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Brasileiro preocupa-se com o clima (e isso não tem nada a ver com praia)

A produção de energia com luz solar é uma realidade que demora a emplacar por aqui por questões burocráticas. Mas há um jeito de ajudar a tirar esse empecilho da frente e fazer a coisa avançar

Se você acha que o brasileiro só se preocupa com clima na hora de ir para a praia, precisa conhecer esta pesquisa do Datafolha.

Tá bom, eu reconheço que um texto que te convida a conhecer uma pesquisa de opinião já deve ter feito você bocejar. Mas segura as pontas que a coisa melhora.

Meu nome é João Talocchi. Comecei minha carreira de ambientalista perseguindo um sonho de criança que era fazer documentários de natureza. Por uns 4 anos eu mergulhei, me pendurei em coisas e sobrevoei lugares incríveis do mundo todo para documentar um pouquinho da vida dos mais diversos animais, incluindo alguns da nossa própria espécie. Era o trabalho perfeito, não fosse pelo fato de que quanto mais eu via, mais eu percebia que a gente está detonando nosso planeta.

Vazamento de óleo no Golfo do México

E mesmo que algumas das histórias que eu ajudava a produzir mostrassem um pedaço disso, era difícil para mim ver aquilo gerando algum tipo de mudança. Não que eu não acredite no poder de uma boa história – mas se elas sozinhas resolvessem as coisas, não haveriam mais guerras, gente bêbada dirigindo, violência policial. Para gerar mudança, elas precisam ser conectadas a planos de ação, campanhas, demandas e resultar em novos comportamentos, seja por efeito moral, pela força de novas políticas ou ambos.

Por essa razão eu parei de fazer filmes e hoje trabalho para fazer essa conexão entre histórias e ações. O tema para o qual me dedico são as mudanças climáticas – porque, para mim, as soluções para esse enorme problema são também soluções para muitos outros. Por exemplo, a energia solar permite geração de renda e empregos, a agricultura orgânica e transportes alternativos são bons para a saúde pública. Reduzir o desmatamento inclui resolver a questão fundiária, melhorar a distribuição de terras e garantir os direitos de povos indígenas.

Quanto mais eu trabalho com mudanças climáticas, mais eu entendo que essa é uma causa que vai muito além do ambientalismo que me moveu inicialmente. As mudanças do clima e as suas soluções são causas intrinsecamente sociais.

Mas o que você acha disso? O que os Brasileiros pensam disso? 

Desmatamento em floresta

Foi para responder essa pergunta que juntamos um punhado de mentes de organizações como Greenpeace e Observatório do Clima para elaborar uma pesquisa de opinião de abrangência nacional, que encomendamos para o Datafolha.

O instituto ouviu 2100 pessoas com mais de 16 anos em 143 municípios das 5 regiões brasileiras. Ou seja, é pesquisa de nível eleitoral, daquelas feitas para saber em quem o brasileiro vai votar.

Quando eles apresentaram os resultados, ficamos todos com cara de babaca.

  • 95% dos cidadãos acham que as mudanças climáticas já estão afetando o Brasil;
  • Nove em cada 10 entrevistados veem relação direta entre as crises da água e energia e as mudanças climáticas;
  • Para 84% dos entrevistados, o governo não faz nada ou faz muito pouco para enfrentar o problema.

A pesquisa surpreendeu não só por mostrar que o brasileiro se preocupa com as mudanças climáticas, mas por mostrar também que o cidadão mediano tem um nível de entendimento muito bom, considerando-se a complexidade do tema.

Por exemplo, ao serem questionados sobre possíveis soluções, mais de 80% apontaram fatores que efetivamente contribuem para reduzir os efeitos das mudanças do clima: redução do desmatamento, melhorias no transporte coletivo e investimentos em energias renováveis. E mais: acreditando que, além de combater as mudanças climáticas, essas medidas podem trazer benefícios para a economia brasileira.

Seria ótimo se o pessoal da Esplanada dos Ministérios tivesse igual clareza dessa visão. Inclusive porque para dois terços da amostra (66%), o Brasil deveria assumir uma liderança internacional no enfrentamento das mudanças climáticas.

Das histórias para a ação

Impressionantes 62% dos entrevistados declaram-se a fim de instalar um sistema de microgeração de energia solar em casa. E esse percentual que sobe para 71% se houver acesso a uma linha de crédito com juros baixos e a possibilidade de vender o excesso de energia para a rede elétrica. No resto do mundo, o uso de energia solar em escala residencial está crescendo mais rápido do que qualquer cenário econômico pode prever, muitas vezes provocando reação das empresas de energia, visto que o poder sai das suas mãos e passa para as dos consumidores, ou melhor, microgeradores de energia.

O melhor de tudo é que a energia gerada por esses microssistemas é vendida para a rede, reduzindo a conta de luz ou até gerando um bônus para seu dono. Ganha o meio-ambiente, ganha o clima, ganha a sociedade, ganha o investidor.

No Brasil, isso já é tecnicamente possível desde 2013 – antes disso era ilegal conectar um sistema solar à rede. Mas além de ser “legal”, para o mercado crescer e passar das centenas de usuários atuais para os milhões de usuários em potencial, é preciso que o governo forneça incentivos – nada fora do comum – e vantagens similares às oferecidas para as indústrias do petróleo, automobilística ou da “linha branca”. Isso  por si só já traria grandes avanços.

Mas apesar do fantástico potencial solar – muito superior ao de países como a Alemanha, Japão e grande parte dos Estados Unidos, por incrível que pareça, a microgeração de energia enfrenta vários obstáculos no Brasil. Um deles é a forma como o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, estadual) incide sobre a geração de eletricidade do cidadão que escolhe produzir sua própria energia, que em alguns estados reduz aproximadamente 20% do potencial retorno de investimento ao taxar a energia que você gera.

Contra a dupla taxação 

Uma sobre a energia que você consome e outra quando você gera. É errado e não pode acontecer. Para ajudar a promover condições corretas e favoráveis para a microgeração de energia solar, assine esta petição que criamos para acabar com o ICMS Solar

Ela foi criada para pressionar os governadores a assinarem o convênio nº 16 do CONFAZ (Conselho Nacional de Política Fazendária), que permite aos Estados eliminar o imposto ICMS que incide na geração de eletricidade por meio de painéis solares, tornando essa energia mais barata e contribuindo para sua popularização.

Quem participou da pesquisa DataFolha citou, entre as principais vantagens para investir em microgeração de energia: 

  • A redução nas despesas com eletricidade (82%); 
  • A redução dos impactos de secas prolongadas (77%); 
  • A segurança e confiabilidade dessa fonte (70%); 
  • O fato de que se trata de uma alternativa às hidrelétricas (69%).

Mas esse é só um passo. Quando esse ponto estiver resolvido, nós apresentaremos novas demandas e, de grão em grão, tentaremos permitir que a energia solar vire uma realidade no Brasil, que ajude a gerar renda, reduzir a poluição e o custo da energia, balançar o modelo energético baseado em grande obras e que agora está avançando sobre a Amazônia e, como bônus, proteger o clima.

Você quer ver um Brasil mais consciente com o clima e mais avançado na geração de energia limpa? Bora bater um papo aqui embaixo, nos comentários.


publicado em 26 de Junho de 2015, 09:31
A

João Talocchi

João Talocchi é Diretor de Campanhas da Here Now. Já foi campaigner do Greenpeace, coordenador do Centro Estadual de Mudanças Climáticas do Amazonas e cinegrafista submarino. Quando ele tiver sua própria casa, ela terá painéis solares.


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