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Como criei o hábito de acordar cedo

Não é difícil acordar cedo. Mas é para quem quer e para quem gosta.

Nos dias normais, eu vou dormir lá pelas nove e acordo às cinco.

Algumas pessoas ficam surpresas:

"Mas escritor não é tudo boêmio e notívago?"

Outras ficam com inveja:

"Ah, quem me dera conseguir acordar cedo..."

Mas não é nem um pouco difícil acordar cedo.

Abaixo, vão as minhas dicas pessoais.

Naturalmente, elas são bem específicas em relação à minha vida e somente se aplicam a mim.

Mas, quem sabe?, talvez possam se aplicar também à sua vida.

* * *

Por que acordar cedo?

Desde sempre, percebi que era mais produtivo, mais alerta, mais ativo pelas manhãs.

Ainda assim, eu simplesmente não conseguia acordar cedo: varava a noite em atividades inúteis, estéreis e que exigiam pouca energia (tipo ver filmes ou navegar na internet) porque já estava cansado demais para produzir, mas ainda não cansado o suficiente para dormir.

Então, minha escolha era ou 1) continuar acordado desperdiçando meu tempo nessas punhetagens ou 2) me forçar a dormir e ficar fritando na cama.

Aí, no dia seguinte, era outra escolha ingrata: ou 1) acordar cedo e passar horas como um zumbi até pegar no tranco, ou 2) acordar na hora do almoço e já perder metade do dia.

E eu pensava: como fazer para ter mais horas produtivas?

* * *

1. Eliminei televisão em casa

Esse foi o primeiro passo.

Para mim, a TV era um caminho sem volta: eu me sentava diante dela para ver um programa mas, então, quando o programa acabava, eu não me levantava satisfeito, pronto para encarar o próximo desafio.

Nada disso.

Eu continuava plasmoso no sofá, trocando de canal e criando raízes, assistindo besteiras inacreditavelmente inócuas só para não ter que fazer qualquer coisa de produtiva da minha existência.

Se eu conseguisse me sentar diante da TV para assistir Doctor Who e assistir Doctor Who, eu teria TV até hoje.

Porém, mais e mais sessões de televisão que deveriam ter durado somente uma hora às vezes consumiam cinco, sete, o dia inteiro.

Quase digo que o problema não era a tevê, mas sim o fato de eu não conseguir controlar minha onda, se a tevê não tivesse sido especialmente criada e pensada para nos transformar em seres inertes e batatosos diante dela.

Hoje, continuo assistindo tudo o que eu quero: baixo os programas que me interessam e assisto só a eles.

* * *

2. Limitei a internet

Já tive fases de não ter internet em casa.

Hoje, estou morando com uma amiga que tem wifi.

Por isso, tirei a placa de rede wifi do meu laptop e ele não pega mais o sinal da internet.

(Quando pedi o serviço, três técnicos diferentes me ligaram para confirmar: "É isso mesmo? Você sabe que pode simplesmente desabilitar o wifi, não?" E eu respondia, "Moço, se eu tivesse força de caráter pra desabilitar o wifi e mantê-lo desabilitado, eu com certeza não precisaria pagar o senhor para tirar a placa de rede wifi na marra.")

Agora, por exemplo, estou escrevendo no meu quarto. Para enviar esse texto por email, terei que ir fisicamente até a sala e plugar o laptop ao modem físico através de um cabo de rede.

(Gosto da ideia da internet ser um lugar para onde tenho que fisicamente me deslocar, ao invés de uma realidade etérea e invisível que me circunda em todos os lugares.)

Trabalho como escritor profissional há muitos anos, sempre de casa.

Quando uma funcionária da Acme Inc fica o dia inteiro no Facebook ao invés de trabalhar, ela está roubando a Acme. (Um roubo que não é nada, aliás, perto de tudo que a Acme suga dela. O que é roubar um banco perto de fundar um banco? Falo mais sobre isso na Prisão Trabalho.)

Mas quando uma pessoa autônoma passa o dia no Facebook, ou assistindo TV, ela está dando um tiro no próprio pé: era melhor estar ou 1) trabalhando, e produzindo, e ganhando dinheiro, ou ao menos 2) em uma atividade recreativa de mais qualidade, como nadar na praia, correr no parque, ir ao teatro, fazer sexo, etc etc.

* * *

3. Troquei as lâmpadas

Um dia, uma namorada foi à minha casa pela primeira vez e levou um choque:

"Cruzes, parece um escritório!"

Ela queria colocar o ambiente em meia-luz, para namorarmos um pouco, mas não tinha como: era ou a mais completa escuridão, ou todo o brilho ofuscante das minhas diversas e fortíssimas lâmpadas brancas e fosforescentes.

Expliquei que ficava a noite inteira lendo e escrevendo, precisava de uma luz excelente. E ela perguntou:

"Mas seu escritório nunca vira casa?"

Fiquei anos com aquilo na cabeça.

Mais tarde, fui criando uma série de rituais simbólicos para ajudar nessa transição casa-escritório. Por exemplo, durmo num futon. Assim que acordo, ele se transforma em sofá e minha casa, em escritório. Quando o sol se põe, ele se transforma em cama e meu escritório, em casa. Etc.

Uma das mudanças mais importantes foi na luz: troquei as várias e poderosas lâmpadas brancas e fosforescentes por apenas duas lampadazinhas amarelas de 60 watts, uma no teto, outra na luminária de leitura.

Agora, quando o sol se põe e acendo as lâmpadas, a casa fica à meia luz, já antecipando e preparando o terreno para a hora de dormir.

Antes, era impossível o meu corpo entrar no ritmo natural do sono se, às oito da noite, ele estava consumindo a mesma quantidade de luz, às vezes mais, que às oito da manhã.

* * *

4. Limitei o trabalho

Às vezes, quando estou empolgado escrevendo um texto, ou tem um prazo estourando, a tentação é grande de virar a noite trabalhando.

Mas o corpo humano tem limites. a partir de um certo momento, a qualidade da produção cai vertiginosamente: eu não só começo a escrever besteira como ainda vou perder o dobro de tempo corrigindo, cortando, revisando as bobagens que escrevi enquanto estava grogue de sono.

Como já sei que meu período realmente produtivo são as primeiras horas da manhã, deixo para fazer nelas as atividades mais exaustivas e criativas, ou seja, escrever textos novos do zero.

(Se não fiz meu melhor trabalho até a hora do almoço, sei que agora só no dia seguinte.)

Depois de comer, com o ritmo já mais lento e saciado, faço tarefas burocráticas e menos criativas: revisar textos já escritos, procurar ilustrações, responder emails.

Por fim, quando o sol se põe, eu paro totalmente de trabalhar.

Desde a hora que acordo, a partir do meu pico de produção matinal, vou avançando pelo dia lenta e inexoravelmente em direção ao sono, em um decrescendo de atividade.

* * *

5. Limitei o uso de retângulos luminosos

Percebi que passava boa parte da minha noite olhando para retângulos luminosos, seja laptop, celular, televisão, etc, etc.

Que vida mais besta e vazia, pensei.

Então, me impus um novo hábito: nada de retângulos luminosos depois do pôr-do-sol.

(Tirei a expressão "retângulos luminosos" de uma matéria maravilhosa do The Onion. A vantagem dessa formulação — ao invés de "não usar eletrônicos" — é que ela me permite ler no Kindle, que é um eletrônico, claro, mas que não é luminoso. Novos estudos indicam que a luz azul dos eletrônicos tem um forte impacto negativo sobre nosso sono.)

Algumas pessoas me perguntam:

"Poxa, Alex, então você faz o quê à noite toda?"

E eu tenho vontade de abraçá-las e dizer que vai melhorar, porque só pode ser um pesadelo a vida de alguém que não concebe nada pra fazer à noite que não inclua retângulos luminosos.

Algumas coisas que eu faço depois do pôr-do-sol:

Recebo visitas; leio muito; cozinho; faço sexo; vou ao teatro; vou a concertos; passeio com a Capitu pela praia ou pelo aterro; ouço rádio; medito.

* * *

6. Racionalizei o consumo de bebidas estimulantes

Há pouco tempo, consegui associar uma leve palpitação que sentia ao dormir com o consumo excessivo de café. Parei de tomar e as palpitações desapareceram.

Quando tomo café, é apenas pela manhã. Naqueles dias em que dá muita vontade de comer as sobremesas que não posso comer, uma xicarazinha depois do almoço ajuda. Nunca, nunca depois disso.

Ao longo do dia, bebo copiosas quantidades de chá — obsessão oral é foda.

Finalmente, no começo da noite, para celebrar o fim do dia de trabalho, uma taça de vinho.

Há pouco tempo, também percebi que estava bebendo vinho demais e agora me limito a somente uma taça por noite, cerca de 250ml, ou uma garrafa a cada três dias.

(Segundo o ministério da saúde britânico, vinhos baratos já estão causando uma epidemia de doenças hepáticas entre homens de classe média baixa no Reino Unido.)

Tomar vinho todo dia pode sair caro: eu compro caixas bag-in-box de três litros, o melhor custo-benefício do mercado. Difícil é encontrar pra comprar fora do sul do Brasil, mas esse é um problema que a internet foi feita para resolver.

* * *

7. Racionalizei a ordem das leituras

Já disse G. K. Chesterton:

"Existe uma grande diferença entre um homem bem-disposto que quer ler um livro, e um homem cansado que quer um livro para ler."

De vez em quando, uma pessoa amiga me diz:

"Ah, Alex, invejo tanto sua capacidade de leitura. Eu simplesmente não consigo ler. Em quinze minutos, caio no sono."

E eu pergunto:

"Mas como é isso? Que horas você lê?"

E, invariavelmente, é sempre à noite, depois do jantar, depois da última entrevista do Jô, quando a pessoa já está completamente exausta e não tem energia para nada.

Não é culpa dela: nessas condições, ninguém conseguiria ler nem a revista Caras, quem dirá A Montanha Mágica.

Ler é uma ação. E, como toda ação, ela requer uma agente que tenha mínimas condições físicas para realizá-la.

Muitas vezes, minha atividade produtiva para um determinado dia é somente ler um livro: acordo, tomo café e vou ler.

Mas nem sempre minha vida foi assim: já li no ônibus, no banheiro da empresa, na fila do caixa, no restaurante. Já deixei de almoçar para poder ler. Já peguei ônibus ao invés de dirigir para poder ler.

Se ler te dá sono, maravilha. Pode ser uma maneira excelente para a pessoa dormir.

Na minha vida, onde ler quase sempre é trabalho, instituí um outro hábito.

Começo minha noite sempre lendo os livros para os textos que estou escrevendo, livros cabeçudos, que exigem leitura atenta.

Assim que percebo a primeira trava na atenção, aquele primeiro momento em que você se pega lendo e, de repente, se perde e não sabe onde está, eu troco de livro.

Vou ler livros leves. Livros pra dormir, como eu chamo.

Agora, por exemplo, meus livros para dormir são duas releituras: uma edição anotada dos melhores contos de terror de H. P. Lovecraft (um dos meus autores preferidos) e a Bíblia do Peregrino (a Bíblia é meu livro preferido, já li diversas vezes, sempre a de Jerusalém, agora a do Peregrino, as duas melhores bíblias do mercado).

E assim, mais uma vez, vou sempre indo do mais trabalhoso para o mais fácil, preparando meu corpo para o sono.

* * *

8. Deixei o sol me acordar

Moro no Rio de Janeiro, uma das cidades mais ensolaradas do mundo. Na minha casa, bate sol da manhã. Meu chão é de ladrilhos brancos brilhosos. Não tenho cortina.

Assim que o sol nasce, ele invade meu apartamento com fúria. Sua luz reflete nos ladrilhos do chão e domina completamente o ambiente.

Ficar na cama não é uma opção: eu seria frito em poucos minutos.

Lentamente, todo dia, o sol me expulsa da cama e vai me empurrando para o fundo da casa, onde fica o meu balcão de trabalho.

Obrigado, sol.

* * *

9. Passei a trabalhar de pé

Faz alguns anos, começou uma certa moda de trabalhar de pé. Teoricamente, traria mais benefícios à saúde que passar o dia inteiro sentado. Já novos estudos indicam que os efeitos benéficos não são tão grandes assim.

Escrevo de pé desde 2010, sobre o pequeno balcão que separa minha sala da cozinha americana, e posso atestar um outro benefício, talvez mais concreto.

Antigamente, ao final de um de meus dias normais de trabalho, sentado em uma cadeira acolchoada diante de um computador, eu me sentia com a cabeça exausta e estafada, mas com o corpo relaxado e descansado.

O quão louco é isso? Como podemos dormir e viver se nosso corpo não sabe se deveria estar cansado ou não?

Para mim, o principal benefício de escrever de pé é sentir o dia passando lentamente em meu corpo, em minha panturrilha, nas solas dos meus pés, nos glúteos.

Assim, quando chega o pôr-do-sol, é razoavelmente fácil parar de trabalhar: estou exausto, completamente, no corpo e na consciência.

Aliás, já nem preciso do sol ou do relógio para me guiar: depois de alguns anos, meu corpo já sabe instintivamente quando está na hora de parar, fechar a lojinha, tomar um vinho, relaxar.

* * *

Um aviso: não quero te convencer de nada

Não acho que todas as pessoas deveriam acordar cedo. Não acho que acordar cedo é bom e, logo, que acordar tarde é ruim. Não acho que acordar tarde é coisa de vagabundo, inútil, etc.

Se você gosta de virar a noite e acordar depois do meio-dia, eu te respeito e não quero te convencer a mudar de hábitos.

Eu gosto de acordar cedo e, por isso, acordo cedo. O texto foi escrito para ajudar outras pessoas que querem acordar cedo mas não estão conseguindo.

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publicado em 21 de Janeiro de 2016, 22:30
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Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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