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Bom Dia, Mulheres Reais

O fotógrafo Thiago Diniz nos mostra seu projeto, o Mulheres Reais

Nota editorial: estamos em busca de Bom dias com homens e com mais diversidade de corpos e peles — aqui explicamos em mais detalhes o contexto atual da série, suas origens, obstáculos e nossa visão de futuro para ela. Se você é fotógrafo(a) ou tem um ensaio que deseja publicar, fale conosco pelo jader@papodehomem.com.br .

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Cresci rodeado de mulheres em boa parte da infância. Fui criado por avó, prima, mãe e possuo uma irmã mais nova. Talvez por isso eu sempre tenha sido muito curioso pelo universo feminino. 

Mas foi na fase adulta que surgiram questionamentos cruciais que me fizeram refletir ainda mais o modo de agir, falar e pensar sobre as mulheres. Esses questionamentos me fizeram estudar bastante e querer compreendê-las cada vez melhor, o quanto fosse possível para um homem.

Partindo desse ponto da história, talvez o Mulheres Reais já estivesse lá desde sempre, incubado. Mas ele se materializou mesmo na fase de documentação para a conclusão do curso de fotografia da Escola de Fotógrafos Populares, na Favela da Maré.

Primeiro, quando pensei em documentar algo, pensei em como poderia colaborar para mudar a vida de alguém pra melhor, mesmo que fosse uma mudança sutil. Colocar a minha fotografia em favor do fotografado. Como fotógrafo, sempre tive essa vontade, essa visão social, e, ao conhecer e aprender mais sobre Fotografia Humanista (pautada nos Direitos Humanos) com o mestre João Roberto Ripper, essa inclinação tomou forma e corpo. Na Fotografia Humanista há uma preocupação em retratar as pessoas com cumplicidade e respeito acima de tudo, em seu ambiente, em busca de um mundo mais igualitário. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Meus aprendizados nesse sentido foram inteiramente aplicados no projeto Mulheres Reais. Entender o quanto a sociedade é machista e opressora é de extrema importância quando se pensa em fotografar mulheres. Optar pela não reprodução de um padrão ou pelo não fortalecimento de um estereótipo é fundamental para a construção de uma sociedade mais igualitária e menos machista.

Para iniciar o projeto de verdade, sentei e comecei a definir algumas questões importantes para mim, que traduzissem as minhas preocupações sociais.

Decidi então que não iria convidar mulheres aleatoriamente para participarem do projeto. Fotografaria apenas amigas, com quem tivesse intimidade. Queria que as pessoas sentissem sinceridade ao olhar cada foto. Também, compreendo que, para uma mulher, ter alguém dentro da sua casa ou a acompanhando e fotografando em diversos lugares (principalmente um homem) pode ser desagradável e invasivo. O tempo foi (e está sendo) fundamental para entender essas questões. Com cada mulher é bastante diferente, mas por sermos próximos, termos um vínculo, há maior abertura e menor sensação de invasão. O respeito é o fio condutor do projeto.

Decidi que minha interferência seria mínima, o que é bastante difícil quando há uma câmera entre duas pessoas. Optei, por exemplo, por não usar o flash, que traz consigo a definição do momento da foto, quebrando a espontaneidade proposta e causando, às vezes, um pouco de desconforto.    

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Também, não há direção. Em relação a elas, nunca é uma prioridade fotografá-las maquiadas, arrumadas, a não ser que queiram. E não há manipulação nas imagens. Desde o começo, o estereótipo feminino que é reproduzido em massa era uma questão que eu queria trazer à tona através do projeto. Queria deixá-las à vontade e fotografá-las  naturalmente, sem super produções, em atividades cotidianas, seja elas quais forem.

Outra coisa importante me veio à mente desde o início: todas as fotos deveriam ter aprovação das fotografadas caso publicadas ou divulgadas em algum lugar. Por mais que elas tenham  compreendido o projeto e optado por participar de livre e espontânea vontade, entendo que elas podem ter algum problema em seus empregos. Vivemos em uma sociedade machista nos impõe valores, e isso fica bem claro nos ambientes tradicionais de trabalho. O mínimo que podia fazer era não causar ainda mais problemas e ajudá-las a se preservarem caso fosse necessário.

Defini, por último, que as acompanharia pelo tempo mínimo de dez anos, assim, conseguiria algo maior, algo que realmente pudesse impactar a vida delas de alguma forma, e, quem sabe, de outras mulheres que tivessem acesso ao projeto. Com isso, o projeto segue até 2022.

Quanto à técnica, a fotografia em preto e branco sempre chamou mais minha atenção, talvez por remeter ao passado, trazer um forte sentimento nostálgico. Essa foi uma decisão mais pessoal, de estética, que técnica (costumam dizer sobre desviarmos o olhar do assunto principal devido as cores de uma fotografia). 

É isso. No mais, tentei sintetizar no projeto uma ética, coisas nas quais acredito. E eu acredito numa construção coletiva e contínua para a diminuição e, quem sabe, extinção do machismo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Boa semana a todos.


publicado em 04 de Maio de 2015, 09:00
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Thiago Diniz

É poeta/fotógrafo/produtor cultural. Em 2015 publicará Poemas de Versos, seu primeiro livro de poesia. Registra o cotidiano aquie outras ocasiões aqui.


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