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Como conhecer locais em um novo país (ou meu guia privado de Lviv)

"Eu viajo pra sujar a minha alma da cultura que não é minha. Eu viajo pra limpar meu preconceito."

Nota do editor: Sim, este é um artigo sobre uma viagem em meio à pandemia de COVID-19. Em princípio, pode parecer que é uma publicação despropositada, mas editorialmente, acreditamos que é importante alternarmos entre textos sobre a situação, mas também outros mais leves, oferecendo respiro. Mas, mais do que o respiro em si, é essencial que não percamos a capacidade de sonhar. Esse artigo é um lembrete sobre como o mundo pode ser também um lugar fantástico.

* * *

Não foram 7 dias seguidos, mas aconteceram entre um mês e meio de Ucrânia.

Eu estava me sentindo solitário em Lviv. O mais solitário que já senti, mais solitário que o saudável.

Eu, depressivo, entre a escolha de sair da cama pra tentar falar com alguém e cair em sono profundo, estaria mais propenso a ficar ali mesmo, no cômodo.

Mas eu não queria piorar, eu já tinha melhorado o suficiente para saber que não valia a pena voltar.

Decidi separar meu diário e uma caneta para entender como  resolveria isso.

Foi daí que surgiram as 7 formas de conseguir dicas locais dos locais – e a companhia deles.

E aqui seguem as formas e as experiências.

1. O elogio de um desconhecido

Eu tava em um café, que curiosamente se chamava Druzi, que significa amigos em ucraniano. Eu ia lá para trabalhar, gostava do ambiente, tinha flat white e limonada com gengibre. E tinha, também, um cara lá que era garçom e dono da playlist. E pela playlist já entendi: esse cara pode ser interessante.

Quando ele veio entregar o meu café vi que ele tinha uma tattoo nova – e eu também tinha feito a minha lá – e joguei a conversa (com um gelo na garganta) de como era massa a tatuagem dele. Nessa conversa – entendendo que a gente gostava da mesma coisa – já perguntei pra ele:

“Onde você costuma ir a noite?”

Se você se impressionou com a pergunta rápida, entenda que viver viajando é composto por 60% de passar vergonha, 39% de trabalhar e ficar em casa e 1% são as fotos boas para o Instagram. 

Voltando, ele me respondeu:

"Lviv não tem vida noturna. Mas tem umas festas que são organizadas por um grego muito louco e que todos meus amigos amam. Pesquisa sobre FESTRepublic. Você vai adorar."

Fui e curti muito. Foi uma sessão de músicas de RnB num pôr do sol.

Sim, essa cena é mais romântica na sua cabeça que lá na Ucrânia.

Se você for pra Lviv, segue a página deles aqui. Fui em mais de um evento e todos eu curti muito. Não posso dizer o mesmo das outras experiências recomendadas pelo TripAdvisor ou Foursquare.

Eu repeti a tática do elogio de um desconhecido algumas vezes e sempre funciona. Geralmente em bares, cafés e lugares onde as pessoas estão trabalhando sempre consigo uma conexão rápida. Parece que temos uma coisa em comum entre as culturas: todo mundo gosta de matar trabalho. 

2. O shot mágico

Eu tinha recebido uma notícia péssima naquela noite. Precisei sair de casa com a missão de encontrar uma breja pra relaxar.

Não tava com muita expectativa pra noite, só que tava me sentindo bem mal.

Chegando no bar P’yalnia (um boteco barato) comecei a beber sozinho. Vi um cara pedindo 2 shots e me ofereci pra tomar junto e pagar os 3. Eu não sei porque eu fiz isso. Só segui meus instintos e deixei fluir.

Passei o cartão e ele vira para trás e apresenta a esposa dele, recém casados – ele 23 e ela 21 – eles queriam curtir a vida e me pegaram para criar depois de tomar os shots. Fomos para um karaokê, por pedido meu e com a indicação dele. Ele me disse que era bombeiro. E mostrou as fotos dela vestida de bombeira. Ele abriu o rolo da câmera no Iphone na minha frente – você entende o nível de intimidade? – e sem medo, rolou para mostrar todas as fotos enquanto andávamos até o Karaokê Art Hall.

Não era o melhor kararokê, mas era carregado de músicas da infância ucraniana – que eram na maioria em russo – e tinha eu cantando Mad World, Wellow e Something sozinho. Esse lugar não é tão escondido, mas ainda não recomendado por guias online.

Vale a pena ir se a tua pira é ver locais bebendo e cantando músicas em russo e ucrâniano. Se quiser treinar e ouvir todo mundo cantando contigo, vai nessa música: Soldad – 5’izza.

Eles me convidaram para dormir na casa deles. Eu fui. Isso ficava em uma região bem afastada do centro. Conheci uma vizinhança nova, um apartamento de 35m² e o orgulho de um casal ucraniano de ter a casa própria e estar casado.

Comi borsht (uma sopa de carne) de café da manhã – prato típico – com pão e me arrumei pra ir pra casa. Ele me perguntou se eles poderiam ser minha família na Ucrânia. Respondi sim, sem pensar. 

3. Um café com a guia

Entrei em um site chamado ShowAround. Eu queria tentar entender se dava pra tirar alguma coisa desses guias locais. Nunca usei serviço de guia – fora em passeios turísticos onde é obrigatório – e fui mandando mensagens, falando que eu queria descobrir algo novo em Lviv e que já tinha visto as atrações principais.

Uma, entre os guias, me respondeu rápido e perguntou se estava livre no mesmo dia. Eu estava. Ela perguntou o que eu queria conhecer, e eu falei: o lugar que você mais gosta na cidade.

A gente foi para um café (melhor lugar pra café da manhã que conheci) e começamos a conversar. Eu contei para ela o que estava procurando mais ou menos dessa forma:

"Quando eu fui para Brasov, na Romênia eu visitei o castelo do Drácula. E foi a pior experiência turística que já tive. Fiquei dois meses em Roma e me contentei em ver o Coliseu de fora. O que me importa nas cidades são as pessoas e como elas experienciam a cidade."

Ela me respondeu: “Ok, já sei onde levar a gente”.

Ela me levou para o que eu considero o melhor bar de Lviv. Experimentei vários, mas esse superou todos: 12 Steps Bar.

Esse bar ficava num subsolo, não tinha sinal de celular e ela começou a compartilhar a vida dela. Explicou como ela ficou com depressão, como ela superou isso e o porque ela está estudando psicologia. A gente deve ter ficado umas 4 horas conversando lá, até o bar fechar. E eu perguntei: quando devo pelo tour? E ela disse: nada, isso não foi um tour e sorriu.

A continuação daria um outro texto. 

4. Um trilheiro experiente e um iniciante

Eu sabia que Lviv ficava perto de uns lugares massa. Mas ir pro mato sozinho é meio perigoso e eu não conhecia ninguém. Pesquisei por lojas para alugar equipamentos de trilha (roupa, cabana e essas coisas) e lá perguntei se eles conheciam algum clube de trilha ou algo assim. O cara que estava atendendo ao lado me disse: eu vou pra Borzhava, quer ir com comigo? Eu disse: claro! Até porque era mais fácil eu morrer sozinho do que acompanhado.

Um trem, 6 horas andando rápido em uma trilha hiper complexa e um pôr do sol 1681 metros longe do nível do mar.

Eu estava morto. De verdade. Fazia tempo que não sentia os músculos como senti. O vento no caminho fazia eu esquecer o esforço excedente que estava fazendo. Eu aprendi a como cagar no mato. Descobri que existe até livro com boas práticas (em resumo você precisa cavar e enterrar). Conto com sua pró-atividade para pesquisar sobre esse livro no Google. 

Nada mais potente que ter um guia que não te guia. Te puxa e deixa tu se virar. Foi essa a minha experiência com um trilheiro experiente que tava lá pelo silêncio e não pela minha companhia. Eu também estava para o silêncio e pela desconexão, mas não custava nada trocar uma ideia.

5. Um folk meu por um folk ucraniano

Fiz minhas duas primeiras músicas em inglês em Lviv. Eu tinha uma velha, já feita. Mas não considero ela minha, porque muita gente colocou a mão. Um dia saí pra ir para um bar (nessa altura do texto você já entendeu que sem bar não teria história), sentei do lado de uma mina.

Ela puxou assunto comigo, porque eu estava escrevendo em um bloco de notas. Estava arrumando a segunda música que fiz. Ela ficou interessada, porque ela leu o que eu estava escrevendo.

Eu perguntei se ela queria ouvir - gravei uma demo no dia anterior - e eu mostrei exatamente esta gravação.

Link Soundcloud

Não quero focar nas reações dela, mas posso dizer que fiquei bem feliz em saber. O ponto é que ela me perguntou se eu era do tipo que gostava de folk, o que fica óbvio pela música.

Foi aí que ela me apresentou a banda Dakhabrakha, que tive a sorte de ver um concerto na mesma semana.

O show foi em um cinema e eles usaram as músicas deles para criar a trilha sonora do filme soviético, A Terra, do diretor ucraniano Aleksandr Dovjenko.

De longe, foi a melhor experiência que poderia ter vivido em Lviv. A banda canta em um dialeto que originou o idioma ucraniano, o ritmo é uma mistura de vários grupos étnicos, ouça e sinta.

Recomendação: Põe o fone, dê play no vídeo 1, coloque no mudo, e depois dá play no vídeo 2, aumenta o volume e põe o vídeo 1 em tela cheia.

Link Youtube

Link Youtube

Depois que conheci o Dakhabrakha, foi fácil encontrar as Dakh Daughters, uma banda só de mulheres da Ucrânia que me arrepia.

Não consegui ir no show delas, mas se você conseguir não duvido que vai valer a pena.

Eu adoro um clipe delas que foi gravado bem na época do Euromaidan, um momento bem importante na história recente ucraniana. Se quiser saber mais sobre tem esse documentário no Netflix, chamado Winter On Fire: Ukraine's Fight for Freedom.

6. Jam session na praça principal

Se você for pra Lviv a coisa que mais vai ver no centro histórico são músicos tocando. Tem músico de todo tipo. Um dia resolvi conversar com um deles e perguntar se poderia tocar uma música brasileira.

Eles foram bem resistentes, mas como peguei eles antes do show começar, me deixaram aquecer a apresentação deles tocando uma canção.

O interessante é que eu escolhi uma música que eles sabiam tocar – por causa do Beirut – Leãozinho, do Caetano. Nós tocamos juntos. Não ficou muito bom, mas foi divertido o suficiente para ganharmos 200 grivnas, algo como 35 reais. Usamos esse dinheiro para comprar cerveja e vodka e depois andar por aí (é o que eles geralmente fazem com o dinheiro).

7. Sempre desviar a rota e entrar em qualquer lugar que interessar

Não tem conselho melhor que aprender a caminhar sem rumo em cidades novas. Nunca fazer a mesma rota. Tentar explorar o mapa com os próprios pés e se jogar em qualquer lugar que te chame atenção.

Não me importa quantos anos a cidade tem, me interessa quantos anos as senhoras sentadas no banco da praça tem e sobre o que elas conversam tanto.

Me interessa como aqueles três meninos juntaram dinheiro para comprar uma Coca e um pacote de salgadinho.

Me interessa o papo dos camaradas da venda de uma estação de trem abandonada.

Hoje eu peço um café e pergunto onde a pessoa que me serviu vai pra se divertir.

Hoje eu converso com o cara que me vendeu o cabo para carregar meu celular pra saber onde ele come e o que ele faz de café da manhã.

Isso não faz minha experiência ser melhor, mas faz dela singular e me dá o que procuro na viagem: me sujar da cultura do outro de um jeito que nunca mais me sinta limpo com os meus próprios conceitos e verdades.

Eu viajo pra sujar a minha alma da cultura que não é minha.

Eu viajo pra limpar meu preconceito.

8. Bônus: lugares que gostei e não estão aqui acima

Pra escutar jazz, vai no Libraria;

Para breja boa com preço justo, cola no Pravda;

Hambúrguer é no EpicBurguer;

Vareniki – prato típico – é no Marusia;

Pra um prato típico de Kiev, vale a pena ir no 36Po e pedir um Kiev Chicken;

Meu café preferido é do BlackHoney.

* * *

E vocês, quais estratégias usam para aproveitar melhor as viagens que fazem? Vamos conversar aqui nos comentários?


publicado em 08 de Maio de 2020, 17:17
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Lucas Morello

Viajante sem casa e hábitos fixos. Escreve sobre viagem, saúde mental e trabalho remoto no blog pessoal e ensina Marketing Autêntico para quem quer botar na rua seus projetos independentes. Frequentador de casa de estranhos, especialista em mímica para estrangeiros e colecionador de situações embaraçosas.


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