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Cenas de uma paternidade sem filtros | Mundo interno #12

Contemplações sobre a paternidade

Neste texto juntei algumas observações e contemplações sobre a paternidade, que ando publicando por aí.

Cada vez mais vejo a paternidade (e o caos que vem junto) como uma fase da vida super rica para acessarmos o nosso mundo interno e colocar à prova tudo o que tínhamos como certeza.

Claro que não é só ser pai e isso já acontece. É preciso ter um mínimo de abertura e leveza pra poder navegar com tranquilidade, curiosidade e alegria por entre os choros, birras e fraldas. Mas não é impossível.

Estas observações são pensamentos que me surgiram e que anotei, mas, com toda certeza, não são regras absolutas e podem variar de família para família, de pai pra pai, de filho pra filho.

Ah, e lá se vão quase dois anos desde o primeiro ensaio sobre minha vida de pai.

* * *

Ser pai deficiente tem suas peculiaridades.

Não posso, por exemplo, pegar meu filho no colo e sair andando por aí de muletas. Se for pra levar ele comigo para qualquer lugar, tem que ser na base da conversa e do convencimento.

Isso coloca a paternidade em outro nível (o que é muito bom), porque eu não tenho a opção de apelar para a autoridade, e simplesmente sair carregando-o à revelia.

Se eu duvidar da capacidade dele de entender, se eu não entendê-lo no mundo dele, mostrar que percebo o quê ele está sentindo, usar de uma linguagem que ele assimile e ter paciência... nada feito!

Ou seja, haja expressões faciais, coisas pra mostrar, imitações, repetições, musicas, frases simples e onomatopeias pra ir até ali.

O legal é que ele já nem me pede colo (ja entendeu que meu colo é meio paradão). E quando ELE que quer ir à algum lugar, ele me puxa pelo dedo ou então me entrega as muletas.

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Se pudesse deixar apenas um lembrete pro meu filho seria o de que ele pode se considerar uma pessoa de sucesso - mesmo que ele não tenha um carro do ano, roupas de marca, namorad@ modelo, corpo escultural, tatuagem da moda, mansão em condomínio - se estiver usando seu tempo, ânimo, interesse e energia em beneficio de todos os seres .

Mesmo que isso aconteça tendo um carro do ano, usando roupas de marca, ao lado de um(a) namorad@ modelo, com corpo escultural, tatuagem da moda e morando numa mansão.

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Minha casa está com, praticamente, todos os móveis, paredes, utensílios, pisos e armários "personalizados" com rabiscos de giz. Tem brinquedos, potes, caixas de papelão, tampas, garrafas e coisas-que-se-tornaram-brinquedos espalhados por todo lugar, inclusive no jardim. Às vezes encontramos as coisas mais incomuns nos lugares mais improváveis que você possa imaginar, o papel higiênico e o lixo são "trancados" dentro do box para não seguirem o mesmo destino das coisas-que-se-tornaram-brinquedos. 

Nenhuma formiga, barata, centopeia, piolho-de-cobra, minhoca, lagartixa, calango, passarinho, abelha, borboleta, beija-flor, aranha, mosca, ou bicho imaginário passa despercebido hoje em dia. 

Qualquer coisa que produza som é usada pra batucar e, não raro, ganhamos uma performance de batuque-num-balde logo pela manhã; comer é uma aventura; comida e suco são matérias-primas para todo tipo de experiência; livros são livros, mas também são tapetes, origamis, mordedores, batuques e coisas-que-se-tornaram-brinquedos; luz é uma coisa fascinante; tomate é iguaria; e ventilador é a coisa mais interessante do mundo.

A paternidade é caos, mas é também um eterno convite para não se fixar a conceitos, rótulos e convenções.

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Se você usa a regra geral de que todas as vontades da criança devem ser atendidas, chances são de que a criança cresça sem entender o que é paciência e prioridades.

Se você usa a regra geral de que nenhuma vontade da criança deve ser atendida, chances são dessa criança crescer frustrada e desconectada emocionalmente.

Melhor seria seguir pela paternidade, navegando além dos extremos. Investigando nosso mundo interno e como ele molda nossa realidade, para poder ter clareza de qual a ação mais benéfica em cada momento.

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Sabem quando a gente está viajando e, de repente, a gente conhece outro viajante bacana e, sem alarde nem expectativas, passa a seguir viagem juntos?

Sabem quando a gente está comendo algo gostoso e aparece uma criança com os olhos brilhando, e a gente, sem nem perceber, já deu a guloseima pra ela?

Sabem quando a gente vai dar carona pra uma pessoa e coloca outras duas dentro do carro porque tanto faz dar carona pra uma ou pra três?

Sabem quando a gente está chegando na porta de uma festa em que não conhecemos ninguém, mas tomamos coragem e vamos?

Sabem quando a gente está colocando as malas no carro e acha que não cabe mais nada, até perceber que ainda falta uma baita mala e, mesmo assim, arrumamos um jeitinho de encaixar tudo?

É bem assim que me sinto com a nossa segunda gravidez.

* * *

Gostaria de me confessar aos leitores: às vezes, enquanto brinco com meu filho, em vez de ficar feliz e agradecer por ele ser um menino ativo, explorador, animado, eu fico feliz porque ele está gastando energia, vai adormecer cedo e eu vou poder descansar.

* * *

Vejo muita gente comentar que cuidar de crianças é cansativo - e concordo plenamente. Fico pensando que não é cansativo no sentido de trabalho braçal (embora o trabalho braçal também esteja incluído), mas porque pode ser a primeira vez na vida de muitos em que alguma atividade requer atenção plena e constante, por vários minutos seguidos.

Claro que sempre existirão as aulas chatas e as reuniões monótonas do cotidiano nos cobrando atenção, mas, nessas ocasiões, é muito fácil desligar do que está acontecendo e fazer outra coisa: desenhar na agenda, batucar na mesa, sonhar acordado, fuçar no celular, etc

Mas com crianças não.

Elas são muito hábeis em nos trazer de volta ao momento presente; em nos fazer prestar atenção nelas. Ainda bem que elas sempre nos salvam quando tentamos fugir da dança viva que acontece à nossa frente.

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Lembrete para mim mesmo: se um bebê chorando me tira a estabilidade, quais as minhas chances perante o resto do mundo?

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Só um pai que precisa fazer um bebê adormecer no centro da cidade entende o quanto estamos rodeados de poluição sonora.

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Será que os pais que usam e-books estão realmente incentivando a leitura dos filhos, ou estariam incentivando o uso de gadgets? Afinal, pra uma criança, e-book, celular e tablet é tudo igual.

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A paternidade traz o seu lado animal à tona: às vezes me sinto um cachorro quando cheiro o traseiro do filhote pra ver se tem cocô.

* * *

A paternidade continua destruindo várias das minhas certezas: nunca achei que iria manejar um bilau - que não fosse o meu - com tanta destreza e confiança.

* * *

A forma como educamos as crianças é realmente muito estranha: passamos meses (ou anos) comemorando cada arroto pós mamar, pra depois gastar tempo e energia ensinando que arrotar é feio.

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Aspiração final

Aspiração que faço, do fundo do coração, para todos os pais.

Aspiro que um dia todos os pais possam:

Reconhecer a magia que está operando na sua frente em forma de criança;

Saber que paternidade não é apenas fecundar um óvulo;

Compreender que xingamentos e gritos não servem para educar;

Perceber que os filhos são um constante lembrete de que podemos e devemos fazer melhor;

Entender que amor e carinho nunca mimaram ninguém;

Que se uma criança faz/usa algo de forma inusitada ela está apenas acessando a parte mais incrível (e inata) da nossa mente;

Que nossos filhos habitam um mundo lúdico e fantástico onde nossas razões e fixações não entram (e nem deveriam);

Que crianças não são irritantes, nós é que nos irritamos;

Que elas querem um pai que possa brincar e se fazer de bobo sempre que o momento pedir;

Que tempo e atenção são a maior riqueza que podemos oferecer à eles;

E que o mundo precisa de crianças felizes e amorosas se quisermos um futuro melhor, começando hoje.


publicado em 15 de Março de 2016, 18:49
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Marcos Bauch

Nascido na Bahia, criado pelo mundo e, atualmente, candango. Burocrata ambiental além de protótipo de atleta. Tem como meta conhecer o mundo inteiro e escreve de vez em quando no seu blog, o De muletas pelo mundo.


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