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Axl Rose explica, sem querer, que a vida não nos deve nada

E o Axl Rose realmente não foi junto com o resto da formação original do Guns receber as homenagens do Rock and Roll Hall of Fame.

A organização convidou, pessoas pediram, fãs suplicaram, os presentes vaiaram, mas o cara apenas não apareceu. Ficaram lá Duff, Steven Adler, Matt Sorum e o Slash, tocando junto com um outro cara, que não usava shortinho e não fazia o mesmo “na-na-na-na-í-í”, enquanto o Sr. Rose dormia em casa, gravava vocais de algum disco novo ou trocava mensagens com a Lana Del Rey. Ou algo assim.

E, claro, daí qualquer um consegue tirar muito assunto. Muitos mencionam isso como um ponto divergente na tendência de reencontros de antigas bandas, que chegou ao extremo quando até a formação original dos Beach Boys tocou junta de novo, algo que provavelmente nenhum de nós esperava que acontecesse. Outros especularam que tipo de coisa deve ter acontecido entre os integrantes do grupo pra que o Axl apenas não considere a possibilidade de topar com os caras de novo nessa vida.

Já eu, por outro lado, vendo a reação padrão dos fãs e lendo a carta de recusa que o Axl escreveu, acabei tirando dessa pequena treta uma outra lição: a de que somos, em nossa maioria, um bando de mimados.

Sim, meu amigo. Mimados. Tal qual crianças pequenas que não sabem reagir quando são obrigadas a comer vegetais, tomar um banho ou parar de brincar, nós simplesmente não conseguimos lidar direito com a não-realização das nossas vontades, com a negação do que desejamos, com a dolorosa realidade de que o universo não vai necessariamente nos garantir tudo aquilo que queremos. Seja a garota da mesa ao lado, o emprego dos sonhos ou a reunião da formação original da banda que mais gostávamos. O próximo passo, claro, é pensarmos que a melhor solução é chamar a garota de lésbica, dizer que o emprego nem era tão bom e xingar o vocalista da banda dizendo que ele não respeita os fãs.

Não sei se é culpa do ambiente cultural em que vivemos, cercados de teorias de auto-ajuda que pregam que todos são especiais e merecem apenas o máximo da vida em termos de satisfação pessoal. Não sei se é culpa dos avanços tecnológicos que permitem uma vida com o mínimo de dor e várias vezes até com o mínimo de esforço. O que sei é que muitos de nós efetivamente não têm os mecanismos necessários para lidar positivamente – ou mesmo normalmente – com as contrariedades da vida, sejam elas grandes como uma perda familiar ou pequenas como o Axl não querer tocar com o Slash de novo.


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E ao que parece o Axl também sabe disso, já que, como ele fez questão de pontuar na própria carta de recusa à homenagem:

“Time to move on. People get divorced. Life doesn't owe you your own personal happy ending especially at another's, or in this case several others', expense.”

Ou, se você não entendeu:

“Hora de seguir em frente. Pessoas se divorciam. A vida não deve a vocês nenhum tipo de final feliz pessoal, ainda mais às custas de outra pessoa, ou nesse caso, de várias outras pessoas”.

E o que isso quer dizer?

Quer dizer que às vezes só cabe a nós aceitar. Aceitar os términos, aceitar os finais, aceitar as mudanças. Sejam nas bandas, nas pessoas ou apenas na vida. Aceitar que vamos ser constantemente contrariados, que nem tudo vai sair como a gente quer e que o mundo não nos deve nenhum grau, por mais remoto que seja, de satisfação ou garantia. E claro, lembrar que reclamar, na maior parte das vezes, não ajuda em nada.

E que se até o Axl conseguiu deixar pra trás os bons tempos de Guns N' Roses, eu acho que nós podemos conseguir superar uma boa quantidade de coisas também.

Íntegra traduzida da carta aberta de Axl para o Hall of Fame

Para: O Rock and Roll Hall of Fame, os fãs do Guns N' Roses e para quem interessar
Quando a lista dos nomeados ao Rock And Roll Hall Of Fame apareceu, minhas emoções foram contraditórias, mas, em um esforço para ver o lado bom da coisa, tentando tirar o melhor disso pelos fãs e seu entusiasmo, eu fiquei honrado, empolgado, e esperando que de alguma forma seria uma boa coisa. Claro que percebi, com o andar da carruagem, que se o Guns N' Roses fosse escolhido, isso de alguma forma seria uma situação complicada e embaraçosa.
Desde então nós temos ouvido os fãs, falado com membros da diretoria do Hall Of Fame, lido vários comentários públicos e provocações de membros originais do Guns N' Roses. Discutimos com o presidente do Hall Of Fame, lemos vários comentários da imprensa (alguns legítimos e alguns inventados) e lemos os comentários de outros artistas que tentaram ganhar publicidade falando sobre o Guns e sobre o Hall da Fama.
Sobre estas circustâncias, eu acho que temos sido polidos, corteses e abertos a uma solução amigável em nossos esforços para fazer algo. Levando em consideração a história do Guns N' Roses, aqueles que gostariam de ir, junto com aqueles que o Hall Of Fame, por suas próprias razões, escolheram incluir na "nossa" escolha (que fique claro que são decisões com as quais eu não concordei, nem apoiei, nem acho que o Hall teria direito de fazer), e devido à maneira com o Hall Of Fame conduziu as coisas... não quero ofender ninguém, mas a cerimônia de indução ao Hall Of Fame não parece ser um lugar onde eu seja bem-vindo ou respeitado.
Que fique registrado, eu não nego a ninguém do Guns os seus méritos ou reconhecimentos. Nem eu nem ninguem do meu lado fez qualquer pedido ao Hall Of Fame. O show é deles, não meu.
Sendo assim, eu não vou à cerimônia de escolha do Rock And Roll Hall Of Fame 2012 e eu respeitosamente recuso minha indicação como membro do Guns N' Roses ao Rock And Roll Hall Of Fame.
Eu peço que eu não seja escolhido sem estar lá, e por favor saibam que ninguém está autorizado e a ninguém será permitido aceitar qualquer indução por mim ou falar em meu nome. Nem membros originais, representantes de gravadoras nem o Rock And Roll Hall Of Fame devem dar a entender, indiretamente ou por omissão, que eu esteja incluído na indução do Guns N' Roses.
Essa decisão é pessoal. Esta carta é para ajudar a esclarecer coisas de minha parte e da perspectiva do meu grupo. Não pretende ofender, atacar ou condenar. Embora infelizmente tenho certeza que alguns se sentirão ofendidos. Eu com certeza não pretendo desapontar ninguém, especialmente os fãs, com esta decisão. Desde o anúncio da nomeação nós temos buscado ativamente uma solução para o que parecia, levando em conta todos os pontos, uma situação sem vencedores, ao menos para mim. "Estaria errado se fizesse, estaria errado se não fizesse", de qualquer forma.
A respeito de uma reunião da formação do Appetite ou Illusion, eu fui claro publicamente sobre isso. Nada mudou.
Fosse "pelos fãs" ou qualquer que fosse a justificativa do momento, qualquer um que continue a perguntar, sugerir ou pedir uma reunião, está tirando a atenção dos nossos esforços com o lineup atual, eu, Dizzy Reed, Tommy Stinson, Frank Ferrer, Richard Fortus, Chris Pitman, Ron "Bumblefoot" Thal e DJ Ashba.
Izzy apareceu conosco algumas vezes em 2006 e eu o convidei a se juntar a nós no show do LA Forum no ano passado. Steven esteve no nosso show no Hard Rock, no final de 2006 em Las Vegas, onde eu o convidei para a nossa after-party e fui recompensado com suas entrevistas a seguir cheias de mentiras sobre reunião. Lição aprendida. Duff se juntou a nós em 2010 e novamente em 2011 junto com sua banda, Loaded, abrindo em Seattle e Vancouver. Para mim, com exceção de Izzy ou Duff se juntarem a nós no palco se acharem que devem algum dia no futuro, para uma música ou dois, não vai passar disso.
Existe uma aparentemente inesgotável quantidade de revisionismo e fantasias lá fora com objetivo de gerar auto-promoção e oportunidades de negócio disfarçando a realidade atual. Mesmo que tudo isso tenha sido gerado por pessoas ligadas a line-ups anteriores, não há espaço nem para conversar, quanto mais para uma reunião.
Talvez se fosse você tomando a decisão a coisa seria diferente. Talvez você o faria por um motivo ou outro. Paz, seja como for. Eu amo a nossa banda agora. Estivemos apoiando um ao outro quando as coisas complicaram. Amamos nossos fãs e trabalhamos para dar a eles toda a energia e coração que podemos.
Então deixem quem está quieto em paz. É hora de seguir em frente. Pessoas se divorciam. A vida não tem uma garantia de final feliz, principalmente se for às custas de outros, ou neste caso, muitos outros.
Se for possível, vamos deixar o "ele não apareceu, foi um golpe publicitário, foi desrespeitoso, ele não se importa com os fãs" longe de nós o mais rápido possível e vamos seguir em frente.
Ninguém é o dono da bola pegando a bola e indo para casa. Não distorça as coisas. Por mais de 20 anos nós temos lutado contra a ganância desta indústria e a sempre presente e aparentemente inesgotável corja de amadores e inescrupulosos, sujeitos inescrupulosos da mídia. Não quero citar ninguém, mas neste caso em particular, sobre o Hall e uma reunião, nunca fomos os donos da bola.
Para finalizar, por mais difícil de acreditar ou irônico que possa parecer, quero agradecer aos jurados pela nominação e pelos seus votos para a indução do Guns. Mais importante, gostaria de agradecer aos fãs por estarem ali com o passar dos anos, fazendo o nosso sucesso possível e por gostar e apoiar a música do Guns N' Roses.
Desejo um grande show no Rock Hall. Parabéns a todos os outros artistas sendo induzidos e aos nossos fãs, esperamos ver vocês na tour.
Sinceramente,
Axl Rose
P.S. RIP Armand, Long Live ABC III

Tradução: whiplash.net

Original: latimes.com


publicado em 20 de Abril de 2012, 08:21
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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