Avião: acho chique

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Eu sou do tempo em que andar de avião era parte da diversão. Do tempo em que cobertor da Aerolíneas Argentinas e talheres da Varig eram troféus a serem exibidos em casa. 

Eu sou do tempo em que chocolate Kopenhagen fazia parte da refeição de bordo. Os aeroportos eram palco de pompa e soberba. Era quase humilhante ir até lá e não ter como viajar. Ainda assim, eu ia. Pois eu sou do tempo em que viagem de alguém da família era um evento. Todos se deslocavam para um aeroporto para se despedir, comer um sanduíche-lixo no café Paletta do Galeão e achar que está abafando.

Sou do tempo em que escala em Guarulhos chocava: tinha McDonald's no aeroporto de Cumbica. E os voos eram anunciandos no saguão do check-in em português, inglês e espanhol. Sou do tempo em que se chegava quatro horas antes de embarcar pra desfrutar do Duty Free. Em que o auge do entretenimento de bordo, para mim, era se divertir com a revista do Variguinho. De pedir para a aeromoça para dar uma olhada na cabine do piloto. Ou para subir as escadas do jumbo pra ver a primeira classe. Afinal, sou do tempo em que classe executiva era mais que aspiracional: só no caso raro de extremo overbooking.

Passagem aérea era comprada em cheque. E era emitida num talão com referências de pontos turísticos. Era permitido fumar a bordo. Sou ainda do tempo em que se embarcava andando pela pista do Santos Dumont ou de Congonhas. E a sala de espera do aeroporto doméstico de São Paulo era um ovo que acomodava todos os passageiros que não eram da Varig. E todos podiam desfrutar na cara de pau do bufê de sanduíche de atum e ricota oferecido pela TAM.

Hoje, funcionários da Infraero fazem greve contra a entrega à administração privada de Guarulhos, Campinas e Brasília. O aeroporto de Cumbica, não fosse um puxadinho que fizeram pra quebrar um galho, corria o risco de entrar em pane em dezembro deste ano. Próximo ao Santos Dumont, outdoor da Infraero comunica que o espaço aéreo brasileiro é um dos mais seguros e bem administrados do mundo enquanto a imprensa reporta que a capacidade máxima de controle aérea nos principais aeroportos do Brasil foi atingida este ano. Sou do tempo em que voar de avião era style. A alegria começava ali. Hoje, é a vergonha da viagem.

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publicado em 22 de Outubro de 2011, 08:10
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Leonardo Moura

Leonardo Moura é o carioca mais paulistano que existe. Formado em jornalismo e administração, trabalha há mais de 10 anos em mídia eletrônica segmentada. É autor do livro "Como Escrever na Rede - Manual de Conteúdo e Redação para Internet" e do blog "O Mundo em 2 Dias".


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