Autônomos FC, futebol de verdade e o ódio ao monofilamento de alta performance

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Jogar num time de futebol é como tocar numa banda. Nossa maneira de fazer também é independente, assim como fazem muitas bandas. Pra mim, jogar em um time é realizar um sonhozinho de criança. Campeonatos, rivalidade, camisa.

A primeira coisa a se falar é: esqueça essa ideia de que o Brasil é "o país do futebol", porque é uma tremenda mentira. Se você quiser jogar futebol, onde vai jogar? (Que fique claro que o que chamo de futebol é o que é futebol de verdade: onze jogadores de cada lado num campo de aproximadamente 50X100m).

Campinho de futebol qualquer, em qualquer lugar do Brasil

Porque aqui entramos num ponto amargo: não temos bons campos para jogar bola no Brasil. É tudo na base do terrão e abandono, e somos cada vez mais empurrados para as famosas "gaiolas" de futebol society - um futebol tão falso que até a grama é artificial, onde não tem camisa, não tem clima de vestiário, não tem tática, enfim.... outro dia cheguei pra jogar num playball e tinha uma quadra com grama (óbvio) artificial e..... pasmem: era azul! Ta de brincadeira? Quer dizer, você paga um absurdo pra jogar o futebol mais longe da realidade do futebol possível e imaginável.

Na várzea, pelo menos não gastamos nem um terço do que se gasta nesses templos da grama sintética onde se pratica mais um fast ball do que o futebol.

Calhou de eu chegar no Autônomos FC. Um time que, além de jogar bola de verdade (ou o mais próximo que podemos haja visto a falta de espaços e investimentos para o esporte amador neste país), também usa o futebol como alicerce para cidadania. Sua sede abriga debates sobre urbanização, verticalização dos bairros, mobilidade na cidade, luta contra racismo e homofobia entre outros.

O "Auto" é assim. Outro dia mesmo teve jogo contra um time de alunos do ensino médio da rede pública (alguns jogadores do Autônomos são professores no Estado) e, depois, saíram do campo até a sede pelas ruas da Lapa discutindo o espaço urbano. E nessa filosofia se aliam outros como o "movimento boa quadra", que tem o objetivo de revitalizar quadras e espaços abandonados da cidade.

Voltemos ao futebol. Escalação, ansiedade, camisa, juiz, substituição, tática, entrosamento, padrão, posição, elenco, troféu, técnico, clássico, pressão… tudo isso faz parte do futebol… onde fica isso na gaiolas de monofilamento de alta performance? (portanto não aceito discutir futebol com boleiros do tipo sociedade, totalmente alheios a essas complexidades reais desse lindo esporte).

O society não é o problema em si, eu mesmo perco algum tempo às vezes nessa corruptela, apesar de me cair como um macarrão instantâneo, mas a graminha de plástico simboliza a morte do futebol. Por isso eu fui pro Autônomos FC, um verdadeiro time que vem da  várzea, "o lugar por excelência do futebol amador, tentar ver se pelo menos ali ainda encontravam algum resquício daquele futebol de antigamente, que todos eles viviam intensamente, mesmo tendo nascido anos ou décadas depois do seu auge".

Time do Autônomos FC reunido pra foto, claro, de várzea

E por falar na beleza desse esporte, nada contra o azul-lilás, o laranja-pop, o rosa-choque e o verde-cheguei, mas que tal chuteiras pretas de homem?


publicado em 01 de Outubro de 2011, 05:08
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Rodrigo Erib

Rodrigo Erib é fotógrafo e o maior fominha. Com ele, clicou é gol.


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