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Bárbara Evans na Playboy: implicações porno-filosóficas

Desde que o Brasil atingiu sua adolescência sexual por volta dos anos 80 (a política demoraria ainda um pouco mais), novos ritos de passagem foram inventados, importados e aprimorados para marcar a iniciação sexual de meninos que, a partir de então, se tornavam potenciais fazedores de meninos naqueles idos de um país com muitos hormônios, espinhas e uma eterna cara de loser.

Evidentemente aqui se trata da passagem para um estágio apenas potencial: a iniciação sexual adolescente começa pela modalidade de sexo mais praticado durante toda a vida adulta: o sexo solitário. Essa modalidade foi sempre o ato primeiro da vida sexual, antes mesmo das encostações, encoxadas e brincadeiras de médico nas férias de fim de ano. Aliás, entre os muitos erros de Freud, esse é basilar de toda sua teoria psicanalítica: apenas em sua sociedade vienense pós-vitoriana poder-se-ia presumir que um infante fosse apaixonado pela própria mãe como primeiro ato sexual. Em qualquer sociedade já chegada à adolescência, uma outra espécie de fêmea é infinitamente mais importante para o avanço sexual pós-punheta: a prima de segundo grau.

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O primeiro rito de passagem, então, era a conquista tão sonhada de uma arcana, hermética e profana revista de mulher pelada, sobretudo das deusas que habitavam nossos sonhos depois de anos exibindo suas coxas em minissaias na TV.

Eram tempos sombrios, aqueles. A inflação, fechada em 2.751% ao ano, exigia que guris alimentados a escassas mesadas fossem muito rápidos no gatilho para conseguir sua tão sonhada Playboy: o preço da revista poderia subir na faixa 85% até o fim do mês, e ainda era preciso arrumar os 20% para aquele primo distante, grande e que não enganava nenhum jornaleiro ao fingir que tinha mais de 15 anos – mas era uma época em que o ECA procurava mais proteger crianças espancadas à cinta do que de seus próprios hormônios em ebulição.

Os pelos como protagonistas do erotismo

A grande verdade é que, independentemente das imensas variações que a conquista deste tesouro no fim do arco-íris pudesse ter, a Playboy apenas exibia o que era suficiente para adolescentes desesperados que se apaixonam por qualquer espécie de fêmea que se mexa, e tão afoitos que tinham vontade de enterrar o peru em qualquer coisa que tivesse dois buracos e não desse choque. A Playboy, por décadas a fio, tinha como grande tapa na cara da sociedade o simples ato de, num show de cerca de 30 fotos, ter umas três em que eram vistos... os pelos xoxotais da modelo em questão.

Óbvio, havia os peitos. Mas os peitos são a primeira visão proibida feminina que um futuro onanista profissional conseguiria obter. Os peitos eram vistos sabendo-se esconder bem em terraços, em curvas de corredores na casa de amigos, em clipes da Madonna.

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Mas o máximo obtível do desconhecido corpo feminino era uma fulva penugem como a apenas indicar que, não fosse a modelo uma atriz ou jogadora de basquete famosa, e não fosse o observador um parco teenager espinhento e imberbe com muito punho a gastar na vida antes de se tornar um fodedor competente, ele poderia ver o que realmente importa.

Era exatamente como se dava a queda de braço televisiva em busca de audiência, numa época cara, e em que a hegemonia da Rede Globo era inquestionável e inalcançável. Canais menores não demoraram a perceber que, ao menos longe do horário nobre, poderiam ganhar uma grande parte do bife exibindo formas pouco disfarçadas de putaria em que se mantinha a audiência por intermináveis minutos do telespectador aflito, braguilha aberta e caralho à mão, sem exibir nada além de conversinha, e assim que alguns peitos fossem vistos, uma carrada de comerciais era despejada sem a menor cerimônia – e praticamente nunca chegando a exibir uma xavasca californiana e borrachuda no final. Eram tempos de Sexta Sexy, Cocktail e Corujão. É o Tchan, Banheira do Gugu e a Dança do Maxixe demorariam para aparecer evitando traições, salvando casamentos e deformando caracteres. E vocês reclamam da propaganda do lado dos vídeos nos site de pornografia...

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Tivemos então momentos marcantes na história da putaria nacional através das marcas pentelhais que eram impressas a rodo nas páginas da Playboy. O busílis mais marcante, que talvez quase tenha feito o Brasil entrar em guerra com a Alemanha, foi o de Cláudia Ohana, quando, ainda em 1985, apareceu na Playboy exibindo uma desconhecida xoxota modelo Floresta Negra, cobrindo toda a área bucetal com espessos e escuros pelos que, afinal, não deveriam ser de modo algum assustadores para um inconfesso admirador de buçanhas.

A Alemanha, preocupada com a queda do Muro de Berlim que ocorreria dali a três anos, ignorou os apelos brasileiros para uma retratação vinda diretamente da Floresta Negra teutônica. Como resultado, não apenas ficamos sem uma versão aloirada da inesquecível perereca de Ohana, como também virou tabu uma mulher brasileira possuir qualquer dose de pentelhos que aumentasse em mais do que 0,002% sua massa corporal.

Uma década depois, em 1995, seria então uma loira que faria história nas páginas da Playboy: Adriane Galisteu, cada vez menos viúva de Ayrton Senna, aparecia em uma foto depenando ela própria com gilete a sua piriquita. Nunca antes na história deste país uma grande modelo internacional aparecia depilando a si própria a aço, exatamente como se supunha que apenas as mulheres pobres e sem coragem de encarar a cera quente o faziam. Era a antítese completa ao modelo Ohana de dez anos antes. Era a prova inconteste de que, afinal, o que fazia sucesso era instigar a imaginação masculina a respeito do segredo mais bem guardado das mulheres (e importantíssimo para o sexo solitário que, acidentalmente, as envolva), muito mais do que a aparência de seus lábios inferiores: como, afinal, é o desenho de seus pelos?!

(Não à toa, tanto Ohana quanto Galisteu voltaram à Playboy em 2008 e 2011, respectivamente, com a grande promessa de repetir a instigação pubiana.)

Mas eis que surge Bárbara Evans.

Desmatar para matar os homens do coração

Como o grande trunfo da Playboy era mostrar sem mostrar, apontar o caminho do pote de ouro no fim do arco-íris sem deixar a mulher em nenhuma posição em que aparente ter qualquer apelo sexual no que está fazendo, além de apenas ter esquecido de se vestir, foi inevitável que, por décadas, simplesmente toda mulher que posasse para a revista tivesse uma quantidade mostrável e fantasiável de pentelhos para justificar seu cachê sem precisar ofender nenhuma hipersensibilidade exibindo os tão sonhados grandes e pequenos lábios. Era o sentido original de seducere, conduzir não diretamente, escondendo o principal, em oposição a producere, ou fazer aparecer.

É consabido que hoje, praticamente um quarto de século depois de Cláudia Ohana, os homens se tornam cada vez menos corajosos em desmatar uma mata virgem alheia. Talvez por isso as mulheres cada vez mais caem na esparrela injustificável de se livrar de todos os seus pelos (como já denunciou o melhor escritor do Brasil, Olavo Pascucci, em sua "Elegia da xavasca felpuda"), e depois, sem perceber a conexão lógica entre os dois fatos, reclamar tanto da falta de homem capaz de tratar bem uma donzela no mercado – como se um homem capaz não fosse aquele capaz de praticar um legítimo muff diving, a arte de chupar com competência, habilidade e cidadania uma racha perfumada, sem morrer engasgado no terceiro pentelho engolido. (A situação é tão degradante que sequer um termo em português para a versão masculina do sexo oral ainda foi inventado.)

Playboy
Playboy
obrigados

Bárbara Evans, o Brasil pôde ver, foi a primeira mulher a posar para a depilando-se por inteira. Para fins de exibir sua pombinha, não recorreu a nenhum expediente disfarçante: pela primeira vez na história brasileira, os lábios xoxotais de uma musa da foram a aparecer. Sua técnica sedutiva, para mostrar sem mostrar, foi apenas mostrá-los inertes, sem apelos de conotação nitidamente sexual, sem nunca abri-los o suficiente para que alguém possa ver o que há além do meio de campo.

Nossa Bárbara Evans coloca-nos agora numa complicada encruzilhada. Olhando-se para este preâmbulo de 2012, serão nossas Playboys agora devidamente labiais, sem servirem apenas para que se saiba se a posante em questão (entre um terço e um quarto do ano alguma ex-pénabundeada do BBB) depilou a macaca em formato de bigodinho do Hitler? Exibirão suas páginas, num avanço atrasado em relação ao RedTube, cada vez mais grandes e pequenos lábios xoxotais para que os adolescentes da próxima geração vão para sua primeira vez sem errar onde fica a entrada do complexo aparato sexual feminino?

Ou estaremos, em verdade, com atraso maior ainda, apenas diante de uma resposta feminina à hipersensibilidade masculina, que é cada vez mais incapaz de admirar os maravilhosos desenhos possíveis com os pelos de uma deliciosa xoxota, e sempre incapazes de deliciar uma mulher apenas com o uso da língua?

É cada vez menos conhecida a equação de que servir café em copo de plástico a um homem destrói dois terços de sua capacidade sexual (ao queimar os dedos e a língua), visto que cada vez menos homens possuem qualquer remota capacidade de agradar uma mulher com a língua (em qualquer sentido possível). Bárbara Evans pode ser um prenúncio duplo de que, por mais que avancemos na trocação e mostração das partes, ainda carregamos em cada passo dado adiante um retrocesso absoluto na formação de uma foda competente e satisfatória. Elas salvam ainda mais casamentos.


publicado em 28 de Dezembro de 2011, 06:08
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Flavio Morgenstern

Escritor, redator, tradutor e faz-tudo com textos, exceto aviões de papel. Gosta das coisas boas da vida: cultura greco-romana, língua latina, fenomenologia alemã, literatura americana e pornografia russa. Calunia em um blog pessoal e um político. No Twitter, @flaviomorgen.


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