Como preservar o Meio Ambiente sem frescuras – Parte IV, Transporte e Mobilidade

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A cidade de São Paulo segundo o IBGE, possui aproximadamente 11 milhões de habitantes que se deslocam todos os dias pelos 1.523km² de área territorial do município. Correto? NÃO. Incorreto.

Na verdade quando se trata de deslocamento de pessoas é impossível considerar o município isoladamente, afinal não há mais distinção visível entre os municípios. É o fenômeno urbano da conurbação.

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Prazer, eu sou o engarrafamento, efeito colateral da conurbação.

Dessa forma, procura-se planejar o espaço urbano no âmbito das regiões metropolitanas, que no caso de São Paulo constituí nada mais, nada menos do que 39 municípios e quase 20 milhões de habitantes que se deslocam pelos 7.947 km²! São números impressionantes e acontecem em menor escala, mas não em menor importância em outras diversas regiões metropolitanas do país.

Como chegar de A a B?

Transportar essa gente toda não é nada fácil e o problema do transporte é um dos mais visíveis aos olhos de todos, pois afetam mais instantaneamente os cidadãos e por esse motivo preocupa a todos: cidadãos e gestores.

Não é como o problema do lixo e do saneamento básico em geral, que vai sendo empurrado com a barriga pelas prefeituras para que o próximo gestor resolva, demorando-se anos e anos até que o sistema entra em colapso e uma mobilização emergencial do tipo “apaga incêndio” é necessária. As questões relativas a transporte e trânsito são como adrenalina injetada no coração. O efeito é instantâneo!

Transporte público é prioridade em países desenvolvidos

A priorização do transporte público em detrimento ao transporte individual é uma premissa mais do que clara em qualquer país minimamente organizado. Infelizmente isso acontece em poucos lugares no mundo: alguns países da Ásia, alguns poucos estados nos EUA e praticamente todos os países da União Européia. Aqui no Brasil, nas grandes cidades há uma intenção bem tímida de priorizar esse tipo de transporte, entretanto, mais uma vez os interesses de outrem acabam pesando mais na balança.

No caso de São Paulo, há um dilema clássico do tipo “Tostines”: É visível que não há mais condições de cada munícipe que possua seu carro utilizá-lo em seus deslocamentos diários, mas ao mesmo tempo o transporte coletivo está para lá de saturado e a demanda por ele já supera (e muito) a capacidade existente.

Voltamos no tempo...

Há uns dois meses atrás foi publicado no jornal Metro uma matéria sobre o rodízio de veículos em São Paulo, na qual chegava-se à conclusão de que após dez anos, o rodízio perdera o efeito. Sendo assim, atualmente enfrentamos aqui o mesmo caos de dez anos atrás, quando o projeto foi criado.

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Engarrafamento bom é assim, todo mundo sai do carro e começa a fazer novas amizades. Tô pensando até em levar umas latinhas de Skol pra vender no próximo. Ia ser sucesso.

Estima-se que cerca de 500 novos carros integram-se ao trânsito de São Paulo TODOS OS DIAS! Munidos desses números, os planejadores e gestores deveriam ter dado continuidade a projetos para  atribuir à cidade uma espécie de dinâmica mais sustentável. Entretanto, o que fora criado como uma solução “bombeiro” (emergencial) foi aceito como definitivo e hoje o problema voltou. Pior do que isso, hoje o problema é observado em dezenas de cidades por todo o país.

A questão a se discutir para quem utiliza o automóvel particular todos os dias é: Dá para largar o carro em casa e cumprir os compromissos com o transporte coletivo? Dá. Eu quero fazer isso? Não. Porque? Porque o sistema não funciona e apesar dos pesares acaba sendo melhor ficar engarrafado no trânsito em seu próprio veículo do que engarrafado no trânsito em pé e “ensardinhado”.

No fundo essa é a real. Ninguém em sã consciência abre mão do conforto e da praticidade.

Meus números

Demoro cerca de 15 minutos para chegar ao trabalho de carro. De ônibus demoro 1 hora (ou mais). Preciso falar mais alguma coisa? Tá bom eu falo: de carro eu ainda venho ouvindo minhas música e com ar-condicionado ligado quando está muito quente. Coisa de fresco? Burguês? Chame do que quiser, mas dormir uma hora a mais de manhã não tem preço!

Na verdade, não é nada fácil equacionar questões como essa. Existem ações que devem acontecer ao mesmo tempo e paralelamente, o que é realmente muito difícil, pois quando trata-se de pessoas e cidades tudo é muito imprevisível.

Faz-se necessário investir na ampliação dos sistemas de transporte coletivo (vias, veículos e integração entre modos), na desestimulação do uso do automóvel particular (cobranças de pedágios e afins) e na inversão de valores relativas à cultura do automóvel e do consumo. Essa última que é o difícil.

Muitos “magos” pretendem resolver os problemas das cidades com a aplicação de uma tecnologia nova para o transporte, como se isso bastasse. Na verdade, sinto informar que o mais fácil de tudo o que envolve o planejamento é a engenharia. É caro colega de profissão...ENGENHARIA É FÁCIL, SIM.

O verdadeiro obstáculo

Tecnologias não faltam, sistemas fantásticos não faltam e profissionais criativos e inteligentes também não faltam. Aliás, engenharia é feita para isso mesmo. Tem que resolver o problema físico e ser fácil de aplicar. O difícil de mudar é a cultura, os valores que orientam nossa conduta.

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Não quero nem saber. Só saio de casa com meu possante. Ônibus é coisa de povão.

Não adianta apenas implantar centenas de quilômetros de metrô visando fazer com que a classe média deixe seu carro na garagem se os indivíduos encaram o veículo como uma questão de status e poder. Não adianta apenas construir ciclovias se para ir à padaria as pessoas se dão ao trabalho de tirar os carros das garagens para desfilarem como pavões pela vizinhança.

Sem a consciência por parte dos cidadãos de que a cidade funciona como um organismo vivo, as vias são suas artérias e nós com nossos carros somos o colesterol ruim, não adianta em nada inovar tecnologicamente. Mais do que isso, quando se tem condições, faz-se necessário perceber que é muito mais lógico e saudável morar perto do trabalho do que cair nas garras dos manipuladores imobiliários e ir morar à 20, 30, 40 Km ou mais do local de trabalho só porque é o “bairrinho da moda”, criando-se verdadeiros fluxos desnecessários e insalubres à todos.

Por outro lado, não adianta promover uma revolução cultural sem ter meios de dar vazão às necessidades de deslocamento das pessoas. Não adianta fazer campanhas do tipo “um dia sem meu carro” se o transporte coletivo jamais suportaria a demanda desse dia. Coisa de bicho grilo...

Tá, mas o que fazer então?

Nesse caso, talvez pareça que eu esteja agindo meio como “advogado do diabo”, mas apesar de trabalhar na fiscalização e proteção ambiental, existem certas coisas que devem ser tratadas de uma maneira clara, madura e sem ficar repetindo como um chimpanzé aquilo que ouvimos, assistimos e lemos em folhetos de ONGs.

Lembre-se: ONGs são como vinhos. Existe por aí desde aquele bem sem vergonha que não dá para fazer vinagre, até aqueles incríveis que custam R$15.000,00. Pior do que não dar bola para o meio onde se vive é achar que está “abalando”, mas na verdade só está atrapalhando.

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Quer sugestão? Leva cadeira e barraca.

Infelizmente, pouco podemos fazer diretamente. Indiretamente podemos evitar os deslocamentos desnecessários e quando der realizá-los utilizando o transporte coletivo, além das mudanças de conceito e consumo. Também podemos manter sempre as questões de transporte em debate. A polêmica faz com que os políticos se posicionem e possamos escolhê-los e cobrar suas ações.

Esteartigo está longe de pretender esgotar a discussão sobre esse assunto tão complexo e objeto de centenas de estudiosos da mobilidade por todo o mundo, mas já serve para esquentar os motores dos interessados.

Percebam que nem toquei no assunto relativo à modos de transporte, pois como disse antes, tecnologia é o de menos. O que precisamos é de mudança de paradigmas! Para quem quiser saber mais sobre tecnologia, acesse a Biblioteca Didática de Tecnologias Ambientais.


publicado em 07 de Janeiro de 2008, 12:29
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Thiago Oshiro Campi

Thiago Oshiro Campi é Engenheiro Civil formado pela UNICAMP, atualmente a serviço do Governo do Estado de São Paulo, atuando na área ambiental. Além disso é guitarrista de carteirinha com Heavy Metal nas veias.


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