a raiva que sentem e acabam descontando-a em outros homens ou até mesmo nos familiares. Essa alienação em relação aos próprios sentimentos tende deixar estes homens cada vez mais deprimidos e, ainda por cima, com dificuldades de admitir.

Como lidar com essa dores?

Se for possível, uma das principais formas de curar as feridas causadas pela ausência paterna é o diálogo com esse pai. 

Estabelecer um diálogo com alguém que te fez sofrer não é fácil, especialmente, quando há um conflito que não parece ter possibilidades de solução, mas evitar o diálogo pode criar uma tensão adicional. O Luciano escreveu um texto falando justamente sobre o peso de 10 anos de silêncio entre ele e o pai dele.

Você pode não ter o interesse de resolver o conflito por meio do diálogo, porém utilizar o silêncio também não irá resolver nada. O silêncio aumenta as distâncias. E a distância não costuma ser uma boa aliada para a compreensão ou para restabelecer laços partidos. Pelo contrário, contribui ainda mais para aumentar as diferenças.

Pensando nisso trouxe algumas dicas para facilitar o diálogo com o seu pai: 

1) Se expresse

Expresse para o seu pai o que você sentiu quando ele se afastou. Uma boa dica é falar: "Quando você fez isso, eu me senti assim...". A pessoa precisa entender o que você sentiu, pois talvez ele nem saiba o quanto te machucou. 

2) Pergunte

Não fique tentando adivinhar os motivos pelos quais o seu pai se afastou de você. Expresse sua percepção mas também abra espaço para ver a perspectiva do outro. Perguntar é o único caminho para isso e o entendimento da situação pode ser libertador. 

3) Seja transparente

Seja sincero e transparente, mesmo que às vezes isso seja difícil. Algumas pessoas falam o que pensam, e isso pode ferir. O problema não é o que se fala, mas como se fala. Então, busque a melhor maneira de se expressar, sem mentir ou esconder aquilo que você sabe que precisa ser falado. Falar com o coração, sempre se referindo às coisas que você sente e não ao que você supõe que o outro sente, é uma fórmula que costuma dar certo. 

4) Escolha do local adequado. 

A conversa já vai ser difícil então, busque um ambiente com boas condições para conversar. Trocar o espaço cotidiano por outro às vezes contribui para uma renovação na comunicação: um local onde outras pessoas não vão interromper pode ajudar, ao mesmo tempo, um espaço público pode ajudar a garantir que a conversa não tome proporções de brigas. 

Agora é você com você mesmo: 

Nem sempre é possível estabelecer este diálogo com o pai ausente e, mesmo quando o é, pode ser que esta não seja uma boa opção para você. Algumas práticas, que no fundo não são nada fáceis, podem te ajudar a encarar essas feridas e ir, aos poucos, elaborando-as de dentro para fora.

1. Faça-se algumas perguntas difíceis.

 Meu pai estava ausente fisicamente, emocionalmente ou espiritualmente quando eu estava crescendo? Senti a dor da ausência dele? Estou pronto para curar a ferida da ausência do meu pai?

2. Esteja disposto a explorar a ferida.

Você pode ter que entrar em contato com lembranças desconfortáveis e vai gastar alguma energia revisando seus sentimentos. No entanto vale lembrar que “deixar o tema enterrado”, não vai fazer com que aquilo deixe de ser parte da sua vida. Varrer para debaixo do tapete é o tipo de atitude que cria um calombo no meio do chão da sua sala: pode até ser imperceptível numa primeira olhada, mas você tropeça nele várias vezes ao dia.  

3. Liberte-se da sua vergonha, culpa e raiva.

Não foi culpa sua se você não conseguiu o apoio amoroso que precisava de seu pai. Talvez, ele próprio não tenha conseguido o mesmo do pai dele… mas definitivamente não foi sua culpa enquanto filho.

4. Dê nome aos seus sentimentos

Passe a se observar e tentar entender seus sentimentos. Dê nome a eles. Numa briga, ou num momento de aflição, repare quais são e de onde vem aquelas sensações: se é uma tristeza ou raiva, se ambas, se tem ressentimento… Tenta lembrar também em que outras ocasiões você já se sentiu assim e compare, o que essas situações têm de comum? Consegue ver um padrão na forma como esse sentimentos se manifestam?

5. Se comunique com as pessoas ao seu redor

Uma vez que você conseguir identificar seus sentimentos, admita a si mesmo o que sente e tente comunicar sua dor para pessoas ao seu redor: companheiras, familiares, amigos íntimos.

6. Observe os impactos da ausência na sua vida e dos que te rodeiam

Tente observar como essas dores afetaram seu comportamento, se a partir delas, você acabou tendo atitudes que machucaram a você mesmo. Analise se estas atitudes feriram também as pessoas ao seu redor. 

Se se sentir pronto, e escute o que as pessoas têm sobre suas atitudes, mas escute de coração aberto, sem guardar ressentimento, olhando para um caminho de transformações.

7. Comprometa-se com a sua transformação

Caso, neste processo de reflexão, você sinta que estas feridas tem afetado seu comportamento negativamente e que isso, por consequência, tem atingido também as pessoas que você ama, se comprometa de verdade com a sua mudança. 

Se achar que mudar atitudes cotidianas, podem te fazer um homem melhor, não hesite em agir diferente por receio de causar estranheza na sua própria família e ter de dar alguma explicação, se isso for necessário, com certeza vai gerar conversas importantes e, então, aproveite a oportunidade para se abrir.

Sobretudo, não tenha medo de buscar ajuda profissional. Procure um psicólogo\a, num consultório você poderá desabafar sem e preocupar e trabalhar questões das mais cotidianas às mais delicadas. Um psicólogo pode te ajudar a quebrar o ciclo de dor e fuga. 

8. Procure um grupo de homens 

Existem grupos, rodas de conversas, bate-papos de homens comprometidos a ouvir outros homens na busca de curar feridas. 

Dá uma olhada aqui na nossa lista de iniciativas que trabalham com temas masculinos para encontrar um perto a você.

Estamos diante de muitos desafios com relação à construção e vivência da paternidade. Por um lado, estamos repensando o lugar afetivo dos pais no desenvolvimento dos filhos, afinal, não podemos mais sustentar a visão de um pai apenas como provedor. Por outro lado, estamos diante de diversas feridas causadas pela ausência paterna e precisamos encontrar formas de lidar com isso.

Dessa forma, resgatar a presença do pai no ambiente familiar, problematizando sua ausência, é uma tarefa que desafia pais, mães e todos aqueles que se encontram implicados nas questões que envolvem o contexto familiar.

Como psicoterapeuta clínica acompanho diariamente o impacto devastador que os pais ausentes podem ter na vida de seus filhos e como o sofrimento pode causar problemas em todas as fases da vida se não tratado. 

Curar as feridas pode levar algum tempo, mas vale a pena o investimento. Dê um passo de cada vez. E felizmente atualmente há uma rede de profissionais e pessoas comprometidos em ajudar a curar a ferida de quem teve o pai ausente.  Aguardamos com expectativa os seus comentários. O PdH quer te ouvir!


publicado em 16 de Janeiro de 2020, 19:13
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Carolina Caetano

Psicóloga clínica, mestre em análise da cognição em homens. Interessada em contribuir para que cada um conheça as suas potencialidades. Instagram: @psicologa_carolinacaetano


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