Estamos procurando um autor para escrever sobre saúde do homem no PdH! Topa? Mais informações aqui.

Bolsonaro, meu bom

Jair Bolsonaro aumentou sua coleção de gafes nessa última segunda-feira. No CQC, ao ser perguntado por Preta Gil sobre o que faria caso seu filho namorasse uma negra, o honorário deputado carioca disparou, com uma franqueza vistosa:

"Não vou discutir promiscuidade com quem quer que seja. Não corro esse risco porque os meus filhos foram muito bem educados e não viveram em ambientes como lamentavelmente é o teu."

Não entremos nem no mérito de ligar diretamente promiscuidade com afrodescendência, mas a emenda foi pior que o soneto. Ao explicar o motivo de ter respondido isso, Bolsonaro disse ter entendido a pergunta errada. Disse que teria entendido o que faria caso seu filho se relacionasse com um gay.

O blog da família de políticos

Aí que Bolsonaro desfila sua exuberância. Em entrevista para o Jornal do Brasil, o deputado fluminense se justifica:

"Você já viu o novo Programa Nacional de Direitos Humanos da Maria do Rosário voltado à população LGBT? Viu lá professor gay em escola de primeiro grau, livro didático com gravuras homossexuais, bolsa gay pró-jovem homossexual... É legal isso? Meu filho vai ter que dizer que é gay pra ter uma bolsa de estudos? Ou vai ter que queimar a rosquinha pra ter direito a bolsa de estudos para entrar na cota de homossexual, é isso?"

Nosso bom Jair só trocou uma fobia pela outra. No entanto, ele não deixa de ter lá sua razão.

Hoje,  respiramos um pesado ar politicamente correto. Buscamos desesperadamente sanar as feridas abertas da sociedade. E o melhor instrumento que achamos foi as cotas. Longe de aprofundar esse assunto, será que as cotas geram dependência e mais preconceito, ou realmente garantem inclusão para os cotistas?

Aparentemente Bolsonaro não está muito a fim de garantir igualdade. Podemos perceber isso quando, à ocasião da visita de um líder indígena à Câmara dos Deputados em 2008, discursou conforme captado pela Folha:

"É um índio que está a soldo aqui em Brasília, veio de avião, vai agora comer uma costelinha de porco, tomar um chope, provavelmente um uísque, e quem sabe telefonar para alguém para a noite sua ser mais agradável. Esse é o índio que vem falar aqui de reserva indígena. Ele devia ir comer um capim ali fora para manter as suas origens."

Inclusão ou uma outra aculturação?

A indigestão indígena do deputado vem de longa data. Segundo o site Rota Brasil Oeste, ao debater demarcações territoriais no final de 2004, o comportamento do deputado foi registrado da seguinte forma:

"A grande ofensa aos povos indígenas aconteceu quando o deputado Jair Bolsonaro (PTB/RJ) mostrou repulsa em relação ao fato de que o Movimento dos Sem Terra (MST), “apesar de abonado e constituído por pessoas que falam a nossa língua e são educadas", não consegue fazer a reforma agrária, enquanto “índios fedorentos, não educados e não falantes de nossa língua” conseguem possuir, hoje, 12% das terras brasileiras e fazer lobby no Congresso Nacional. Essa manifestação causou indignação em todo o plenário, principalmente entre os índios. Bolsonaro foi repreendido por Lindberg Farias e Moacir Micheletto (PMDB/PR), presidente da comissão externa."

Naquele tempo, o Twitter adormecia em algum testículo intelectual e o Orkut começava a ser a sensação. Bolsonaro não experimentara a velocidade das mídias sociais. Nem o alto gabarito de Marcelo Tas e trupe com o seu CQC.

Link YouTube | Seria engraçado se ele fosse um personagem...

Link YouTube

Jair Bolsonaro tem um quê de quixotesco. Defende quase que solitário seus pontos polêmicos. Nem tanto, já que foi eleito para seu sexto mandato consecutivo por mais de 120 mil votos.

Não se pode dizer que essas 120 mil almas que votaram em Jair pensem ou concordem com ele. Sabemos como votamos nós brasileiros e raramente escolhemos por empatia com programas de governo (quando existem). Talvez uns 30% realmente aprovem a postura do deputado carioca nascido em Campinas.

No entanto, isso não é preocupante. Seres e figuras como Jair Bolsonaro devem e podem existir. E existir em sua plenitude de direitos e deveres. A sociedade não deve abafar arbitrariamente, nem apontar dedos enfurecidos contra manifestações do quilate das ouvidas na segunda-feira. Se a postura e argumentos de Bolsonaro são ultrajantes, cabe a nós refutá-los com argumentos e posturas razoáveis. A expressão e o pensamento têm de fluir em abundância por todas as direções. E para sentir isso, basta olhar ao redor.

Quantos Bolsonaros religiosos, musicais, esportistas, profissionais, emocionais não temos ao redor de nós, belos e justos? Talvez ao alcance do reflexo de nossos transparentes tetos de vidros.


publicado em 29 de Março de 2011, 19:28
378a6d83dad728530ba98c300a775df3?s=130

Flaco Marques

Rapaz do interior de SP que vive suas desventuras na cidade grande. Poliglota valente, busca equilibrar o jeito cosmopolita de ser com a simplicidade caipira de viver.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura