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Como fazer a bosta sumir

Acabei de ver o relógio, são oito horas da manhã. Entre outras tantas bobagens que li de pernas cruzadas, fiquei sabendo que o oito é um número que representa o equilíbrio. Quem imaginou este mito provavelmente não tinha um copo de uísque como o meu aqui ao lado. A palavra representação sempre me soou um eufemismo, uma adoção madura e consensual da mentira. Talvez seja o equilíbrio dos ingleses e seus chás adocicados.

Há algum tempo, eu já me surpreendia com uma insensibilidade que me arrebatava durante momentos visivelmente emocionantes para todos os que me cercavam, e no entanto, eu não tinha nada a oferecer. Nenhum gracejo, nem uma piada. O copo estava vazio. Este quadro evoluiu para espasmos reais de amortecimento em todo o corpo, e a cada tragada sentia como se o enroladinho carcinógeno é que me sugasse.

O sonho dourado de todo dono de cachorro.
O sonho dourado de todo dono de cachorro.

Enquanto pensava que nem mesmo dionisíaco eu tinha condições de ser, senti um forte cheiro de queimado invadir todo o ambiente que me separava do resto das pessoas, dos ônibus, do futebol, dos vendedores de bala, dos frentistas, das colunas sociais e dos ratos. Era simples: tudo que eu tinha de fazer era me levantar e tirar os nuggets com recheio de queijo do forno, que a essa altura já eram torrões ameaçadores de carvão.

Quando pus os pés no assoalho, Capitão ainda dormia com sua pança gostosa pra cima, ao lado do abajur verde que ganhei daquela morena que um dia manchou minha barba com nacos de membrana uterina. Hoje, ele parece bem pouco com aquele filhote que ganhei do Devon, um antigo amigo que parecia sempre estar com uma ninhada nova. “Eles realmente sabem usar a língua, cara”, dizia ele enquanto punha as criaturinhas pra lamber seu pau.

O pulguento ainda tinha um certo ritmo ao trotar pelas calçadas forradas de chicletes fossilizados no concreto. Sempre prestativo para colocar a coleira, mas ranzinza e intolerante pra limpar as patolas ao final do passeio sanitário, ele parecia querer me dizer algo. “Deixa essa porra aí caralho, pra quê me torrar o saco com esse pano gelado de merda se vou sujar tudo de novo nesse chiqueiro que a gente vive?”, essa era a pergunta permanente nas sobrancelhas de Capitão.

Humano era o que me sentia ao manter sempre a mesma sacola plástica amarrada à coleira do cachorro, para calar os ambientalistas do bairro, que a qualquer hora do dia estavam dispostos a observar os movimentos intestinais do meu velho cão-de-nada. Ao verem a sacola, pareciam instantaneamente satisfeitos com os carros, a poluição do ar e suas calças enfiadas no cu.

"Ah, faço questão de só ir pro trabalho, andando, descalço, pisando na grama..." "Mas você não mora em São Paulo?" "A gente dá um jeito..."
"Ah, faço questão de só ir pro trabalho, andando, descalço, pisando na grama..." "Mas você não mora em São Paulo?" "A gente dá um jeito..."

Enquanto Capitão finalmente conseguia achar uma posição confortável pra concluir sua cagada matinal em frente ao ponto de taxi, um taxista pardo e parrudo calculou o período de dispersão do gás metano no oxigênio e sentiu o suor frio em suas costas de verão.

– Ei! O cachorro não pode cagar aí não, porra! Depois a gente tem que ficar cheirando essa bosta o dia todo.

– Ele só está se esforçando - expliquei - Ainda tenho mais duas quadras de ameaça antes de terminar o serviço.

Apesar da escura e tenra evidência fecal no gramado, por algum motivo o taxista ainda parecia confuso sobre o que via. “Tá nada, olha aí! Cê vai deixar cagado?”, gritou titubeante com o indicador apontando para o gramado de daninhas. Eu estava quase desistindo da argumentação, quando percebi que o dedo do cara indicava um ponto claramente longe da bosta fresca.

Estava blefando, era um amador!

Diante disso, resolvi arriscar minha paciência, e minhas palavras foram de fato poucas enquanto acenava para o chão e olhava dentro dos olhos do inocente motorista de aluguel: “Não há nada aí, senhor”.

"Aproveita e traz as balas biodegradáveis também."
"Aproveita e traz as balas biodegradáveis também."

Por algum motivo, o taxista simplesmente não conseguiu enxergar o tolete. Na verdade, aquela mancha marrom se anunciava naquele canteiro, projetando para o céu um pedaço de fio dental fluorescente sabor menta. Ele parou. Analisou. Fechou o olho esquerdo e recuou, abaixando-se quase de cócoras para inspecionar a área. Talvez pela grama, miopia ou pelas 12 horas de trabalho diárias, ele não viu.

Me apresentou sua mão direita espalmada. "Me perdoe, filho. É que tá cheio de viadinho que anda com a sacola na mão só pra fingir. Mesmo depois de lavar, ainda fica o cheiro do azeite de merda", disse ele mostrando os dentes.

Os cachorros de apartamento geralmente odeiam voltar pra casa após o tour intestinal. Já os cavalos são mais simpáticos, e em qualquer distração sua tentarão retornar à cocheira. Como não se importam consigo mesmos e levam chicotadas para desempenhar um trote animado, isso não é uma grande descoberta. Também estou aqui, esperando para voltar. Quem sabe em breve eu vou poder sentar delicadamente numa jacuzzi, acender o último Jose Piedra, enfiar um tubo no meu estômago e tomar uma balinha nano-mecânica que me impeça de acumular dados e associar coisas.

Somos os 99%.... que pisam em bosta de cachorro!
Somos os 99%.... que pisam em bosta de cachorro!

Da portaria para a gaiola, do porteiro ao saguão e finalmente no elevador. Botões. 9º andar. Parou. Velhos: eles adoram elevadores, cachorros, o clima e qualquer conversa fiada. Isso me lembra o que um conhecido fanfarrão me disse um dia, que "se eles fossem pedras, iriam falar. Se fossem esfinges, iriam falar".

– Bom dia, meu filho.

– Hm.

– Ai! Que mimo! Ele morde?

– Só quem ele acha mau caráter.

Fechou a porta. Decidiu esperar o próximo. Realmente eu já andava me esquecendo do prazer de fechar portas. Mesmo esta, do elevador.


publicado em 10 de Novembro de 2011, 07:42
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Danilo Barba

Repórter do Portal AreaH. Há 25 anos na mesma pergunta: o que está acontecendo? Lembra-se diariamente da morte para sair da cama. No Twitter, @criancasqueijo


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