BDSM e prostituição: pagando pra sofrer?

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Depois do rico debate sobre a regulamentação da prostituição, em mais de 540 comentários na entrevista de abertura e nos textos do Victor Lee, Atila Iamarino e Fausto Salvadori, fechamos a série com a B., do site "A Vida Secreta".

Dizem que a prostituição é a profissão mais velha do mundo. Particularmente acho que só há oferta porque existe procura. Na vida e no sexo, sou uma adepta da consensualidade: se tudo está bem para todas as partes envolvidas, que mal tem?

Seguindo este raciocínio, acho a prostituta uma figura necessária porque tem quem necessite de seus préstimos. Desnecessário pra mim é o cafetão, aquele que explora, seja ele homem ou mulher, nem mesmo glamourizado nas letras de Chico Buarque ou nas obras de Jorge Amado.

Trailer do filme "Anjos do Sol" (2006)

Aliás, neste ponto acho que a nossa legislação é até bem acertada, afinal de contas, segundo as leis brasileiras, prostituição não é crime, mas sim a exploração da mesma, o rufianismo. Se nossas leis fossem tão perfeitas na realidade quanto no papel, morria aqui o assunto, mas todo mundo sabe que não é bem assim. Da pedofilia e escravidão sexual nos infectos prostíbulos pelas brenhas desse nosso Brasil (indico o filme Anjos do Sol, sobre prostituição infantil e escravidão sexual sem nenhum glamour) às belas das casas de prostituição de alto luxo das grandes capitais, há por trás um submundo bem imundo (desculpem a rima pobre), que sem dúvida me faz questionar esse meu discurso pró-prostituição.

No entanto, como o assunto já foi bem debatido pelos rapazes antes de mim, resolvi finalizar este debate citando um outro aspecto do sexo profissional: a Dominatrix. Se você nunca ouviu falar de BDSM, dominadores e submissos, aconselho dar uma lidinha em um antigo texto meu aqui no PdH.

A rainha dos masoquistas

Dominatrix, Domme ou Dominadora Profissional, como queiram chamar, é um personagem importante no jogo BDSM e uma das figuras mais controversas desse universo do sexo pago. O estereótipo de uma mulher altiva e inatingível, vestida em couro ou latex, personagem sádica.

Por seu devido preço e escolha prévia de uma palavra de segurança (safeword), é capaz de fazer do seu Dungeon (masmorra) um playground dos horrores, sonho de qualquer masoquista. Max Mosley, ex-dirigente da Fórmula 1, que o diga:

Link YouTube | Sessão de dominação ao melhor estilo nazista

Em poucas palavras, a Dominadora Profissional, em troca de dinheiro ou favores, realiza a fantasia de clientes submissos.

Se para alguns (dominadoras e submissos), o ato de pagar um tributo para ter o prazer de se submeter a uma Dominadora X é algo mais do que justo e humilhante, talvez exatamente por isso sedutor, para outros é um pensamento completamente contraditório, afinal o dono da grana não seria o dono do jogo? Quem mandaria em quem?

Envolvimento sem comprometimento

Fora do Brasil há uma certa glamourização da personagem Dominadora Profissional. Casas de Dominação como a OWK são uma verdadeira Ilha da Fantasia BDSM.

Por aqui, nossas Dominadoras profissionais, ainda estão longe dessa profissionalização. Mantém apenas uns poucos escravos regulares e se negam veementemente a serem comparadas à prostitutas, principalmente, por acreditarem que como não há troca de favores sexuais (penetração, pelo menos dele nela, rs...), BDSM pago não é prostituição.

Algumas aceitam dinheiro, outras trocas de favores, mas no fundo é sempre isso por aquilo. E quase nunca é prazer por prazer...

A grande verdade é que para os submissos/masoquistas que necessitam ser dominados sexualmente e não querem criar um vínculo (emocional, sexual) além da realização do seu fetiche, este tipo de profissional é perfeita. É possível realizar seu fetiche sem comprometimento.

A grande maioria de submissos/masoquistas mantém o BDSM como uma vida secreta, que em nada atrapalha o seu dia a dia, desde que vivido discretamente. Todas as Dominadoras profissionais que conheço são extremamente discretas (até porque a discrição é a chave do negócio), costumam ter locais e acessórios próprios para atendimento e costumam atender clientes/submissos em horários previamente estabelecidos, que poderiam ser facilmente disfarçados como uma visita externa no meio do dia.

Área de treinamento de escravos em OWK, na República Tcheca

Grande parte dos homens que fazem uso dos serviços de Dominadoras profissionais tem relacionamento estável e muitas companheiras desconhecem seus desejo de submissão. O que de certa forma eu entendo... Na vida, todo mundo tem necessidade em ter seu porto seguro sem, contudo, dispensar a possibilidade de ter um porto alegre, de realização de suas fantasias. Para alguns é impossível unir estas duas necessidades em um relacionamento só.

Nem todas as mulheres encaram bem o BDSM e alguns fetiches de maneira natural, quanto mais erótica. Práticas relativamente simples, como a inversão de papéis e a podolatria, são vistas por muitas como algo nojento ou pervertido, restando ao homem somente duas possibilidades: uma vida de insatisfação sexual ou a necessidade em contratar serviços profissionais. Eis a questão!

Ah, e é claro que existem Dominadores profissionais, mas quase sempre voltados ao público gay. A procura deste tipo de serviço por mulheres é quase nula. Neste ponto a máxima de que homem busca sexo por sexo e mulher busca sexo com envolvimento parece fazer sentido.

BDSM e fetiches, um mercado em expansão

Enquanto isso, no dia a dia da prostituição, algumas garotas de programa ficam até aliviadas em atender clientes fetichistas, afinal, se o cara prefere gastar seu tempo disponível lambendo seu pé, cheirando sua bota, recebendo ordens como um cachorrinho ou desfilando com as roupas dela e gozar só com isso, melhor.

Já ouvi algumas prostitutas dizerem que é bem melhor atender fetichistas, pois neste período elas acabam dando um "descanso à xota". Outras, espertamente, se especializam em práticas sexuais mais incomuns para criar um diferencial, como ser ativa (inversão de papéis) e usar acessórios BDSM (chicotes, algemas etc).

Estas práticas diferenciadas, que muitas vezes dispensam a penetração propriamente dita, ainda rendem um dindim a mais. O mercado existe e acredito que, com a Internet, esteja em nítida expansão. Não é à toa que o GPguia (fórum sobre acompanhantes) tem um uma categoria específica para Fetichismo, BDSM-SSC e Podolatria.

Anúncio de acompanhante em site de prostituição

O striptease virtual é outra modalidade de sexo pago que cada vez mais conquista mais usuários. Sob a fantasia do anonimato na segurança do próprio lar, as pessoas se soltam mais em seus pedidos bizarros. Práticas mais incomuns – como o desejo de ver uma mulher menstruada se masturbando, urinando ou provocando o vômito – podem ser realizadas mediante acordo e pagamento prévio através de cartão de crédito ou debito automático.

Esta nova/velha modalidade em vender o corpo abre um leque de possibilidades ao sexo não convencional, outrora desconhecidas, ou guardadas a sete chaves.

Dinheiro ou prazer, qual o melhor pagamento?

Termino este texto compartilhando uma história pessoal.

Como comentei, conheço algumas (poucas) Dominadoras profissionais, até porque sou uma adepta de BDSM e fetiches de um modo geral. Independente de entrar no mérito da questão da profissionalização ser ou não prostituição, minhas reservas são um pouco mais psicológicas que morais, e só por isso nunca me meti a dominar alguém profissionalmente.

Acho que se o cara impõe quais fetiches quer explorar e no fim de tudo goza, paga e vai embora, é ele quem está no comando: simplesmente por este motivo, meu tesão acaba aí.

Há algum tempo fui sondada por uma amiga que faz Dominação profissional a participar de uma sessão em conjunto com ela. O homem, um executivo estrangeiro no Brasil a negócios, pagaria 400 reais, mais o táxi, para que ela e uma amiga (que também seria recompensada) o "obrigassem" a vestir roupas de empregada (feminização forçada) e por um período de duas horas "exigissem" que ele as servisse. O

desfecho da fantasia seria quando, no ponto alto da humilhação, as duas Dominadoras fariam com ele uma inversão de papéis. Ou seja, munidas de uma cinta-pau, traçariam o seu rabo...

Acha que é filme? Então conheça o OWK.

Sinceramente, a fantasia até me excitou, mas quando pensei que ele estaria pagando por isso, putz, perdi o tesão na hora e não aceitei. Detalhe: essa proposta aconteceu em uma época que eu estava super sem grana, mas nem assim rolou. Sei lá, apesar de saber da importância de existirem Dominadoras profissionais, deixo isso para as outras. Dá um certo embrulho no estômago me imaginar recebendo dinheiro em troca do meu prazer.

Posso ser uma romântica, mas ainda acho que o maior pagamento pelo prazer é o prazer que se recebe em troca. BDSM ou baunilha, tesão só deveria ser pago com tesão... Só isso!

Outras referências

O debate PdH e sua visão sobre a prostituição

Nota do editor: Depois desses 5 artigos e diversas contribuições preciosas dos leitores, você mudou em algo sua visão da prostituição e de sua regulamentação?

Mantemos a votação abaixo e gostaríamos de seguir a conversa com vocês, convidando novamente todos os autores envolvidos. Aproveitem também e sugiram temas para os próximos debates, que seguirão no mesmo modelo. Abraços!


publicado em 22 de Junho de 2010, 12:54
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B.

Designer de moda e dominadora nas horas vagas. É editora do site www.avidasecreta.com, onde fala de sexo y otras cositas mas.


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