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Como não piorar o mundo com as informações que você recebe

Uma forma de gerenciar o bombardeio das redes sociais antes de propagá-lo.

Certamente as redes sociais são uma ferramenta importantíssima para que a sociedade civil possa exercer pressão sobre o poder público, para o enriquecimento da democracia, para a luta contra injustiças, por direitos, para a divulgação e conexão de ideias, grupos e movimentos. As primaveras árabes, os movimentos Ocuppy, os mais recentes e diversos protestos no Brasil, são exemplo de como as redes possuem poder político e de mobilização – e isso pode ser empregado para a busca por um mundo mais justo, humano e agradável.

Mas, por outro lado, podem nos passar a sensação de que estamos em um lugar muito pior do que de fato é, gerando demasiado estresse e ansiedade.

Não estou dizendo que o mundo seja bom ou que as redes sociais não deveriam mostrar o lado negativo dele. Obviamente não vivemos em um lugar perfeitamente lindo e agradável. E mesmo que você não faça parte da população mais desfavorecida, tem problemas a reclamar. 

Entretanto, qual é a vantagem de ser bombardeado quase que 24h por dia por questões negativas, ou de bombardear as redes com elas? Há, claro, diversos casos em que a viralização de informações pode fazer uma enorme diferença, como por exemplo chamando atenção do poder público ou das mídias para injustiças – e não é sobre esse tipo de informação que falo aqui, até porque essa precisa ser divulgada.

Questiono a quantidade de notícias sobre crimes, injustiças, corrupção que não podem modificar em nada a ocorrência dessas coisas e que, além disso, “pintam” o mundo como um lugar muito pior do que ele é.

Pense, por exemplo, no que se passa com um leitor assíduo de jornais sensacionalistas que “pingam sangue”, explorando crimes violentos, roubos e assassinatos, ou um telespectador de programas policiais. Para uma pessoa dessa, o mundo é, de fato, muito pior do que ela pode ver na sua realidade cotidiana. Não importa onde essa pessoa viva, é humanamente e geograficamente impossível que ela esteja exposta a tanta violência, injustiça e crime quanto uma semana de programas policiais mostram.

As redes sociais se tornaram um grande jornal sensacionalista.

Desse modo, a lista a seguir pontua algumas sugestões de questões a serem feitas antes de se postar algo nas redes sociais, caso não se deseje piorar o estado geral do mundo através delas:

1. Qual é o real objetivo de sua postagem ou compartilhamento?

Digamos que seja uma reportagem sobre política e que você esteja revoltado com aquilo. Qual seu intuito compartilhando? Se mostrar indignado, mostrar que você não está alheio ao que está acontecendo?

Vejo que muitas pessoas que passam algumas horas vendo notícias na internet têm como hábito reproduzir aquilo que as deixa revoltadas. Mas isso não tem o poder de diminuir sua revolta. Na verdade, vai fazer com que você se lembre o tempo inteiro daquilo, quando alguém curtir ou comentar o texto. E outra: você não precisa compartilhar coisas o tempo inteiro para que as pessoas saibam o que você pensa, ou de que lado do espectro político você se posiciona – geralmente as que lhe conhecem já sabem como você pensa.

2. Será que você realmente precisa informar as pessoas sobre aquilo?

Olhe a sua linha do tempo. Quantas pessoas de seu círculo social já compartilharam aquilo? Muitas? Será que tem sentido você compartilhar algo que todo mundo está compartilhando? Será que outra postagem sobre o tema, de um ponto de vista diferente não pode ser melhor? Ou então algo que “acalme os ânimos”?

3. A informação é segura?

As pessoas andam muito alarmistas-apocalípticas, compartilhando informações muitas vezes não oficiais ou de sites sensacionalistas, como se fossem verdadeiras.

Isso só aumenta o nível de ansiedade e preocupação geral por algo que ainda nem ocorreu e que nem se sabe se, de fato, irá ocorrer.

Se sua informação não é segura, se não se sabe se aquilo vai ocorrer ou não, é só uma tentativa de previsão de um futuro apocalíptico.

4. Sua postagem tem poder de mudar algo?

Como disse, as redes sociais podem fazer milagres como destituir ditadores, exercer pressão sobre crimes não resolvidos (caso Amarildo, por exemplo), casos de violência contra mulheres e outros absurdos. Sua postagem ajuda nesse sentido? Ótimo. Caso contrário, responda a próxima pergunta.

5. Sua postagem piora ou melhora o mundo?

Ela tem o poder de modificar algo, ela traz uma mensagem positiva, ela faz com que as pessoas pensem diferente do que o padrão das coisas, ela pode convencer as pessoas a pensarem de um modo que você acredita ser correto, ela ajuda a interromper injustiças ou, por outro lado, ela não faz nada disso e ainda aumenta a ideia alarmista de que o mundo está prestes a explodir, sem que possa modificar o estado de coisas?

Caso ela não passe por alguma das primeiras perguntas, será que não seria melhor você guardar aquela informação para você mesmo?  

***

Com essa lista eu quero deixar algumas questões: será que não pioramos o mundo com tanta exposição massiva a discursos políticos, injustiças, corrupção e crimes? Será que muito da ansiedade moderna, da intolerância com a alteridade, da sensação de que o mundo está prestes a explodir não se deve a tal exagero de informações? Qual é a vantagem que nos traz saber que do outro lado do mundo ocorreu uma injustiça à qual eu não posso mudar? Poderia, talvez, compartilhar pra que outros saibam, mas quantas vezes isso pode influenciar para que tal injustiça deixe de ocorrer?

As redes sociais são um instrumento importante para que o mundo tome consciência das iniquidades a que estão expostas milhões de pessoas no mundo todo, mas essa exposição massiva a tais informações nos tira a sanidade, passa a impressão de que o mundo é só isso e de que as coisas estão muito pior do que realmente estão.


publicado em 10 de Novembro de 2016, 18:21
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Enrique Marcatto Martin

Professor e mestre em filosofia. Casado com a Paulinha. Atleticano.


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