Como superar o cansaço

Repensando o descanso

Esteja você em uma conversa boba no bar ou no corredor da firma, tomando um café, logo vai perceber que o sono é uma das áreas mais negligenciadas da vida.

A começar pelo próprio hábito de tomar um café ou energético para acordar e segurar o dia depois de dormir tarde por causa de uma balada ou por ter simplesmente engatado uns episódios daquela série nova. Ou, talvez, por demandas super urgentes, como um trabalho da faculdade que corre em simultâneo com vários cursos ou mesmo um emprego.

Seja por necessidade ou falta de atenção, a gente dorme muito menos do que deveria.

Esse texto, escrito por Judy Batalion e publicado na GOOD Magazine, aborda de um jeito bem interessante nossa falta de sono e joga uma luz sobre como podemos dormir e acordar de forma mais saudável.

Traduzimos aqui embaixo, na íntegra.

Repensando o descanso, por Judy Batalion

Ninguém – ninguém mesmo – dorme o suficiente. A busca pelo bom sono é hoje uma obsessão coletiva, o assunto de muitas conversas, campanhas de marketing e chamadas jornalísticas entremeadas por bocejos. 

A falta de sono causa acidentes fatais nas estradas, e prejudica o desempenho no trabalho, aumentando os custos da mão-de-obra. As crianças sofrem na escola. O mau-humor impera. Cérebros encolhem. 

Enquanto problemas como déficit de atenção e hiperatividade, obesidade e problemas de pele costumavam ser atribuídos a questões de alimentação, estudos recentes sugerem que possam ser devidos à falta de sono. Acabaram-se os dias de contar ovelhas; letargicamente seguimos para os remédios sob prescrição (e/ou óleos essenciais). E o café. Tanto café. Mas ele pouco funciona. Estamos, parece, todos loucamente cansados.

Depois de quase perder a cabeça, quando minhas próprias tendências insones colidiram com as incontáveis acordadas noturnas do meu primeiro filho, contratei uma consultora de sono para a família. Ela “treinou” meu bebê e eu mesma para nos autoacalmarmos, de forma a conseguirmos dormir depois de tantas noites inquietas, que, ela explicou, são perfeitamente naturais – o ciclo de sono completo vai de 70 a 120 minutos, não oito horas. “Estamos treinando as crianças a dormir como dormimos,” ela explicou, “a sós e por longos períodos de tempo.”

E foi aí que me apercebi: o sono, como o conhecemos – e que eu sempre vi como uma função biológica inata – é na verdade um hábito social, aprendido. O sono é político.

As culturas ao redor do globo dormem de formas diferentes. Em muitos países asiáticos, dormir junto com as outras pessoas da família é comum. Os pais japoneses, e até mesmo os avós, muitas vezes dormem próximos dos filhos até a adolescência, e referem-se a esse arranjo como sendo “um rio” – os pais são as margens, e os filhos dormindo próximos a eles são as águas. 

Na Nova Guiné, é comum para os homens dormirem em recintos separados; as mulheres e as crianças dormem em seu próprio recinto. 

Os países mediterrâneos tem siestas à tarde; os dias de trabalho começam mais tarde que os nossos, bem como suas refeições e horários de ir para a cama. 

Um estudo histórico seminal de Roger Ekirch mostrou que por vários séculos os seres humanos dormiram em dois blocos distintos, com horas de estado desperto entre eles.

A prática de desligar os olhos foi ajustada aos padrões profissionais e familiares (sem falar de inovações na iluminação). Acredita-se que o sono de oito horas seja o subproduto da Revolução Industrial e das práticas de padronização do trabalho que então seguiram. 

Mas cada vez menos pessoas – incluindo aí eu mesma – trabalha um emprego de turno duplo, das 9 às 17: a tecnologia tornou obsoleta a ideia de estabelecer um conjunto de horas de trabalho. 

Como jornalista freelance, posso escrever e enviar e-mails para meus editores às 3 da manhã se eu quiser. 

E talvez em resposta a nossos dias de trabalho em constante adaptação, as estruturas domésticas também estejam mudando, voltando aos velhos hábitos de outros contextos. 

Um número recorde de pessoas vive só. Já se declarou como tendência urbana as famílias compostas por membros de várias gerações coabitarem casas compartilhadas. Casais que dormem em camas separadas são também cada vez mais comuns: de acordo com a Associação Nacional de Construtores de Residências, até o fim de 2015, 60% das casas onde se pede para fazer alguma alteração terá quartos com duas camas. As configurações e localizações de nossos dias e camas estão em fluxo.

Estudos sugerem que dias escolares que começam mais tarde, especialmente para adolescentes, causam alunos mais descansados e mais focados. Mas enquanto o complexo de arranjos sociais e temporais muda, nós adultos seguimos aderindo aos velhos ideias de sono das 23h às 7h, e talvez seja por isso que estamos sempre tão exaustos. 

Não estou de forma alguma negando que o cobiçado sono de oito horas sem interrupção não me deixe gloriosamente alerta, mas estou sugerindo que podemos pensar em outros modelos que nos façam nos sentirmos bem e que sejam compatíveis com nossas estruturas de trabalho e familiares em constante mudança. 

Um estudo recente revelou que o ganho de peso pode ter menos a ver com o que comemos, e mais com a hora do dia em que comemos. O relógio é redondo e oferece muitas permutações. Em vez de nos enchermos de calmantes e estimulantes, precisamos pensar uma forma nova de descansar.

Pelo menos isso é o que digo a mim mesma quando acordo para embalar minha segunda filha, a cada 90 minutos. Mesmo se eu não dormir essa noite, eu me consolo, imaginando nós duas descansando numa rede em alguma praia sul-americana – no séc. XVIII, já que é tudo imaginação – vou sobreviver. Vou descansar de manhã, ou de tarde, ou com ela sobre minha barriga. Francamente, de qualquer jeito que dê.


publicado em 06 de Junho de 2015, 00:05
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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