Cheryl Strayed | Mulheres que você deveria conhecer #2

A mulher que encarou o Pacific Crest Trail tem muito a nos inspirar

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Ela veio de um histórico familiar complicado – até aí, não muito diferente de quase todo mundo. Mas, no caso de Cheryl Strayed, a coisa foi um pouco mais difícil do que para a média dos seres humanos: estou falando de violência física e psicológica do pai, abuso sexual praticado pelo avô, morte repentina da mãe. Agora some a isso um divórcio aos 26 anos e, claro, um monte de questões emocionais por trabalhar. O que fazer?

Bom, se você já aprendeu que as melhores e mais efetivas soluções não raro são as menos óbvias, deve ter adivinhado: uma trilha de cerca de 1.770 km, completamente sozinha, sem experiência em percursos de longa distância e com pouco dinheiro. E nunca é demais lembrar que estamos falando de uma mulher e isso foi há vinte anos.

Quando nada ia bem, Cheryl Strayed tomou uma das decisões mais corajosas e inteligentes de sua vida: em vez de tirar férias e passar uns dias num resort para desestressar, ela resolveu percorrer por três meses a PCT – Pacific Crest Trail, trilha na costa oeste dos EUA que vai da fronteira com o México à fronteira canadense.

São 4260km de trilha e uma elevação que varia desde o nível do mar, na fronteira Oregon-Washington, até 4km de altitude, em Sierra Nevada

Mesmo tão jovem, essa americana nascida na Pensilvânia e criada no Minnesota já sabia que, às vezes, é preciso dificultar a vida para depois torná-la mais fácil.

Mais tarde, a trilha virou uma experiência que mudou sua vida, virou um livro, filme, fama e sucesso. Mas, até que Hollywood cruzasse o seu caminho, muita coisa precisou acontecer.

Coragem dentro e fora da trilha

No início da década de 90, Cheryl viu sua vida desmoronar. Sua mãe morreu vítima de câncer, seu casamento chegou ao fim, ela começou a se envolver com drogas e transar com os caras mais aleatórios possíveis, buscando desesperadamente prazer e, ainda assim, se sentindo totalmente perdida.

Sua mãe, Bobbi Lambrecht, morreu de câncer no pulmão em 1991, quando Cheryl estava no último ano da faculdade

Foi então que se deparou com um livro sobre a PCT e, nesse momento, a ideia da trilha começou a ser semeada. Foram alguns anos até que a coisa acontecesse e, quando rolou, sua mochila era tão pesada que não conseguia levantá-la sem um ritual de deitar-se, colocá-la nas costas, apoiar as mãos e os joelhos no chão, tomar impulso e ficar – com muito esforço – de pé.

E ela aguentou. Não só o peso, mas a solidão, as dores, os animais selvagens e todas as dificuldades que surgiram na jornada. Como se fosse pouco, transformou tudo isso numa história intensa e maravilhosamente bem contada em seu segundo livro – Wild, traduzido para o português como ‘Livre’.

Antes da fama com esse best-seller e seu fruto cinematográfico, ela havia trabalhado como garçonete e assistente social e já havia publicado seu primeiro livro, Torch, além de escrever para revistas, jornais e sites regularmente. Mas o que é mais admirável em Cheryl é sua humildade.

Num dos textos de sua coluna, Dear Sugar, que deu origem a uma coletânea publicada sob o nome Tiny beautiful things, ela responde à carta de uma jovem escritora que passa por uma crise de insegurança e criatividade, tão comum a artistas. A moça se diz em pânico com a possibilidade de não conseguir superar suas próprias limitações e inaptidão para escrever bem, com inteligência e coração. Cheryl então aconselha:

“Eu parei de ser grandiosa. Eu me puxei para baixo, para a noção de que a única coisa que importava era tirar aquele segundo coração que estava batendo no meu peito. O que significava que eu tinha que escrever meu livro. Meu muito possivelmente medíocre livro. (...) Foi apenas aí, quando eu humildemente me rendi, que eu consegui fazer o que precisava ser feito. (...) Por trás de toda ansiedade, sofrimento, medo e autocrítica, há uma arrogância em seu estado mais puro. Uma presunção de que você deveria ser bem sucedida aos 26, quando, na verdade, leva muito mais tempo para que a maioria dos escritores chegue lá. Você critica a si mesma, mas ainda está consumida pelas ideias que tem sobre sua própria importância. Você está muito no alto e muito em baixo. Nenhum desses lugares é onde conseguimos realizar alguma coisa. A gente põe a mão na massa é com os pés no chão.”

Qualquer pessoa que se dedica a alguma atividade artística sabe: a gente tem que fazer aquilo para não explodir. E mostrar o resultado do nosso esforço é algo que, em geral, nos faz tremer de medo. Afinal, trata-se de uma coisa tão significativa para quem fez, que mexe com ego e vaidade, que exigiu dedicação, autoexposição, vulnerabilidade e que pode ser tachada de ruim sem dó, em minutos.

Tem que ter muita coragem e, principalmente, humildade para se lançar na arena com os leões.

Mesmo sem conhecê-la, Cheryl faz um bem enorme pra mim e pra você

A trajetória dessa mulher cruza com a de várias outras mulheres. Ouvi falar dela pela primeira vez quando, aos 26 anos, estava me separando e embarcando numa viagem sozinha que começava no sul da Califórnia e terminava em Portland, no Oregon – ponto final de Cheryl na PCT. Foi uma grande coincidência, já tinha planejado a viagem antes de ouvir falar de Livre e a separação aos 26, bom, essa não tinha sido planejada em momento algum.

O fato é que, assim que tive o livro nas mãos, engoli-o, menos pelos pontos em comum com a minha própria história do que pela forma sublime com que Cheryl narra os fatos. Ela é uma grande inspiração e tem levado sua vida exatamente como o título de seu livro em português sugere: livre. E com sua atitude feminista e empoderadora ela acaba por encorajar mulheres a se libertarem e tornarem-se pessoas muito mais interessantes de se ter por perto.

Claro que Cheryl também teve suas inspirações – ela, aliás, fala de vários de seus escritores preferidos em Livre. Mas, na década de 90, era muito mais difícil ter todo esse suporte ideológico que as redes sociais e que a própria evolução da sociedade nos dão hoje. Era preciso muito mais autoconfiança para pôr uma mochila nas costas e superar o estereótipo feminino de sexo frágil. E ela fez isso seguindo o próprio coração.

Quando deu por si, lá estava, num hotel de beira de estrada perto da fronteira com o México prestes a começar a trilha que mudou a sua vida – e a minha bastante, e a sua um pouco também.

Como assim a minha?

Fortalecendo mulheres, ela também está ajudando a libertar homens que se veem presos na expectativa de ser o provedor, o inabalável e resistente suporte para as instáveis e emotivas garotas. Liberdade feminina é boa pra todo mundo. Em última análise, tira um peso desnecessário das suas costas.

"Tá se sentindo mais leve aí?" / "Tô, sim. Obrigado."

Sem ter noção da dimensão que aquilo tudo tomaria, ela dava seus pequenos passos. Pequenos mesmo: no início da trilha, ela percorria uma média – considerada baixa – de 16km por dia, o que até a envergonhava diante de outros trilheiros.

No final das contas, acabou dando um grande salto em direção a mais igualdade entre os gêneros não apenas com sua retórica, mas também com sua atitude.

Resiliência e coragem são as palavras que definem essa grande mulher que, por acaso – ou não –, é também uma grande contadora de histórias. Por sua mãe, irmãs, amigas, companheira; pela literatura de alta qualidade; pela bela adaptação de Livre para os cinemas; pela trajetória inspiradora… Motivos não faltam para conhecer um pouco mais sobre Cheryl Strayed, ler o que ela escreve e assistir ao filme de Jean-Marc Vallée.


publicado em 03 de Março de 2016, 10:45
Monica

Mônica Buccini

Troca qualquer balada por uma maratona de filmes e ama andar no mato, aprender novos idiomas, música country, viajar, psicologia e antropologia.


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