"Cada um tem um motivo de ser como é": Conversamos com o SP Invisível

Entrevistamos o Vinicius Lima, fundador do movimento que está ajudando a mudar nosso olhar sobre os moradores de rua

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É linda a iniciativa de compartilhar aquilo que foi seu com o próximo. Nesse momento de temperaturas baixas na região meridional de nosso país, acalenta o coração ver pessoas se mobilizando para encontrar maneiras de ajudar aqueles que tem pouco.

Essa ajuda é valiosa e necessária, porém, muitas vezes, surge apenas de maneira esporádica e individual, o que torna impossível não me levar a refletir: se atuamos e vivemos em rede, como podemos ajudar coletivamente a construir uma sociedade que abrace e valorize mais o outro?

Talvez, um dos caminhos seja pela reeducação do nosso olhar com o próximo. Em enxergar de outra forma aqueles que, por muitas vezes, são excluídos, como os moradores em situação de rua. E por mais que nossas redes sociais e as diversas iniciativas que surgem nesse período deem a sensação do contrário, precisamos nos lembrar que nossa percepção por essa parcela da população ainda é, no mínimo, um tanto disforme: ainda recebemos notícias de uma guarda civil que retira seus pertences, de um morador de rua que foi agredido e queimado e de políticas que não escutam e respondem aos anseios desses moradores.

Estou longe de ter uma resposta para minha reflexão e inquietação, mas uma possível solução é a de uma comunicação mais lúcida e um jornalismo de mais sentido. E esse caminho já é percorrido há algum tempo pelo SP Invisível, que tem como um dos seus fundadores o Vinícius Lima, que bateu um papo comigo em uma breve entrevista por e-mail.

O SP Invisível, caso você ainda não conheça, é um movimento que surgiu em meados de 2014, buscando dar voz àqueles que normalmente não possuem uma. Por meio do diálogo e do registro de parte do que forma o universo de cada entrevistado, o SP Invisível já apresentou quase 500 relatos de pessoas contando um pouco de suas vidas, na maioria das vezes, morando nas ruas, nas diferentes redes sociais em que está presente. 

Hoje, é inspiração e modelo para iniciativas semelhantes em diferentes cidades do país.

É daquelas iniciativas que brilha os olhos e dá vontade de divulgar para os amigos, porque sua ação é maior do que, simplesmente, mostrar histórias de desconhecidos: o SP Invisível apresenta narrativas que nos fazem enxergar o outro como igual e companheiro de caminhada, que sofre de lutas e angústias próximas as nossas. E isso já é uma forma de propiciar a construção de uma sociedade melhor.

"Meu nome é David, tenho 58 anos, vivo apenas cinco na rua. Nasci no Sul de Minas e vim para São Paulo em 1972 porque achava que só de você atravessar a rua, já tinha uma vaga de emprego te esperando, mas não é assim. Não sei se é culpa dos governantes que não governam pela sociedade, só sei que os problemas políticos refletiram em mim. A pessoa se esforça, mas não consegue arrumar muita coisa.

Os caras lá de cima quebram as nossas perspectivas e os nossos sonhos. Tenho uma filha, ela mora aqui em São Paulo e estuda bastante, a vejo de vez em quando. Aqui na rua existe muita maldade.

O segredo é ficar na boa, quietinho e não se envolver em confusões. O pessoal que tem uma vida estável, nos oprime com o olhar. Acho que eles deviam nos olhar com outros olhos, eles devem perceber que todos nós temos uma história e não estamos aqui por acaso. Chega de preconceito."

1. O SP Invisível se intitula como um movimento que procura mudar o olhar das pessoas sobre o outro - principalmente com aqueles que são, muitas vezes, invisíveis para a sociedade. Depois desses mais de dois anos de jornada, como você enxerga que o coletivo vem contribuindo com isso?

Vinícius: Diariamente, recebo relatos de como o SP Invisível tem ajudado na mudança de olhar, de mente e de coração da pessoa, tanto pessoalmente, quanto pela internet.

Amigos ou até pessoas que nunca vi já me falaram coisas pequenas como "tal pessoa só comeu aquele dia porque ontem li uma história do SP Invisível" ou até "por causa das histórias do SP Invisível, eu ofereci um emprego na minha empresa pra alguém que tá na rua". Tem uma mulher que mandou uma mensagem na página dizendo, "minha mãe fumava crack todo dia por 13 anos. Todo dia eu leio uma história do SP Invisível pra ela, desde que comecei a fazer isso, ela não fuma há um mês".

Além desses relatos particulares, que acredito que são o que mais faz o projeto valer a pena, o movimento se expandiu por mais de 30 cidades já. Por isso que chamamos de movimento, é algo que acontece no Brasil e também dentro das pessoas.

"Era... Minha mãe era a minha base. Não só financeiramente, foram 34 anos só nós duas, né? O problema começou mesmo quando ela morreu, há dois anos. Se não, eu tava ganhando meu dinheiro, inserida na sociedade, sem andar com esses homens de rua.Sempre gostei dessas flores no cabelo.

Em casa também colocava aquelas de mentira, sabe? Eu era bem vaidosa, gostava de ficar cheirosa, não tinha essas cicatrizes na cara que tenho hoje, foram por causa de briga. Os meus clientes diziam que eu era a mais bonita da praça da Sé.Meu nome é Cristiana, agora é só Ana mesmo. Antes, esse era meu nome de guerra , hoje, é nome de rua.

Comecei fazendo programa com 21 anos. 21 pra 34 dá 13, né? Então, foi 21 mesmo, fiz por13 anos! Ser mulher na rua é difícil, sempre tem muito mais homem por aqui. De noite é muito mais perigoso, eu corro o risco de ser estuprada todos os dias. Tem cara que mexe, querendo sexo na marra. Quando to sozinha, eu me enrolo nesse cobertor pra me proteger, assim ninguém vê que sou mulher. Acho que vou ter uma chance de sair daqui mês que vem.

Tem um cara que disse que vai me levar e em trocar tenho cuidar dele, arrumar a casa, a roupa, limpar... Vamos ver. Eu quero mesmo é sair da rua."

2. Seu objetivo é contribuir com uma mudança de percepção das pessoas sobre o outro. Mas quais mudanças – no seu mundo interno e na sua relação com os demais – foram provocadas pelo projeto?

Vinícius: Muitas. Eu cresci em Igreja Evangélica, vendo e participando de muitos trabalhos sociais, mas sempre acompanhado de uma palavra sobre a Bíblia e tal. Então, quando comecei o SP invisível, sempre ouvia essas histórias com esse ouvido antigo e o cara, por exemplo, falava sobre fumar crack ou beber, eu já falava "mas não pode, tem que parar" e cagava várias regras pra cima dele.

Só que aos poucos fui ficando mais velho e aprendendo que a galera bebe pra dormir, pra não se matar, pro frio e por aí vai. Além de ser uma hipocrisia danada porque eu também tomo uma cervejinha e falava pro cara não beber. Com o tempo, fui aprendendo que cada um tem um motivo de ser como é, estar onde está e fazer o que faz. Inclusive, é isso que quero mostrar às pessoas.
 

"Eu era cabeleireiro, trabalhava num salão de beleza, né. Aí eu conheci um rapaz que usava crack, morei com ele por bastante tempo. Ele fumava na minha frente, eu era tranquilo, não usava nada. Como eu tinha dó e amava muito ele, sempre emprestava dinheiro pra ele comprar droga. Só que teve um dia que eu estava bem triste e acabei fumando pela primeira vez essa maldita pedra. Meu nome é Sérgio.

Daí pra frente, a minha vida foi um inferno. Hoje, eu sou tão endividado que só roubando um banco eu solucionaria meu problema. Já fui pra uma clinica, fiquei seis meses em Caçapava, durante esse tempo fiquei limpo, mas já voltei a usar logo que saí.Eu tenho vontade de voltar pra casa, mas se eu voltar pra onde meus pais moram, posso até botar eles em perigo, não acho que vai ser bom.

Hoje, eu não posso mais contar com ninguém, aquele meu parceiro foi morto e todas pessoas que conheço da rua são usuárias. Só que mesmo assim, to sempre dividindo roupa, marmita, cobertor. Cada dia é uma novidade, não tenho muita rotina, ajudo quem aparece na frente com o que tenho na hora."

3. Qual a quantidade de esforço embutido e qual é a logística para fazer o SP Invisível acontecer? Quantas pessoas estão envolvidas hoje, quando e como acontece às sessões e qual a postura de aproximação e diálogo com aqueles que serão fotografados e entrevistados?

Vinícius: O SP Invisível hoje conta com 20 voluntários (cinco de texto, cinco de foto, cinco de redes sociais e cinco de vídeo). Como ninguém vive da página ainda, nós saímos aos domingos, com duas pessoas de texto e uma de foto, ouvimos, no mínimo 5 histórias e agendamos durante a semana. A equipe de foto trata a foto e a de texto transcreve o áudio e escreve o texto.

A abordagem é bem simples, direta, clara e respeitosa. Pedimos licença, nos apresentamos, falamos do SP Invisível, sentamos no chão e deixamos claro que não somos ONG, igreja, não temos clínica e que vamos gravar a voz dele para fazer um texto e depois tirar uma foto. Se ele topa, fazemos tudo isso, se não, conversamos também, mas aí não vai pra página. Todos assinam um terminho, é bem simples.

"Olá, Gurizada. Meu nome é Eurico, tenho 58 anos. Vim de Rolândia, um município pequeno que fica no norte do Paraná. Na minha cidade eu trabalhava na lavoura com os meus pais. Depois da morte deles, decidi me mudar pra São Paulo.

Quando cheguei aqui fiquei impressionado, não imaginava que seria tão complicado arranjar um emprego. Quando procuramos um trampo, as empresas pedem o comprovante de residência, e como proceder? Não tenho casa. O máximo que consigo fazer é catar as latinha que encontro nos lixos da cidade. Tenho dois irmãos que moram em São Bernardo, um trabalha na Volkswagen e o outro em um mercado.

Não sei se eles sabem que moro na rua, nunca quis falar sobre isso com eles, tenho vergonha. Às vezes telefono pra saber como estão, mas isso é raro, não tenho telefone e não dá pra telefonar sem telefone. Espero conseguir ter uma casa e um emprego, se isso não acontecer, vou voltar pra minha terra."

4. O movimento parece que transbordou as redes sociais. Hoje parece promover ações que buscam uma mudança mais direta e imediata - como o evento na páscoa e, atualmente, a campanha do agasalho. Como você analisa toda essa movimentação? E como espera que o SP Invisível atue no futuro?

Vinícius: Realmente, o projeto sempre foi de comunicação, mas aos poucos, estamos vendo que quando falamos de um assunto que quase ninguém fala, somos também responsáveis por ele.

Então, estamos sim fazendo mais algumas ações e juro que não sei onde isso vai chegar, mas a causa da situação de rua é muito complexa e pra resolvê-la precisa que cada um faça a sua parte: psicologia, direito, políticas públicas e por aí vai. O SP invisível entra com a conscientização, às vezes essa conscientização exige ação, outras não.

Nesse inverno, o SP Invisível incentiva a doação de agasalhos e está com uma campanha de financiamento coletivo para a compra de meias, casacos e cobertores para serem distribuídos aos moradores.

Se você não conhecia o SP Invisível e não acompanha o movimento, pode ficar de olho curtindo a página no Facebook ou seguindo no Instagram. Você pode também fazer uma doação para a campanha do agasalho através desse link


publicado em 28 de Junho de 2016, 00:00
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Bruno Pinho

Estagiário do PapodeHomem e estudante de jornalismo.


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