Estamos procurando um autor para escrever sobre saúde do homem no PdH! Topa? Mais informações aqui.

Construindo uma nova família

Sempre fui desses que gostaria de ajudar em algo. Fazer parte. Durante a faculdade fui do Centro Acadêmico, da Atlética e ajudei a fundar o time de rugby. Mas nunca imaginei que iria entrar de cabeça em uma ONG.

E por fim descobri que estava errado. Muito errado.

Já faz algum tempo, e em meio a um turbilhão de pensamentos, conflitos e caminhos incertos que decidi fazer parte de algo maior. Algo que amigos já participavam; do qual eu me tornaria parte e levantaria a bandeira sem medo. Resolvi dar uma chance para uma ONG. Logo depois percebi que ela que havia me dado uma oportunidade.

Entrei na ONG Teto - Brasil em 2010. Na primeira ação ajudei na construção de casas emergenciais em uma comunidade em Guarulhos. O Teto trabalha com a denúncia da extrema pobreza e não é uma ONG de construção de casas. O projeto passa por duas fases (Construção de casas de emergência e Habilitação Social) até chegar na terceira etapa e objetivo final do projeto: a Comunidade Sustentável.

Link YouTube | A primeira construção de 2012

Ao longo desses dois anos eu já construí algo por volta de 14 casas em comunidades de Guarulhos, Carapicuíba, Santo André Bariloche, na Argentina. É difícil descrever a experiência de uma construção. Nos reunimos para a saída às comunidades em uma sexta-feira. Durante esse trajeto, há um discurso das pessoas que organizaram a construção (Chefes de Trabalho), uma apresentação do staff responsável por cada comunidade (Chefes de Escola) e uma palavra de diretores da ONG.

Após isso, em ônibus, vamos para as comunidades. Chegando na escola em que dormiremos, realizamos atividades rápidas e a apresentação dos monitores, responsáveis técnicos pela construção e líderes das equipe. No sábado acordamos por volta de 5h40. Tomamos café da manhã e participamos para uma atividade de formação que irá nos preparar para tudo o que veremos. Muitas pessoas nunca entraram em uma favela. Então, o que esperar? Na minha primeira vez eu não sabia nem o que pensar. Talvez ainda estivesse cético com tudo o que iria acontecer, mas uma coisa foi marcante: o cheiro. E cada favela tem um cheiro diferente.

Em algumas o córrego a céu aberto denuncia e em outras, restos de comida nas vielas, cachorros, gatos, esgoto, lama... tudo faz parte da tradução desse contexto surreal. Nunca pude imaginar que a realidade das pessoas que ali vivem fosse tão complicada. E mesmo tendo entrado mais de 20 vezes em comunidades na região da grande SP e exterior do país, o cheiro é uma característica que me toca.

Até quando não há cheiro algum.

Voluntários rumo ao dia de ação

Durante esse primeiro dia fazemos a fundação da casa com pilotis (estacas de madeira), vigas e painéis de madeira para o chão. É um dia de trabalho braçal pesado. Muitas vezes temos pilotis de três metros, dos quais temos que enterrar mais do que dois metros e em diversos tipos de terreno. Não importa se o chão é de barro, cimento, concreto, se passa um córrego, se você acabou de estourar um cano de esgoto ou está sujo dos pés a cabeça. Os líderes (dois por equipe), com ajuda de uma equipe de uns seis voluntários (que podem variar de 1 a 10), fixam os 15 pilotis que irão sustentar a casa de madeira pré-fabricada pelos próximos cinco anos

Nesse primeiro dia conhecemos muito da família. Eles cozinham para nós, almoçamos juntos, damos risada e algumas vezes choramos com tudo o que acontece. É de se admirar a vontade e confiança que cada família deposita na ONG e nos voluntários. E estes voluntários não conheceram a família no acompanhamento feito anteriormente. Acreditar que de fato iremos construir uma casa em apenas dois dias. Acho que a família nunca acredita 100%, mas quando vê o piso tomando forma, tudo acaba ficando mais claro.

Uma família levantada com suor e algumas lágrimas

No segundo dia a confiança dos voluntários é bem maior. Já conhecemos o lugar, as pessoas e o dono do bar da esquina. Nesse dia é quando levantamos as paredes e fechamos o telhado.

No fim da tarde, início da noite, entregamos a casa para a família. Toda vez - e mesmo agora, quando penso nisso - fico com a sensação de que ainda fazemos pouco. Sei que sair de uma condição onde se vive em chão de terra batida, com esgoto ou córrego passando ao lado, morando em meio a ratos, baratas e diversos animais, é muito mais do que a família pode imaginar. É ver o choro sincero da mãe de família. Ver que com esse suporte ela poderá seguir em frente sem se preocupar se vai chegar em casa e ainda terá uma.

O que mais me surpreende nesses dois anos de Teto é a família que me acolheu. Não só as famílias para quem construí, mas sim a família de voluntários que sai junto na sexta-feira e não se importa de acordar cedo no sábado para carregar painéis de mais de 200 kg. Da família de voluntários que ajuda no escritório central, faz reuniões as 20h de uma terça-feira, aos sábados ou domingos. Uma família de amigos que sabem que podem contar uns com os outros sempre que precisar.

É por isso tudo que eu sei que hoje eu faço parte de algo. E sei que vale a pena.

Sobre a ONG

O Teto é uma organização latino-americana que nasceu no Chile em 1997, quando um grupo de jovens universitários, apoiado pelo sacerdote Felipe Berríos, sentiu a obrigação de mudar a situação de extrema pobreza em que vivem milhões de pessoas por meio da construção de casas de emergência e a execução de planos de habilitação social.

A instituição Um Teto Para Meu País - Brasil foi fundada em novembro de 2006 na cidade de São Paulo. Desde então, centenas de jovens e de famílias das comunidades carentes trabalham e sonham juntos erradicar a pobreza extrema do país.


publicado em 03 de Abril de 2012, 06:42
9c097cc4cefa904aff88f8d9aaa18838?s=130

João Pedro Braconi

João Pedro Braconi é publicitário. Escolheu a área achando que tudo era um comercial de TV, mas nem passou perto de trabalhar com isso. Safado por natureza, tem sérios problemas com a palavra "namoro", vive correndo atrás de novos projetos e aumentando o seu número de madrugadas sem dormir.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Sugestões de leitura