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Cem anos de Solidão (Cien años de Soledad) | Livros pra macho #12

“Como la familia Buendía sintetiza y refleja a Macondo, Macondo sintetiza y refleja (ao tiempo que niega) a la realidad real: su historia condensa la historia humana, los estadios por los que atraviesa corresponden, en sus grandes lineamientos, a los de cualquier sociedad, y en sus detalles, a los de cualquier sociedad subdesarrollada, auque más específicamente a las latinoamericanas.”

Mário Vargas Llosa, Cien años de soledad. Realidad Total, Novela Total.

O Gabo e sua obra maior
O Gabo e sua obra maior

Fazia algum tempo que não lia. Não lembro exatamente por qual motivo, mas naquele momento da minha adolescência o hábito da leitura havia me abandonado. Ou eu o havia abandonado.

Certo dia, já sem muito ritmo e sem referências de bons livros, senti algo chamar minha atenção. Eu, que sempre busquei conhecer boas histórias, estava ficando com o repertório literário enfraquecido e isso começou a me incomodar.

Fui então à famigerada biblioteca de minha família (dou ênfase ao famigerada por conta dela ter sido alvo de uma acalorada discussão através de comentários em postagem anterior) e não conseguia escolher nenhum livro. Fiquei bastante tempo ali, parado, pensando, até que meu querido pai, ao passar por mim, perguntou: “Está procurando algum livro?”.

Respondi que “não”. Ou melhor, “nenhum livro em especial”. Na verdade, estava procurando um que me seduzisse. Contudo, sem exercitar a prática, não conseguia discernir os livros que mais me agradariam daqueles que não seriam interessantes. Dessa forma, só me restava pedir ajuda ao meu genitor, que prontamente apontou para o livro que vos apresento: Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez*.

“Esse é um livro muito bom. Tenho certeza que você vai gostar bastante”. Não lembro se foram essas as exatas palavras que meu pai disse. Entretanto, uma coisa trago comigo até hoje. Algo que, para mim, é um dos maiores prazeres da vida: olhar para uma prateleira de livros e escolher qual a próxima leitura.

Agora, sem mais delongas, falemos de Cem anos de solidão.

Devidamente encaixada na lista dos melhores de todos os tempos, o livro do autor colombiano dá aos afortunados e letrados aventureiros uma experiência extremamente prazerosa, além de levá-los a uma viagem às origens sociológicas da América Latina, uma vez que expõe, por meio de metáforas e alegorias, as feridas mais profundas dessa terra.

Tudo começa quando os Buendía, a família da qual o livro contará a saga, chegam e fundam Macondo. A cidade, que também será palco de outros livros de Garcia Márquez e que constituirá o que ele chamou de “O ciclo de Macondo”, começa a partir do nada, com pouquíssimas pessoas, e dispõe para todos os seus habitantes a mesma distância do rio, a mesma porção de luminosidade e a mesma quantidade de área. Isso demonstra que, no princípio, tudo era igualmente dividido, constituindo-se uma perfeita e harmônica comunidade.

A primeira edição do livro que vamos falar
A primeira edição do livro que vamos falar

Enquanto permanece isolada do resto do mundo, Macondo parece viver parada no tempo, longe das novidades e das inovações tecnológicas. Essa característica é marcante porque, mesmo estando em ordem, o patriarca e fundador da cidade, José Arcadio Buendía, é curioso e tem em Melquíades -- um dos ciganos que visitam constantemente a localidade -- a fonte de informações do mundo exterior, já que, inexplicavelmente, não consegue encontrar um caminho que conecte Macondo às outras cidades próximas.

Porém, a primeira grande transformação da história está prestes a ocorrer. E com ela, a ordeira Macondo nunca mais será a mesma. Úrsula, esposa de José Arcadio Buendía e uma das personificações da “razão” dentro da narrativa, consegue encontrar o caminho que o marido, por tantos anos, procurou. E por ele chegam muitos imigrantes que, por sua vez, vão apresentar o comércio ao povo macondino.

“La escueta aldea de otro tiempo se convirtió muy pronto en un pueblo activo, con tiendas y talleres de artesanía, y una ruta de comercio permanente por donde llegaron los primeros árabes.”

"A aldeia pequena de outros tempos rapidamente se tornou uma cidade movimentada, com lojas, oficinas de artesanato e uma rota de comércio permanente, por onde chegaram os primeiro árabes."

Com as portas da cidade escancaradas, o artesanato e o comércio aceleram o desenvolvimento e o progresso, e figuras institucionais passam a ser necessárias, tais como um corregedor (Apolinar Moscote), a igreja do padre Nicanor Reyna e o poder de polícia. Logo a desordem passa a tomar conta e uma guerra civil torna-se inevitável. Para por fim ao caos armado que já durava vinte anos, um alcaide é importado, encerrando-se assim, o primeiro ciclo de vida de Macondo.

Após isso, como lhes falei, nada mais seria o mesmo. O que antes era uma comunidade fraterna e tranquila, torna-se uma metrópole industrial. A cultura tradicional e centenária transforma-se numa simples monoprodução de banana, com o estabelecimento de uma companhia estrangeira. E o povo antigo se mistura com gringos, sujeitos que não se importam com a cultura local, interessados apenas em ofertas de emprego.

Aqueles que antes eram donos da própria terra se transformam em trabalhadores agrícolas assalariados, que não se identificam mais com a região em que cresceram, já que os funcionários locais foram substituídos por forasteiros autoritários e a antiga polícia foi trocada por pistoleiros de facão.

Algumas das gravuras da versão clássica aqui do Brasil, editada pela Record
Algumas das gravuras da versão clássica aqui do Brasil, editada pela Record

Muitos pontos podem ser levantados para mostrar aos leitores como Macondo foi se transformando em uma cidade padronizada e repetida, que apenas reproduz um ideal de progresso de tantas outras cidades grandes. E é esse poder mágico de apresentar uma história como se fosse um avô tentando ninar seu netinho, ao mesmo tempo real e fantástica, que tornou célebre o estilo do escritor colombiano, exaltando pequenos elementos que fazem o leitor questionar sua própria parcela de culpa pelas mazelas dos locais em que vive.

Além disso, é levado a se perguntar onde estão guardadas as tradições de seus antepassados, e quanto delas já foi substituída por itens sem uma aura cultural verdadeira.

Cem anos de solidão é tanto a saga da família Buendía quanto a de Macondo. Sua história resume a história do homem e da sociedade, mais especificamente a latino-americana, cujas etapas seguem uma evolução desde as origens até a extinção da civilização terceiro-mundista.

Com sua obra-prima, Garcia Márquez mostra ao mundo como é viver por cem anos na América Latina, uma terra que, há mais de quinhentos, insiste em trocar seus próprios conhecimentos e magias, por uma lógica importada e reprodutora de material descartável.

*Gabriel Garcia Márquez é considerado um dos mais importantes autores do século XX, tendo recebido o Prêmio Nobel de Literatura em 1982. Criador do realismo mágico, fez-se conhecido também pelos livros O Amor nos tempos do cólera e  Do amor e outros demônios.


publicado em 24 de Maio de 2013, 21:00
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Filipe Larêdo

Filipe Larêdo é um amante dos livros e aprendeu a editá-los. Atualmente trabalha na Editora Empíreo, um caminho que decidiu seguir na busca de publicar livros apaixonantes. É formado em Direito e em Produção Editorial.


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