Comprar livros pela Internet e as tristezas do mundo

É como aquela amiga gostosa que tu tens, que sempre diz que queria foder contigo e, quando a sós, ela não mete nada e, no máximo, rola uma punhetinha. Ou ainda pior, quando ainda na idade em que não se chama uma menina pra foder, você fica no cantinho escuro da festa, beijando-a loucamente, as mãos ansiosas e estúpidas subindo e descendo, alucinadas de sentir o bojo do sutiã, o lacinho da calcinha, o suor dela na tua boca, mas, ao final, resta ir pra casa com o saco doendo. Sinto a mesma frustração quando compro livros pela Internet.

A linha de raciocínio é a mesma

Não tem o que fazer. Você acha o livro certo pro momento certo. Quer devorá-lo, ler todas as páginas de uma vez, sentir a capa e a contracapa em suas mãos, o cheiro das páginas. A vontade é tamanha que a versão intangível para se ler no Kindle ou no iPad (ou qualquer tablet a disposição) não faz valer a pena, é pornô pra se bater uma quando se está ocioso. O que vale mesmo é o livro na mão.

Daí você se dispõe a achar tempo livre para ir à livraria. Não aquelas pequeninas, de esquina, com toldo azul com o nome escrito em amarelo. Você quer porque quer ir naquela livraria famosa e imensa, com centenas de milhares de títulos, só pra buscar o livro que tanto deseja. Afinal, não se trata daquele livro que pode se comparar com aquela garota feia - mas gostosa - que te deu o telefone no bar. O tal livro é aquele desejo insano, aquela vontade que não há de passar até ser consumado. O tal livro é aquele pão na chapa que você compra logo cedo, que você morde antes mesmo de tomar um copo d'água em casa. Imagina o acordar, ligar pra padaria pra pedir um pingado e um pão na chapa e ficar esperando 20 minutos pra recebê-lo. Haja tristeza.

Tenho que esperar quatro dias úteis. Que seja menos. Você entra, todo sedento no bendito site de compras. Acha a aba de livros, digita o nome do livro. Vê a capa, toda linda, a descrição, o preço acessível. Você clica em "comprar", bota lá os teus dados, os números sagrados do teu cartão de crédito, o endereço de entrega.

"Compra realizada. Aqui está o número do seu pedido: 222645222323222"

Você abra o seu email. Tem uma mensagem nova.

"Sua compra foi realizada com sucesso!
Aqui está o número do seu pedido: 222645222323222.
A entrega será feita em até 4 dias úteis. Clique aqui para acompanhar o seu pedido.
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Resta ficar olhando pra tela. O pedido foi feito. A compra, realizada. Nas tuas mãos, só ódio a ser tecido, remendado com a frustração. Esperar quatro dias inteiros. Receber mais emails com o andamento do seu pedido. Rezar para o carregamento não ser roubado e o prazo renegociado. Torcer pra ser enviado logo pro carreto. Torcer pro frete escolher a sua entrega como a primeira entrega do dia. É muita maldade. Nesse tempo, já teria lido o livro e estava pronto para comprar outro.

Link YouTube | Você compra o livro pela Internet e é isso que o site de compras faz com a sua expectativa

Não estamos falando de um móvel, grande e pesado, difícil de se carregar, impossível de se montar. Não estou comprando um item antigo e raro, que requer cuidados extremos, que precisa ser guardado em um lugar seguro e secreto, e só pode ser despachado após uma burocracia fria, porém necessária para o bem dos bens adquiridos. É só um livro! É só ter um no estoque da loja física!

O site de compras é o Pornhub do consumo. É só uma enganação para a realidade, uma fuga para as tristezas da vida - a falta de sexo, a falta de companhia, a falta de um título na livraria -, uma cura nada eficaz para o sofrimento capitalista de oferta e procura.

"Não temos na loja, senhor, mas podemos encomendar para o senhor retirar daqui 18 dias úteis. Ou, o senhor pode fazer a compra online, para receber o título em sua residência".

Imagina só a cena de jantar, bebidinhas no bar, conversa jogada fora, mão na mão, sorriso, convite pra estender a noite no teu apartamento, risadinhas no carro, ela sobe a saia no banco do passageiro, abre levemente as pernas, você engata a quinta marcha e sente a pele das coxas dela, vê os olhinhos te avisando que vai acontecer coisa boa. Tudo assim, perfeito. Mas ela não vai subir. Você terá que esperar quatro dias úteis, sentado no seu sofá com uma taça de vinho na mão e ouvindo Marvin Gaye no repeat. E, se a ereção desistir de te deixar no ponto certo, a garota linda pode ser devolvida para que um novo agendamento possa ser feito. É a mesmíssima coisa.

Estou falando exacerbadamente sobre livros e sexo porque ambos tem uma relação em comum. A mesma coisa pode acontecer com um carro, por exemplo. Mas você juntou grana para comprar sua caranga. Fez uma baita pesquisa, foi ver os carros na concessionária, sentou em um bando de bancos reclináveis, viu uma porção de rodas, cores, sons acoplados que já possuem entrada para mp3. Você sentou com alguns vendedores, debateu a forma de pagamento, contatou bancos para conseguir a melhor linha de crédito, falou com a sua mulher, com os teus pais, com o professor de economia da faculdade. Sua busca não foi de hora pra outra, então, nada mais normal que esperar alguns dias para que o carro dos teus sonhos chegue na loja para que você possa viajar no final de semana.

O mesmo acontece com um relacionamento. Um namoro, um casamento. Você tem que ter proximidade com a pessoa. Tem que ficar com ela algumas vezes, ver se o sexo é bom, se a companhia é divertida a médio/longo prazo. Há que haver paixão, amor, há de se criar um companheirismo único, uma amizade que vai além da amizade. Vocês vão construir algo complexo juntos, com um equilíbrio que vai dar prazer e intimidade para ambos.

Não há porque esperar para se ter o livro. Não há porque ficar adiando o sexo, desde que ambos estejam com tesão.

livros e sexo deveriam ser sempre assim

Não se compra um chocolate ou cigarros e fica em casa esperando a remessa. Não se martiriza por dias para dar uma fodinha. Se sim, há o Pornhub ou o Youporn para matar os anseios. Há os sites de compras para comprar um livro. Mas tem que esperar para recebê-lo, para folhear as páginas deliciosas.

Comprar livros pela Internet é como ficar viúvo, é como ir à falência, é como tomar um pé na bunda enquanto ela viaja para Paris ficar com um escritor chamado Pierre, que usa boininha de lado e camiseta listrada de branco e azul escuro. Esperar o livro chegar é como se masturbar para a menina mais linda da escola que sequer sabe o seu nome, é como assistir a luta do UFC na Globo, é que nem achar que vai lembrar a progressão aritimética e geométrica dezoito anos depois de terminar o colegial.

O mundo anda preocupado demais com o aquecimento global, com os testes em animais, com a segurança pública, a crise na Europa, a cura do câncer, da AIDS, o novo processo de trabalho, a geração de empregos, com a maneira como utilizamos as redes sociais, a isenção de impostos para religiões, as religiões em si.

As pessoas estão gastando muito tempo pensando em como aproveitar melhor o tempo, como evitar o trânsito nas grandes cidades, comer alimentos orgânicos, evitar o stress serem pessoas melhores umas com as outras.

Mas todos estão esquecendo o quão importante é a questão universal de se comprar livros pela Internet. Deveria ser proibido, controlado, abolido da sociedade. Uma lei seca para compra de livros online. Uma medida dura e drástic... ah, meu deus! A campainha tocando! Deve ser meu livro.


publicado em 25 de Julho de 2012, 07:44
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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