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Como pegar carona com caminhoneiros

Já perdi a conta de quantas caronas já peguei.

Bicicleta, moto, táxi, moto-táxi, carro, ônibus e, minha especialidade, os caminhoneiros. Adoro os carros, chegam mais rápidos. Mesmo assim, prefiro ir com os gigantes da estrada. Eles têm qualidades que desejo para todo ser humano: são autênticos, generosos, levam a vida com simplicidade e valorizam cada segundo.

Rodoviabrasil

Minha estimativa com caminhoneiros é 10% de rejeição. Tenho a vaga memória de algum deles me dizer não (mas era uma carona para um lugar onde ele não iria), além de uns dois que disseram que o patrão não deixava. Achei justo, mas a maioria é subversiva. Teve um cara que disse sim, mas saiu em seguida e não o vi mais. Devia ter dificuldade em mentir.

Deixo essa porcentagem aí, afinal, não lembrar nenhum "não" categórico é animador. Isso diz um pouco sobre meus preferidos na estrada. Eles são cavalheiros e raramente dizem não.

Confesso que, no começo (quando comecei a viajar), eu era aventureira. Coisa de adolescente que leu Jack Kerouac e foi para estrada. Se precisar, faço novamente e sem pestanejar, mas, quando decidi levar o transporte a sério, criei estratégias. Eu não queria criar raízes em nenhum posto de gasolina e nem tomar chuva na estrada.

Passei a escolher minhas caronas e não ser escolhida (assim como faço na vida).

Descobrindo um mundo novo

Lembro da primeira vez que peguei carona. Eu era criança e o carro do meu pai estragou. Estávamos em uma fazenda quando passou um carro com conhecidos dele (na verdade, sempre achei que ele não os conhecia). Esse pessoal deu carona para mim e pro meu irmão mais novo. Eu devia ter uns 7 anos nessa época. Achei o máximo a sensação de conseguir chegar no mesmo lugar sem seguir o plano original, com a possibilidade de conhecer pessoas novas no caminho.

Era tudo diferente naquele carro: o cheiro, o jeito das pessoas, os assuntos. Estava fora da minha "área". Fui simpática e observei.

Havia descoberto um mundo novo.

A carona foi se repetindo na minha vida, mais por necessidade do que por aventura. Foi assim algumas vezes no Brasil. Até que, em 2010 (e por vários fatores), fiquei uma semana no litoral da Colômbia sem dinheiro. Tinha na mão exatos 10 mil pesos colombianos -- o que equivalia, na época, a 10 reais -- e um cartão de crédito que só passava em lugares que não conseguia pagar.

Meu sonho, naquela época, era conhecer o Caribe e, como tinha comprado a passagem dois meses antes, não tinha a menor ideia que estaria sem dinheiro, não queria me endividar, nem perder as passagens. Ligar pra família, nem pensar.

Naqueles dias, a minha única opção, junto com couchsurfing e camping na praia, era pegar carona. Deu tudo certo e consegui várias caronas e novos amigos. Realizei o sonho de conhecer Cartagena das Índias, Barranquilla e Santa Marta. Voltei da Colômbia realizada, com outra impressão do país e das pessoas.

O dinheiro não fez falta, mas fez diferença, já que eu conheci a região de forma inusitada.

Caminhoneta dentro da cidade murada de Cartagena das Índias, Colômbia
Caminhoneta dentro da cidade murada de Cartagena das Índias, Colômbia

Os caminhoneiros, a estrada e a vida

Após essa viagem, fui ficando instigada a pegar carona no Brasil. Queria conhecer e entender a vida dos caminhoneiros. Comecei a observá-los, prestei atenção nas estradas, tentei entender o ritmo dos motoristas, perceber o caminho das cargas, a rotina dos postos de gasolina, li alguns blogs e conversei com amigos que tinham viajado com eles.

Estava por dentro do assunto e, mesmo assim, só entendi como a coisa toda funcionava na estrada.

Em março desse ano decidi que viajaria pelo Brasil. Criei um projeto chamado Rota Brasil Social, com a essência de viajar sem dinheiro pelo Brasil. trabalhando em projetos sociais. Demorei quase um mês para conseguir carona de caminhão. Foi uma época em que todas as outras formas de transporte funcionaram, o que me instigava ainda mais.

Desde que peguei a minha primeira carona de caminhão, decidi que era a melhor forma de viajar. E também a mais segura. Deu tudo certo com todas as caronas, desde que saí de São Paulo e fui até Fortaleza.

Depois disso, viajei menos, rotas menores, mas sempre pegando carona.

Durante as viagens, fiz grandes amigos, tive conversas profundas e aprendi muito. Cada motorista que aceitou minha companhia na sua jornada foi muito generoso. Confiou em mim.

A gente se acha muito especial, acha que o mundo é mal, tem medo.

Hoje sei que não sou tão corajosa como as pessoas dizem. A coragem está em quem pede carona, sai da zona de conforto, mas quem tem mais a perder é motorista. Por isso, existe uma relação de confiança, que vai além de levar um passageiro. A partir do momento que estamos no caminhão, nos tornamos pessoas que escolhem viver uma outra verdade, na qual nos relacionamos com as pessoas, precisamos de ajuda e de companhia.

Alguns pontos importantes sobre carona

Essa é para quem está começando. Inclusive, com algumas regras de etiqueta. Mas fique sabendo, relações humanas não são como um bolo que tem receita. Descubra a sua maneira.

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Lugar certo: vou para postos de gasolina, não os que só param carros e tem os salgados mais caros da região, mas nos postos dos caminhoneiros. Eles sempre param no melhor posto, o que oferece algum benefício como banho, estacionamento, boa comida, segurança.

O frentista: assim que chego no posto, o frentista é a primeira pessoa para quem me apresento. Conto da viagem, de onde venho, para onde vou. Frentista amigo é carona na certa.

Aparência e modos: existem caminhoneiros que gostam de hippies, prostitutas e loucos. Eles ajudam todos. Em geral, uma aparência normal cai bem. Meninos com camiseta, meninas sem decote. Aperto de mão forte, falar seu nome, aprender o dele, dizer o que quer e para onde está indo.

Referências: estamos no caminho, vindo de um lugar e indo para outro. Tenha referências. Diga quem te indicou para chegar lá. Se um caminhoneiro te der indicações, anote.  Ter nomes de frentistas, atendentes e gerentes de posto de gasolina ajuda muito (mas só com tempo você faz essa rede).

Abundância: o meu melhor sou eu e não o dinheiro. Sempre me ofereço para ajudar: carregar, descarregar, cozinhar, pegar água. E ajudo! Acho uma forma justa de contribuir na viagem. Eles aceitam ajuda, inclusive de mulher. Isso dá crédito para o almoço e uma boa chance de me ajudarem na próxima carona.

A noite chegou: leve uma rede e um saco de dormir, pois você pode precisar dormir em um posto. Uma boa carona pode demorar algumas horas. Se não gosta de pegar carona e viajar a noite, é melhor ter como dormir.

Pedido claro: ninguém adivinha o que você quer. Sou bem clara no que desejo e no meu destino. Isso é importante. Não falta prostituição na estrada. Nunca ninguém se "enganou" comigo.

Medite: carona é um tipo de meditação que pratico. Estou 100% presente, o caminho é tão importante como o destino. Às vezes é mais divertido, bonito e interessante. A viagem de caminhão costuma demorar, assim como a carona que você está esperando. Esperar faz parte da viagem. Aceite isso.

Agradeça: todos que passam pelo seu caminho podem te ajudar. Agradeça por tudo. Você não sabe o que os caminhoneiros, frentistas e atendentes disseram para quem vai te dar carona. Em um posto, se você ganha carona, pelo menos mais de uma pessoa confia em você.

Segurança: a maioria dos postos tem câmeras de segurança. Os caminhões são rastreados. Um caminhão não pode simplesmente parar na rodovia ou entrar em uma estrada e, se acontecer, outros caminhoneiros chamam no rádio, oferecem ajuda. Existem muitos símbolos na estrada. Você pode saber o que está acontecendo em vez de contar com a sorte.

Para cada um desses itens, tem muita história para contar. E se você pensar "ah, só dá certo porque é mulher e bonitinha", acho que seu caminho é outro. Podem até ser verdadeiros esses motivos, mas com esse pensamento, até o vizinho vai fechar o elevador na sua cara.

Se isso já aconteceu, não tente pegar carona.

Quando me perguntam por que escolhi pegar carona, minha razão são meus sonhos.  Eu não consigo esperar ter tempo e dinheiro para fazer o que realmente importa. Tenho muito medo de nunca ter os dois ao mesmo tempo.

Esse risco eu não estou disposta a correr.

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publicado em 07 de Dezembro de 2013, 22:00
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Carolina Bernardes

É amadora em tudo que faz: viajante, ongueira, comunicadora, ciclista, cozinheira e fotógrafa. Viaja sem dinheiro, trabalha em projetos que acredita e pretende dar a volta ao mundo assim.


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