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Breaking Bad, Mad Men, The Sopranos. Quando criadores e crias se misturam

Em março desse ano foi lançado o livro Homens Difíceis, do jornalista americano Brett Martin, que trata da chamada Terceira Era de Ouro da TV americana, momento teve início com a série The Sopranos, em 1999, até chegar em Braking Bad, que teve seu último episódio em 29 de setembro de 2013.

Walter White e a mistura de maior coitado e pior pessoa a se conhecer
Walter White e a mistura de maior coitado e pior pessoa a se conhecer

Se antes tínhamos uma infinidade de séries em canais abertos da televisão, todas pasteurizadas, com temas e personagens dicotômicos e se segurando ao máximo para não "invadir" a casa dos espectadores com situações e cenas fortes, agora o cenário que se apresenta é o de grandes obras sendo criadas e experimentadas, personagens cada vez mais complexos e humanos e uma sensação de frescor a cada lançamento. Atores que antes prefeririam dar um dedo mindinho a trabalhar na televisão (já que cinema sempre foi sinônimo de glamour e dinheiro farto) agora migram da tela grande para a pequena e até para a internet, como é o caso de Kevin Spacey (vencedor do Oscar de melhor ator por Beleza Americana, 1999, e melhor ator coadjuvante por Os Suspeitos, 1995). Brett conta no livro tora a trajetória que foi precedida pela série Oz, da HBO, e ganhou potência com Sopranos. De toda essa análise muito bem feita (o jornalista escreve na GQ americana e já publicou matérias na Vanity Fair, The New York Times, The New Yorker), o que mais vale é perceber como criador e criatura se misturam nesses projetos.

Tony Soprano, O cara mais temido e mais sozinho e coitado de New Jersey
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Se no cinema, a figura central que temos é a do diretor, na televisão americana eles têm o chamado showrunner, que é a cabeça pela qual tudo passa, de locações a fechamento de roteiro e a condução direta da série como um todo. Se você gosta de Breaking Bad, pode ter certeza que isso é por causa de Vince Gillian. Quando falamos em Homens Difíceis, mais do que analisar as personagens que tanto gostamos, mais do que destrinchar as características do Tony Soprano ou Don Daprer ou Walter White, Brett vai a fundo na vida e particularidades de seus criadores. David Chase, criador dos Sopranos, era um homem inseguro e deprimido que tinha que lidar com a posição de chefão da série. Muitas das coisas que vemos nessa série (a melancolia, a mãe abusiva, a sacada genial de botar em xeque a maravilha ilusória que é ser chefe) são pequenas facetas de seu showrunner. A série The Wire, que foi transmitida pela HBO entre entre 2002 e 2008, é considerada uma das melhores já feitas até hoje (mesmo não sendo lá conhecida como merecia aqui no Brasil). Seu grande mérito sempre foi ser uma história com verossimilhança absurda, fato extraordinário para uma série policial (na casca) concorrente de tantas outras com fantasia exacerbada (CSI e afins). The Wire foi concebida por David Simon e Ed Burns, respectivamente um ex-jornalista e ex-policial. Simon escreveu e lançou, em 1991, o livro Homicide: A Year on the Killing Streets, fruto de um ano acompanhando policiais em Baltimore, Estados Unidos, em casos de assassinato. Ao conhecer Burns, juntos eles lançaram outra obra policial, o The Corner: A Year in the Life of an Inner-City Neighborhood, lançado em 1997, que trata de um estudo feito em uma esquina em Baltimore frequentada por viciados e traficantes de drogas. Não foi a toa que a série saiu tomada de realismo que, em outros tempos, poderia ser mal visto pelos espectadores ávidos ou anestesiados com tramas aventurescas de tiras bonzinhos que sempre desvendavam os mistérios que os levavam até a prisão do bandido maldoso.

Donald Draper, o homem que toda mulher queria ter e com quem nenhuma gostaria de conviver
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Walter White só se tornou a personagem que é por ser absurdamente humano, por ser um cara que poderia ser seu vizinho ou você mesmo. A nova tevê que mostrar verdade e cargas imensuráveis de humanidade e todos os tons acinzentados que temos todos os dias. Brett mostra que isso foi possível graças a inconsciente vontade de criativos de colocar pra fora pedaços deles mesmos, de imergir tanto a ponto de deixar confundir uma ideia com uma confissão. A televisão americana se tornou mais atrativa para o público, mais autoral para profissionais e grandes divãs para pessoas perturbadas e muito criativas. E que assim continue sendo por mais tempo. Link YouTube | Entrevista completa dos atores que concorriam ao Emmy de melhor ator em série dramática de 2012Link YouTube | Entrevista completa dos showrunners que concorriam ao Emmy de melhor série dramática em 2012Nota do editor: uma leitura adicional para quem se interessou, além do livro, é a grande entrevista que o Brett Martin fez com três showrunners -- Matthew Weiner (Mad Men), Vince Gillian (Breaking Bad) e David Milch (Deadwood), publicada na GQ em junho de 2012.


publicado em 07 de Junho de 2014, 06:12
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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