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Como aprendi um novo idioma depois de adulto: 16 dicas explicadas

Demorei três anos para sair da estaca zero no inglês até o nível de conversar com nativos sem ser reconhecida como estrangeira

Quando foi a última vez que você se desafiou a fazer algo foda?

Sabe aquela pessoa que canta Oasis na rodinha de violão, assiste filme sem legenda e encontra qualquer informação que precisa nos sites gringos? Eu não fui essa pessoa por quase três décadas da minha vida. Mas foi necessário muito menos tempo do que eu imaginava para me torná-la. 2018 tá aí na porta e, se o seu monolinguismo tá te incomodando, que tal você se desafiar a aprender uma língua?

Link Youtube - você finalmente vai fazer parte da rodinha!

Existe a crença de que apenas quando se começa na infância ou na adolescência é que podemos ser fluentes num idioma. No livro Becoming Fluent: How Cognitive Science Can Help Adults Learn a Foreign Language, Richard Roberts e Roger Kreuz mostram como essa ideia é furada. Os autores falam de estudos que apontam que, de fato, quanto mais jovem você começa a falar uma língua, maiores as chances de você ter uma boa pronúncia. Mas a fluência de alguém que começou a aprender uma língua quando adulto em geral se aproxima muito ou pode até ser idêntica a de alguém que fala desde criança.

Na verdade, segundo Roberts e Kreuz, existem até vantagens em se aprender um idioma na idade adulta, como o fato de que você pode transferir os conhecimentos linguísticos que tem da sua língua materna para a segunda. Por exemplo, é impossível explicar para uma criança que na frase “Ellas son estudiantes” o verbo está no plural pois concorda com o sujeito, simplesmente porque uma criança talvez não entenda o que é um verbo, muito menos um sujeito e possivelmente nem mesmo o conceito de plural. Essa é só uma das vantagens, tem mais.

Já vou avisando que, em um ano, não vai rolar de ser o poliglota bonitão que você acabou de se imaginar aí, mas já dá pra se virar sozinho nas viagens, entender umas músicas só de ouvido e até ver uns filminhos sem legenda. E o mais importante: depois de ver os resultados de um ano, você não vai querer parar. E aí sim essa estrada sem volta vai te levar ao efeito Jason Bourne: um dia você atende um telefonema e... olha só, minha gente, nem lembrava, mas eu falo outra língua! Como isso foi acontecer?!

What?

Existem várias questões relacionadas a falar um outro idioma que podem afetar muito a autoestima de uma pessoa. No meu caso, ficava bem sem graça por já estar com vinte e tantos anos e não falar um inglês minimamente decente. E essa frustração foi virando um medo de começar, já que eu achava que isso era algo que deveria ter acontecido muito antes na minha vida. Na minha cabeça, aprender uma língua enquanto trabalhava e cuidava das coisas práticas da vida adulta seria impossível. Mas um dia eu precisei aprender por questão de sobrevivência. E adivinha? Dei conta.

O processo foi foda, doloroso mesmo. O primeiro ano é puro esforço e pouca recompensa. No segundo, eu comecei a ver mais os resultados do meu esforço. Do terceiro em diante, comecei a colher os frutos mais significativos dessa jornada. E olha, vou te dizer, dá um orgulho danado pensar que eu não desisti.

O que muita gente ignora é que aprender uma língua não é só uma questão de acumular conhecimentos. Existem fatores emocionais e psicológicos, além de estratégias para otimizar o processo que eu gostaria que alguém tivesse me contado quando eu estava começando. E é disso que a gente vai falar aqui.

1. Comece pelo básico

Uma das dificuldades para se aprender uma língua depois de adulto é que já sabemos demais. Já experimentamos muito da vida, dos sentimentos e das sensações e conhecemos todo o potencial que a nossa língua materna tem para expressar tudo isso. O problema é que criamos a expectativa de ter todo esse poder de expressão no novo idioma, e o pior: imediatamente.

Eu sei, quando você se imagina falando uma língua, você está tendo conversas profundas sobre a humanidade, sendo o centro da rodinha e fazendo todo mundo rir e te lançar olhares de aprovação, né? Mas não será assim por muito tempo. Então não atropele seu processo de aprendizado, você não será o fodão dos phrasal verbs se ainda não aprendeu o to be. O primeiro ano de aprendizado de uma língua não é divertido. É sofrimento, muito esforço e pouca recompensa. E isso nos leva à próxima dica.

2. Tenha paciência e seja persistente

Be strong!

Uma das maiores dificuldades de se manter motivado para aprender um idioma é que esse é um investimento de longo prazo. Nesse caso, use a filosofia do “só mais um dia”. Só por hoje, tire um tempinho pra estudar, mesmo sabendo que isso não vai fazer uma grande diferença imediata.

Também ajuda bastante criar uma forma de medir sua evolução de alguma forma. Você pode, por exemplo, filmar uma aula ou conversa sua naquela língua. Depois de 3 meses, assista o vídeo, grave outro e assim sucessivamente. Ver que você está evoluindo vai te dar a motivação que você vai precisar quando estiver cheio de ideias na cabeça e não conseguir colocar nenhuma pra fora ao abrir a boca. Isso vai acontecer muitas vezes, mesmo depois de muito estudo. Mas não pare.

3. Aceite seus erros

Se você é perfeccionista, ou você aprende de vez a aceitar sua imperfeição e entende que ela não te impede de realizar coisas ou você enlouquece. Mas por favor, tente ficar com a primeira opção, ela será bem mais útil. Entender que eu não precisava fazer frases gramaticalmente perfeitas ou pronunciar tudo maravilhosamente bem para dar o meu recado foi das coisas mais libertadoras na minha jornada linguística.

Caso tenha a oportunidade de conversar na sua nova língua, não tenha medo de falar. Às vezes ficamos com medo do que vão pensar da gente ali falando como uma criança de três anos. Em primeiro lugar, não se esqueça de que falar uma língua estrangeira mal é melhor do que não falar língua estrangeira nenhuma. Você já está em vantagem só de conhecer um pouco daquele idioma. Mas se insegurança bater, lembre-se de que provavelmente a pessoa com quem você está conversando não é tão importante assim pra você ou você é que não é tão importante assim.

Ela vai seguir com a própria vida sem nem lembrar dos seus erros. Além disso, se a ideia é impressionar alguém, não é calado que você faz isso. Cara de pau impressiona também. Eu mesma costumo ser extremamente crítica com meu inglês, mas todas as vezes que falei com nativos, escutei deles que eu tinha uma fluência impressionante, mesmo sabendo que cometia uns errinhos aqui e ali.

4. Ligue o foda-se para seu sabotador interno

No início do processo de aprendizado de uma língua, você precisa dar a cara a tapa e falar, o que te coloca na posição desconfortável de parecer bobo, desajeitado, involuntariamente engraçado. E essa sensação vai fazer você se sabotar. Você vai pensar em incontáveis razões pra não ir à aula ou pra adiar aquela conversa pelo Skype. Não sucumba. Ao terminar cada uma das conversas com nativos que o meu sabotador interno me dava mil desculpas para não ter, eu me sentia foda, eu me dava um tapinha nas costas e dizia: You did it!

You did it!

5. Conhece-te a ti mesmo

Descubra como você aprende. Eu, por exemplo, preciso ler, não sou dessas que pega só de ouvir. Quando não entendo algo, preciso descobrir a lógica por trás daquilo ou sistematizar aquele conhecimento de alguma forma. Por exemplo, minha pedra no sapato era o present perfect. Depois que eu estudei as regras e vi muitos exemplos para cada uma delas, eu finalmente entendi. Claro que não penso nas regras enquanto estou numa conversa, mas compreendê-las me permitiu internalizá-las e usar o present perfect sem maiores dificuldades. Esse autoconhecimento só vem ao longo do processo de aprendizado, depois de muita tentativa e erro. Então, claro, não espere por ele para começar.

6. Disciplina e proatividade são ouro

Não pense que fazer aulas vai te fazer falar. Estude por conta própria, seja curioso. E estudar não é necessariamente abrir a gramática. Dependendo do seu nível, leia, assista séries, escute podcasts, mas não pense nessas atividades como o fim em si mesmo. O objetivo ali é aprender. Se você quiser ler por prazer e for ler um livro em inglês, tendo que parar a cada minuto pra traduzir as palavras, você nunca mais vai querer fazer aquilo. Uma dica é: assista filmes baseados em livros e, em seguida, leia o livro na sua nova língua. Entendendo o contexto, vai ser mais fácil inferir o significado das palavras e a leitura flui melhor.

Mas lembre-se: você não está ali pra se divertir, está aprendendo. E aprender pode até ser prazeroso em alguns momentos, mas às vezes dói. Seja forte e disciplinado. No livro Como Aprendemos: a surpreendente verdade sobre quando, como e por que o aprendizado acontece, Benedict Carey fala de como o estudo espaçado é importante. Não aprendemos estudando muito de uma vez. Estudar meia hora por dia todos os dias é infinitamente melhor que estudar três uma vez por semana. Fazer um cronograma ajuda, é bom ter aquela folha de papel em que você marca um “check” pra cada dia que você estudou meia horinha. Ter essa disciplina é difícil pra você? Então siga a próxima dica.

Yes, sir!

7. Meta-se em encrenca

Faça uma coisa que vai te obrigar a aprender a língua. No começo do meu aprendizado de inglês, eu marquei uma viagem sozinha para os EUA (que aliás você pode conferir aqui). Não teria ninguém pra me ajudar, teria que me virar pra não perder voos, ônibus ou trens – meu maior medo. Não pensei demais, achei uma passagem com preço bom, fechei os olhos e comprei. Tive 5 meses pra dar um jeito de juntar a grana pra usar lá e aprender a me comunicar minimamente. Eu literalmente fiz um quadro com todos os dias até a data da viagem e pintava com marca texto os quadradinhos correspondentes a cada dia estudado pra ficar uma coisa bem visual mesmo.

Funcionou, não perdi nenhum embarque, fiz amigos, pedi informações e, o que é mais importante, entendi o que me falavam. Claro, com muitos tropeços, muitas situações embaraçosas, muita vontade de enfiar minha cabeça num buraco de tanta vergonha às vezes. Se marcar a viagem tá impossível pra você agora, matricule-se num curso desses que você paga adiantado ou compre um pacote de aulas com um professor. Agora, se a grana tá curta e qualquer coisa que envolva dinheiro não vai rolar, anuncie para seus amigos que você tem uma meta de falar aquela língua em determinado tempo. Mas se dê um prazo factível pra não passar vergonha – para sair do zero e ser capaz de ter conversas simples, um ano é um tempo razoável. O importante é: deixe o mundo saber dos seus planos, documente sua jornada nas redes sociais. Essa pressãozinha de ter pessoas sabendo do seu projeto é boa pra não te deixar desistir.

8. Faça o máximo de coisas na língua que você está aprendendo

Configure o celular, o browser da internet, o email e as redes sociais para aquele idioma. Procure notícias, receitas ou qualquer coisa aleatória na nova língua. Tente vivenciar aquela cultura ao máximo.

Speak english, motherfucker!

9. Crie um personagem pra você naquela língua

Essa não é obrigatória, mas ajuda a entrar no clima. Quando começar a falar seu novo idioma, aos poucos, você vai perceber que terá outros trejeitos e até um tom de voz diferente. A verdade é que até o seu raciocínio é um pouco diferente quando está falando aquela língua. Existem estudos sobre isso. O filme A chegada, de Denis Villeneuve aborda essa ideia de como você literalmente começa a enxergar a realidade de uma maneira diferente quando aprende uma nova língua. E isso é uma oportunidade única para você construir conscientemente um novo “eu” para você.

Tem uma pessoa falante daquele idioma que você acha massa? Gosta do jeito dele falar, da voz, do ritmo e entonação? Imita! Se na língua materna nós já pegamos o jeitão das pessoas que admiramos, na segunda língua tá liberado fazer isso sem vergonha. Eu tenho um tipo de humor em inglês bem diferente e faço observações que jamais faria em português. Eu fui construindo mais ou menos intencionalmente essa minha persona falante de inglês, que não é exatamente a que escreveu esse texto. E isso é divertido.

Agora, algumas dicas bem práticas para o dia a dia aprendendo uma língua

10. Repita, repita, repita

Não pense que só porque você estudou aquele conteúdo e entendeu naquele momento, você não vai se esquecer. Vocabulário, estruturas frasais, pronúncia não são coisas que você entendeu, marca check e segue com sua vida. Faça revisão de palavras, expressões e pronúncias aprendidas. Quando aprendemos algo novo numa língua, temos a convicção de que aquele conhecimento vai ficar ali. Confie em mim: não vai. Você esquece metade do que aprende se não rever aquilo periodicamente. Use flashcards, mas crie as suas próprias! O aplicativo AnkiApp é ótimo pra isso. Faça um inventário do que você vai aprendendo e revise sempre. Ande com um bloquinho de notas e/ou use o celular o tempo todo para anotar coisas legais que você vê e escuta por aí.

Again, again, I love repetititons!

11. Leia em voz alta

Isso ajuda muito na pronúncia e a acostumar a musculatura da sua face a articular aquelas palavras. Você já deve ter sentido que é fisicamente impossível pronunciar certos sons, isso acontece porque você não treinou seus músculos faciais para esse trabalho. Falar uma segunda língua é um trabalho físico também.

12. Copie os nativos

Você não precisa ter uma pronúncia perfeita, mas se quiser, você consegue ter uma muito boa. Para isso, tente: assistir vídeos repetindo as falas, prestar atenção à entonação e ao ritmo com o qual os nativos daquela língua falam, entender as regras fonéticas de conexão de palavras daquela língua. Essa última soa complicada, mas é algo que fazemos naturalmente no idioma materno e, com o tempo, na segunda língua. Por exemplo, você pronuncia a frase “Aprender inglês é fácil” como “Aprenderinglêzéfácil” e não como “Aprenderringlêsséfácil”. O mesmo fenômeno acontece em outras línguas. É por isso que let it go soa pra nós brasileiros como “lérigou”.

Let it go, let it go!

13. Assuma algumas limitações

Por falar nisso, let "as palavras que você não consegue pronunciar" go. Eu por exemplo apenas aceitei que nunca pronunciarei quarter ou order perfeitamente, faço apenas o suficiente para ser entendida.

14. Traduza em tempo real

Assista filmes e séries com o google translator aberto e vá checando as expressões desconhecidas que você ouve.

I have no idea what it means

15. Converse

Não preciso explicar né. Mas isso é mais sério do que você imagina. Tem muita gente que consegue ler, escrever e até entender bem uma língua, mas, na hora de falar, as palavras parecem simplesmente não vir. Em sites como o Italki  você pode encontrar pessoas que estão aprendendo português e estão dispostas a te ajudar com a sua nova língua. Tudo de graça, você só precisa ajudá-las também. Lá você também pode encontrar professores com aulas a vários preços, algumas bem em conta.

Outra forma de praticar é indo a encontros de falantes daquela língua. Geralmente, isso funciona melhor com o inglês, já que existem muito mais pessoas aprendendo. Aqui em BH, eu encontrava uma galera uma vez por semana só pra conversar em inglês. O grupo se formou no Meetup e tinha gente de vários níveis.

16. Se der, apenas se der, faça uma imersão

Como eu disse, você pode conversar por skype ou achar uma turma de falantes pra chamar de sua. Logo, foi-se o tempo em que era necessário fazer um intercâmbio para praticar uma língua. Mas que ajuda, ajuda.

Quando comecei a aprender inglês, timidazinha e com medo de abrir a boca pra falar, jamais imaginei que chegaria, em cerca de três anos, ao ponto em que falantes nativos conversariam comigo por alguns minutos sem perceber que eu não era dali. Falar inglês não me ajudou apenas nos meus mochilões mundo afora, foi uma injeção fodástica de autoestima na minha vida e tem sido um lembrete de que vale a pena me desafiar e começar projetos de longo prazo em qualquer idade. Eu me tornei mais resiliente diante das pequenas derrotas e aprendi que eu só preciso levantar e continuar. Meu desafio agora é o espanhol. Por isso, eu estou aproveitando para colocar em prática a dica #7. Em um ano, me diga como você está na sua jornada bilíngue e me cobre estar assistindo o Almodóvar sem legenda.

Para estudantes de inglês, alguns sites e canais do Youtube que recomendo:

Be happy!


publicado em 19 de Dezembro de 2017, 00:05
Monica

Mônica Buccini

Troca qualquer balada por uma maratona de filmes e ama andar no mato, aprender novos idiomas, música country, viajar, psicologia e antropologia.


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