Blues: O Coração Partido de Bessie Smith

Bessie Smith foi uma das principais cantoras de Blues de todos os tempos. O rob Gordon conta sobre ela em sua série sobre Blues

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Eu comecei a ouvir blues “de verdade” coisa de oito ou dez anos atrás, mas confesso que demorei até conhecer Bessie Smith. Claro, eu sabia sobre ela e sua importância, mas estava muito mais interessado naquela clássica figura do blueseiro que andava com o violão nas costas e sem rumo pelas estradas cheias de lama do Mississipi. Para mim, no momento em que mergulhei no blues, Bessie me parecia urbana demais.

Mas com o tempo comecei a perceber que isso estava começando a se tornar não uma falha, mas uma lacuna. Todos os textos sobre os primeiros anos do blues que caíam na minha mão invariavelmente passavam por ela em algum momento. Assim, decidi que era hora de corrigir isso e peguei uma coletânea para ouvir.

Puta que pariu.

Eu lembro que, anos atrás, li um texto que descrevia um cantor como um dos poucos de uma categoria superior que “não cantavam suas músicas, mas sim as interpretavam”. O texto — eu não lembro onde li — falava sobre Frank Sinatra. Cada dia mais eu acho que Bessie Smith também pertence a essa categoria. Bessie não canta, ela vive a música. Não é à toa que todas as cantoras de blues — e muitas de jazz, como Billie Holiday e Sarah Vaughan — se referiam a ela como uma grande influência.

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Agora, se é correto dizer que Bessie ajudou a moldar o blues, isso vai muito além do seu talento como cantora. Essa ideia envolve também suas letras e (certamente) sua personalidade, que a tornam, em minha opinião, umas das figuras mais complexas do blues.

Não é segredo para ninguém que um dos pilares do blues — talvez o maior deles — esteja nos corações partidos. E esta é a alma da obra de Bessie. Na verdade, ela cantou sobre muitos temas. Alcoolismo. Violência. Falta de dinheiro (sua versão de Nobody Knows You When You’re Down and Out é de ouvir de joelhos). Durante boa parte dos anos 20, ela foi a artista negra mais bem paga dos Estados Unidos, mas como seu público era formado basicamente pela classe baixa, suas músicas conversavam diretamente com essas pessoas.

Mas o grande tema das suas mais de cem músicas gravadas está no sexo oposto e no sofrimento que ele pode causar. Na maioria das canções, Bessie assume o papel da mulher abandonada, ignorada ou rejeitada, cujo amor fez com que ela fosse desprezada ou, muitas vezes, abusada (até mesmo fisicamente). E ela entrega essas histórias cotidianas com uma tristeza de partir o coração, alternando o poder de sua voz com momentos de extrema delicadeza.

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Mas o que aumenta ainda mais a força de suas canções é que elas não usam meias-palavras para expressar sentimentos, mesmo (ou especialmente) quando eles giram ao redor de sexo.

Na verdade, o blues sempre foi descarado. Ele é mais violento e mais sensual que qualquer outro gênero musical de sua época — e isso inclui o rock. Já vi muita gente comentar como os Rolling Stones eram avançados por cantar, em 1967, que “let’s spend the night together”, ignorando que Muddy Waters já resmungava que “I just want to make love to you”, com todas as letras e sem sequer tentar disfarçar… Em 1954.

Bessie quase nunca fala abertamente sobre sexo, mas também nunca deixa dúvidas sobre o que está falando. Isso é algo que acho fascinante no blues: se na música pop a saudade parece estar sempre ligada a um amor de conto de fadas, no blues ela é, o tempo inteiro, regada a sexo. E, em plena década de 20, Bessie, uma mulher negra, não fazia a menor questão de esconder isso. Aliás, ela escancarava isso lançando discos que vendiam como água.

Em Empty Bed Blues, por exemplo, ela acorda para descobrir que seu homem foi embora e passa o resto da música se lembrando de como ele é na cama — apenas para concluir que o sujeito dormiu com sua melhor amiga. Em Outside of That, ela mexe com dois tabus de uma vez só: entrega que o homem bate nela dentro de casa, mas, ao mesmo tempo, assume que irá perdoá-lo por causa de seus talentos sexuais.

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Ah, então Bessie era submissa?

Não. Definitivamente não. Primeiro, porque muitas músicas mostram outro tipo de reação a essa situação. Em Sing Sing Prison Blues, ela está indo para a cadeia “pois matei meu homem e não preciso de fiança”, sem mostrar remorso algum pelo crime. Na maravilhosa Aggravatin’ Papa, ela conta a história de uma briga entre dois amantes, contando como a mulher exigiu que “me trate bem ou me deixe sozinha”.

Além disso, é preciso sempre levar em conta que estamos falando de uma pessoa que, ao saber que membros da Ku Klux Klan haviam cercado a tenda onde se apresentava, foi até a porta e os expulsou. E de uma pessoa que, após ser esfaqueada por um bêbado quando saía de uma festa, correu atrás do sujeito por três quarteirões antes de cair na calçada, ainda com a adaga enfiada no corpo — e, no dia seguinte, subiu ao palco normalmente. Não, Bessie não era submissa, muito menos delicada. Longe disso.

Pelo contrário, Bessie era uma força da natureza. Sua personalidade selvagem, promíscua, violenta — e extremamente generosa — também ajudou a moldar o blues, tanto quanto suas músicas. Até então, o artista de blues era visto, especialmente nas cidades, como uma pessoa rústica e rude, muito mais próximo de um bandido que de uma pessoa comum. Com sua enorme fama junto ao público urbano, Bessie deu novos significados a esse comportamento: a “grosseria” começou a ser admirada e a “falta de civilidade” passou a ser vista como transgressão. Bessie não fez o artista de blues perder a imagem de bandido, mas fez com que ele passasse a ser admirado também nas grandes cidades — e justamente por causa do seu comportamento.

Mas, voltando à submissão (ou melhor, à “não-submissão”) de Bessie em suas músicas. Para mim, o blues não uma música machista ou feminista — apesar de canções pontuais que namorem com isso. Mas o blues como um todo é sexista de um jeito único: suas músicas sempre entregam poder demais para o sexo oposto. A tristeza de um homem é normalmente causada por uma mulher, e a mulher vê seu amor não ser correspondido por um homem quase sempre ausente.

Bessie cantava isso, mas também vivia isso — da mesma forma que vivia a violência e o alcoolismo de suas outras canções. Aliás, existem biógrafos que dizem que todas as suas músicas eram biográficas, mesmo sabendo que a maior parte delas havia sido composta por outras pessoas — normalmente homens.

Talvez Bessie fosse talentosa a ponto de pegar uma música e transformar-se totalmente em sua personagem, ou talvez ela tivesse bagagem suficiente para emprestar vida — e não apenas voz — a uma canção. Eu não sei. Acho que um pouco dos dois. Mas que a vida dela está diretamente ligada aos temas de suas canções, isso é indiscutível.

Afinal, é impossível falar de Bessie sem falar de Jack Gee, seu segundo marido — sobre o primeiro, que teria morrido na I Guerra Mundial, sabe-se muito pouco. Existe uma frase, que adoro, que diz que “o blues nasceu quando o primeiro homem cafajeste conheceu a primeira mulher mentirosa”.

A frase descreve também o casamento extremamente conturbado de Bessie e Jack. As traições eram comuns e aconteciam dos dois lados, normalmente envolvendo as coristas de Bessie — e isso também dos dois lados, já que a cantora era bissexual. Os barracos entre os dois eram frequentes e notórios, e o gosto de Bessie por álcool, junto com o gênio horrível de Jack, faziam com que muitas vezes a coisa descambasse para agressões físicas ou até escândalos com armas de fogo e ameaças de morte.

Talvez todos os cafajestes das músicas de Bessie têm um pouco de Jack. Mas com certeza todas as mulheres destas canções têm muito de Bessie. É isso que torna suas músicas tão especiais, tão verdadeiras, tão doloridas.

Cada dia mais eu me convenço que nunca mais existiu outra como Bessie, a Imperatriz do Blues.

Como encerramento, deixo um mimo aqui que achei alguns meses atrás e gostaria de compartilhar. Em 1929, ela participou de St. Louis Blues, um filme de dois rolos baseado na música de W. C. Handy (que, em uma versão diferente, sem coro algum, foi um dos seus maiores sucessos). Com interpretações exageradas e teatrais— é quase um vaudeville filmado — sintetiza todo o universo de Bessie, com jogo, homens imprestáveis, traições… E um coração partido. É o único registro em filme que existe de Bessie Smith.

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Em tempo: A HBO acabou de lançar um filme sobre Bessie, com Queen Latifah. Ainda não assisti, mas tenho lido críticas muito boas.

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Aggravatin’ Papa — Ao testemunhar uma briga entre um casal, Bessie canta usa a frase da mulher para dar voz para toda mulher maltratada por um homem, exigindo que “não tente me enganar e me trate bem ou me deixe em paz”.

Beale Street Mama — Em muitas canções, ela se refere ao homem como “Papa” ou “Daddy”, o que a coloca como “Mama”. Aqui ela implora que o homem volte para casa, afirmando que “talvez eu tenha sido cruel, mas nunca te enganei”. Ao mesmo tempo, ela deixa claro que não vai ficar sozinha, mas com homens que não são bons — sexualmente — como ele.

Nobody Knows You when You’re Down and Out — Um dos maiores hinos do blues, conta a história de uma pessoa que perdeu todo o dinheiro — e, consequentemente, os amigos desapareceram. Tem um dos versos mais geniais que vi, quando ela diz que “seu eu colocar as mãos em um dólar novamente, vou segurá-lo com tanta força que a águia vai gritar”, fazendo referência à imagem da moeda.

Back Water Blues — No texto da semana passada, eu falei um pouco sobre como o blues é obcecado por histórias de inundações. Aqui, Bessie consegue fazer isso se colocando no meio da enchente de 1926 em Nashville, contando como perdeu tudo o que tinha.

A Good Man is Hard to Find — Bessie começa contando como está triste por estar sozinha e morrendo de saudade do seu homem que a abandonou, e reclamando que nenhum homem presta. Então, ela deixa um conselho para as mulheres: “se você encontrar um homem bom, trate-o bem”, pois eles são difíceis de achar.

You’ve Been a Good Old Wagon — Outra paixão do blues está no uso de metáforas para descrever um sentimento ou uma pessoa. Aqui, Bessie transforma o homem que a deixou (e provavelmente quer que ela o aceite de volta) em uma carroça, deixando claro que “você foi uma carroça boa, mas você quebrou”. No meio da música, ela descarta a metáfora e joga as cartas na mesa dizendo que “ninguém quer um bebê quando um homem de verdade pode ser encontrado”.

Young Woman Blues — Aqui a história é um pouco confusa, com uma espécie de passagem de tempo. A letra começa com a mulher descobrindo que foi abandonada porque seu homem não queria nada sério, mas logo se transforma, e é a mulher que tem a mesma atitude, indo de cidade em cidade, bebendo e festejando que “sou uma mulher jovem e ainda não terminei de rodar”.

Tain’t Nobody’s Biz-ness if I Do — Outra preciosidade. Bessie, como eu disse, não era submissa. Pelo contrário, aqui ela deixa claro que suas atitudes são “problema meu”. É um blues standard que conta com inúmeras gravações, e a de Bessie muda alguns versos do original para mais uma vez, fazer menção a um homem que abusa dela.

St. Louis Blues — Apesar de colocar a versão do filme no texto, eu não tenho coragem de fazer um post sobre Bessie Smith e deixar a versão original dela de fora. É um dos maiores marcos do blues (e do jazz, já que ela está acompanhada de um jovem Louis Armstrong) e uma das músicas mais importantes do século. Foi composta por W.C. Handy, o “pai do blues”, que alegava ter se inspirado em uma mulher que, ao lamentar a ausência do marido, disse que “meu homem tem um coração igual a uma pedra atirada no mar”, que é um verso chave na canção. Mas, para mim, o trecho “se eu estiver me sentindo amanhã como me sinto hoje, arrumarei minhas coisas e vou embora” define o blues como poucas vezes vi.

* * *

Obs.: Este texto foi originalmente publicado na série Sábado de Blues, lá no Medium do autor, Rob Gordon, que sai - pasmem - todos os sábados.


publicado em 07 de Abril de 2016, 00:00
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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