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Roupas de segunda-mão, por que não?

Não é só uma questão de estilo, mas também de sustentabilidade e consumo consciente

Há mais ou menos um mês, publiquei um artigo com dicas de compras em brechós. A partir das respostas que recebi, deu pra ver que este é mesmo um hábito crescente no Brasil, mas que também pode ser percebido como uma prática um tanto estranha.

Achei muito interessantes os comentários daqueles que "abriram os olhos", se mostrando receptivos e dispostos a explorar essa modalidade de consumo.  Mas o que me deixou realmente intrigado foram aqueles que demonstraram verdadeira aversão a produtos de segunda mão.

E foi tentando entender essas pessoas que eu resolvi escrever este artigo.

A lógica do consumo

A nossa sociedade almeja o exclusivo. Queremos ser exclusivos de alguém. Queremos a festa mais exclusiva da cidade. Queremos a selfie na praia mais exclusiva do globo. Queremos a bolsa mais exclusiva que pudermos pagar. Queremos ter produtos únicos a fim de se destacar.

O consumo é a liberdade?

O que isso diz sobre nós? Bem, com o perdão da generalização, muitos desses sintomas, que estampam diariamente os feeds do Instagram e Facebook, dizem que nós somos e fazemos parte de uma sociedade autocentrada. Tudo é por nós, tudo é para nós. Entramos em parafuso correndo contra a insustentável exclusividade das coisas, para nos manter no topo da pirâmide social.

Mas por que isso acontece? Bem, todos sabemos que a cada estação a indústria da moda lança tendências bem diferentes das anteriores. Essa sábia - e perversa - estratégia faz as pessoas se sentirem constantemente desatualizadas e impelidas a comprar as peças da nova coleção. As redes de fast fashion, cujas vitrines são renovadas semanalmente, levam essa lógica ao extremo mesmo que passem por cima de qualquer tipo de ética para torná-la possível.

Sabemos que esse mecanismo também funciona em outras indústrias através da obsolescência programada. Todas essas estratégias, aliadas à abusiva publicidade, renderiam muito pano pra manga, mas aqui eu só gostaria de apontar que podemos ser mais autênticos do que isso.

É possível procurar não se deixar influenciar tanto pelas tendências e criar um estilo próprio, menos sazonal, renovando seu guarda-roupa menos vezes e utilizando alternativas mais sustentáveis. Desta forma você fortalece sua identidade, gasta menos dinheiro e exige menos exploração de mão-de-obra escrava, consumo de energia, água e outros insumos da produção têxtil, além de gerar menos lixo, gases nocivos à camada de ozônio e poluição.

Até aí, tudo muito simples e racional. Mas como inverter a lógica do consumo? Como mudar valores e hábitos tão entranhados em nossa sociedade? Como fazer com que pessoas acostumadas a comprar vorazmente encarem essa nova lógica, mais consciente e sustentável?

Acredito que a exposição dos impactos e a propagação da ideia de que somos responsáveis por toda cadeia de suprimentos daquilo que consumimos são um ótimo começo. Assim, é possível saber quanto realmente custam essas exclusividades e, a partir disso, podemos avaliar melhor as alternativas disponíveis para mudar a nossa forma de pensar e de consumir.

Os produtos de segunda mão

Ok. E onde é que entra a história do consumo de segunda mão?

Em primeiro lugar, é evidente que comprando peças de segunda mão nós deixamos de estimular a cadeia abusiva da indústria da moda de forma direta, reduzindo seus impactos.

E, voltando à questão da exclusividade, veja que é possível ser exclusivo sem, necessariamente, seguir tendências. Ou melhor, sem precisar recorrer às últimas novidades do mercado.

A questão é que, para muitos, o termo “segunda mão” é sinônimo de “não exclusivo”. E não só isso: há quem diga que não compra de segunda mão simplesmente porque pode comprar um produto novo. Afinal, estar excluído das tendências cada vez mais constantes pode ser sinônimo de fracasso pra alguns de nós.

Mas existem 3 tipos de produto de segunda mão: ou ele ainda é um produto da moda atual - resultado do desapego de alguém que adquiriu a peça recentemente -, ou ele é um produto nem tão recente, mas que também não chega a ser vintage, ou é um produto exclusivo pra caralho!

Roupa comum, vintage ou hipster - você escolhe

Este ultimo tipo de produto tem a vantagem de não estar, agora, na vitrine da loja mais badalada. E é um produto verdadeiramente único. Pode ser uma bolsa que esteve no auge há 20 anos, mas cuja modelagem é atemporal. Um blazer estiloso saído do armário de um excêntrico. Um acessório que pertenceu à avó de alguém. Há nos brechós esse outro tipo de exclusividade, muito mais sustentável, em todos os sentidos.

Vale deixar claro que eu não recomendaria a você comprar uma sunga onde o instrumento de um marmanjo passeou por ali sem proteção. Também não sugiro que você compre uma camiseta branca puída e com pizzas amarelas debaixo dos braços. Isso é nojento pra qualquer um. Mas dificilmente você vai encontrar esse tipo de coisa num brechó de qualidade.

Bem, e o resto? O resto, camarada, a gente lava. Se a peça estiver em bom estado, que mal tem?

Melhorando os hábitos de consumo

O planeta grita cada vez mais alto e não podemos mais usar a desculpa de que não estamos ouvindo. Há cada vez mais documentários que alertam sobre todo tipo de problema: a exploração das costureiras das fast fashion, os riscos dos agrotóxicos, a questão global em torno da pecuária... Todos estão falando sobre um desses temas e é difícil ignorar as mensagens que estão sendo passadas.

E o que fazer para ajudar?

Bem, nós podemos contribuir de muitas maneiras. Em primeiro lugar, buscando informação sobre o que se consome. A partir dessas informações, vemos que boicotar ao máximo o agronegócio comprando mais produtos orgânicos é um passo. Diminuir o consumo de carne, economizar água e energia, separar o lixo, também. Nós tendemos a priorizar esses aspectos quando pensamos em ser mais gentis com o nosso meio-ambiente, mas raramente pensamos naquilo que vestimos. Não é à toa que o dono da Zara se tornou recentemente o homem mais rico do mundo, mesmo com as conhecidas práticas de trabalho escravo em sua cadeia produtiva.

Se depender da regulação dos governos de países pobres e/ou corruptos, as condições desumanas de trabalho continuarão ocorrendo. É nosso papel procurar saber de onde vem aquilo que consumimos para fortalecermos quem pratica nossos valores.

Além disso, é sempre bom responder as seguintes perguntas antes de comprar algo:

Eu preciso mesmo disso?

De quais maneiras eu posso adquirir esse produto? É possível comprar usado? Posso pegar emprestado? Dá pra trocar por algo que não uso?

Posso comprar de marcas que praticam reaproveitamento, reciclagem, upcycling?

Posso comprar de um produtor local?

E boa sorte.


publicado em 27 de Novembro de 2015, 14:28
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Rodrigo Cavassoni

Entusiasta de práticas sustentáveis e dono de um brechó online, a Arara.


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