Lançamos nosso primeiro ebook! Vem conhecer as 25 crises do homem (e como superá-las)

Corno manso | ID #22

O medo de ser insuficiente e o ciúme patológico alimentam a falácia da honra masculina

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"Fred, quero tirar uma dúvida.
Sou casado há 8 anos. Minha esposa é uma 'corna mansa', pois tenho uma amante há 5 anos. É claro que já dei umas mancadas e nem por isso minha esposa esquentou a cabeça. Eu, sinceramente, não sei se ela simplesmente sabe ou não disso, mas está comigo até hoje e me trata bem. Vai entender...
Já traí minha amante também. Ela acredita que vou largar tudo pra ficar com ela, mas a verdade é que eu não vou fazer isso.
Minha amante é mais louca por mim que minha esposa e, por incrível que pareça, é ela que me acompanha em tudo (no médico, escola, nos desabafos, ela é minha amiga para todas as horas). Minha esposa é paradona (trabalho-casa-sofá). A vida dela é essa.
Eu não sou pervertido, não saio com um monte, mas já pulei a cerca (daquelas puladas de uma noite só) pra sair da mesmice. Todas falam que sou muito bom de cama. Minha esposa é louca por isso e minha amante mais ainda. Ela um dia falou que daria a vida por mim, fiquei até com medo. Ela é obcecada.
Agora, minha esposa, tenho medo do silêncio dela. Como pode ela aceitar tudo assim e ainda vir atrás de mim igual cachorrinha?
Obs: No dia em que eu encontrar alguém e amar de verdade, vou largar tudo e ficar só com essa pessoa, mas por enquanto, devido à minha carência afetiva, prefiro ir ficando com as duas."

Esse texto não soaria estranho ou ofensivo para muitas pessoas. Afinal, no imaginário coletivo, homens são homens e isso acontece, mas a carta original é de uma mulher.

Essa aqui:

"Fred, quero tirar uma dúvida.
Sou casada há 8 anos. Meu marido é um corno manso, pois tenho um amante há 5 anos. É claro que já dei umas manotas e nem por isso meu marido esquentou a cabeça. Eu, sinceramente, não sei se ele simplesmente sabe ou não disso, mas está comigo até hoje e me trata bem. Vai entender...
Já traí meu amante também. Ele acredita que vou largar tudo pra ficar com ele, mas a verdade é que eu não vou fazer isso.
Meu amante é mais louco por mim que meu marido e, por incrível que pareça, é ele que me acompanha em tudo (no médico, escola, nos desabafos, ele é meu amigo para todas as horas), meu marido é paradão, (trabalho-casa-sofá-cerveja). A vida dele é essa.
Eu não sou pervertida, não saio com um monte, mas já pulei a cerca (daquelas puladas de uma noite só) pra sair da mesmice. Todos falam que sou muito boa de cama. Meu marido é louco por isso e meu amante mais ainda. Ele um dia falou que daria a vida por mim, fiquei até com medo. Ele é obcecado.
Agora, meu marido, tenho medo é do silencio dele. Como pode ele aceitar tudo assim e ainda vir atras de mim igual cachorrinho? Você que é homem deve saber.
Obs: o dia que eu encontrar alguém e amá-lo de verdade, vou largar tudo e ficar só com essa pessoa, mas por enquanto, devido à minha carência afetiva, prefiro ir ficando com os dois."

Lendo a carta agora, seu estado emocional pode ser diferente. Talvez, repulsivo e mais ofensivo em relação à carta escrita por um homem.

Por isso, eu não gostaria de me deter no comportamento da querida leitora. Afinal, as discussões nos comentários poderiam se perder em ataques desnecessários e batidos. Defender a pessoa traída é muito fácil, principalmente se for um homem.

Acho interessante mesmo é falar sobre essa questão do rótulo de corno manso, que cabe a todos os homens, cornos ou não.

Medo do chifre

Notaram que soou estranho a palavra 'corna'? Ela carrega um estigma essencialmente masculino, pois a mulher não é vista como "corna" ou menosprezada por ser traída.

Quando um homem é traído, o imaginário coletivo associa a ideia do chifre com fraqueza, passividade, baixa virilidade. Ou seja, de que o homem foi traído porque não deu conta do recado. Se ele faz um “bom trabalho” é visto como alguém indigno de ser traído.

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Com as mulheres o raciocínio não é esse. Ela não é vista como frígida ou fraca, mas como vitimizada pelo instinto masculino hipersexual e insaciável.

Quando uma mulher trai, não é vista (como é com o homem) como resultante de uma sexualidade ativa e que, apesar de sentir prazer com seu parceiro, também quer dar uma variada. Normalmente, o chifre é visto como fruto de um homem que foi insuficiente, especialmente na cama.

Ser corno é o atestado do fracasso como macho. Especificamente daquilo que se considera ser a função mais importante como homem: comer bem a sua mulher e deixá-la saciada.

Uma mulher para muitos homens

O ponto delicado, que poucos homens se dão conta, é sobre a natureza da sexualidade de homens e mulheres. O orgasmo masculino é bem pontual, circunscrito e breve. Sua virilidade, ainda que cavalar, seria pífia se comparada com a capacidade orgástica de uma mulher. Prova disso é o recorde da americana Lisa Parks por transar com 919 num dia.

O inverso seria impossível, por mais boa vontade e viagra que existisse. Uma mulher pode transar incessantemente com muitos homens, já eles tem um limite.

Um dos maiores temores inconscientes do homem é jamais saciar o suficiente sua mulher e ela querer esparramar sua sensualidade em outros varões.

Lembro que houve uma mudança nas revistas femininas na década de 80 e 90, incitando-as a exigirem dos seus parceiros para desenvolver mais dedicação sexual e que começassem a variar do papai-mamãe na direção de manobras mais arriscadas, recheadas de preliminares e carinho.

Funcionou, pois a geração atual já está mais bem informada (não necessariamente apta) para evitar a concorrência.

O Ricardão

Quem será que foi o lendário Ricardão? Na cabeça dos homens, esse arquétipo é alguém grande em todos os sentidos e que saciou sua mulher onde ele falhou. Por que não Ricardinho? Porque em sua concepção, um homem não poderia ser traído por alguém menos potente ou volumoso que ele.

Seria duplamente humilhante se descobrisse no amante de sua parceira um jovem franzino, estranho ou feio. Esse Ricardão parece ter mais fôlego, força de vontade, esperteza e furor com sua mulher. Ele é o cara que conseguiu arrancar dela um olhar que o marido já não via faz tempo.

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O Ricardão

Nas tirinhas, os amantes costumam ser representados escondidos debaixo do armário, da cama ou no parapeito da janela. O Ricardão é sempre aquele que está transando com sua mulher enquanto você trabalha ou está alienado, pensando só em si mesmo.

Acho essas metáforas ilustrativas, porque caracterizam a traição feminina como uma falha do desempenho masculino, como se ele estivesse fixado em outra coisa, enquanto a ela se deleita com outro homem.

Uma dinâmica de relacionamento problemática costuma surgir de pessoas que não estão cientes dos limites e possibilidades que um relacionamento amoroso pode oferecer. Se buscam ali a resposta para todos os problemas, a cura para disfunções emocionais ou a fonte absoluta da felicidade, talvez estejam buscando no lugar errado.

Uma pessoa pode buscar mil Ricardões ou Ricardonas e, mesmo assim, nunca ter certeza de que o amor de verdade, aquele que supostamente completaria todas as brechas e rachaduras existenciais, bateu à sua porta.

Ser ruim de cama

Numa cultura latina como a brasileira, é pecado mortal um homem admitir que não é profundo e hábil conhecedor da arte sensual.

A sensualidade masculina é veladamente admirada e até a nudez é abertamente reprovada. Em 1987, quando o filme Dirty Dancing foi lançado lembro de muitos homens que torciam o nariz para a performance de Patrick Swayze encarnando Johnny e conquistando a jovem Baby (Jennifer Grey) com sua dança arrebatadora.

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Era um declarado despeito com a sensualidade dele, pois sua existência esfregava na cara dos homens daquela geração sua incapacidade de por um pé na frente do outro, cultivar um abdome minimamente trabalhado e seduzir uma mulher sem dar uma carteirada.

Já ouvi muitas confissões no consultório, de homens que suavam enquanto me diziam que não eram bons de cama e nem sabiam como quebrar esse ciclo de mal-estar. Eles falavam, aos prantos, do receio que tinham em enfrentar seus próprios preconceitos e até liberar sua fúria interna. Testemunhavam seu moralismo, sua vergonha com o corpo e chegavam à conclusão que era muito difícil romper a barreira de timidez diante de suas esposas e namoradas a não ser que estivessem embriagados ou com prostitutas.

Em 2010 fiz uma série de entrevistas com garotas de programa porque queria escrever um livro sobre essa temática. Muitas delas me contaram coisas parecidas: elas ensinavam truques para os homens sobre como controlar a ejaculação, manter a ereção por mais tempo, como massagear uma mulher, tocar em pontos que desconheciam, beijar com mais ardor, liberar sua voracidade, além de como mexer com a vaidade feminina e ativar seu tesão.

Uma fala em especial me marcou:

“Eles se comportam na balada como se fossem grandes comedores e, muitas vezes, saem sozinhos e vem nos procurar achando que estão abafando. Depois de performances bem quadradas, ensinamos truques básicos que desconheciam. Eles saem agradecidos e voltam.”

Por outro lado, esse mito do homem sexualmente preparado contamina a todos. As próprias mulheres se sentem constrangidas em dar dicas para os homens, já que precisam vir com o pacote completo de berço. Ao perceber que o homem é inexperiente, ou frágil, se desconectam e perdem o tesão, gerando uma correnteza de insatisfação silenciosa, seja na paquera ou no casamento.

Essa insegurança tem um preço alto na estima de um homem que muitas vezes assume uma vida de Don Juan por uma noite porque não consegue enfrentar a mesma mulher por noites seguidas ao longo da vida.

No calor da balada e no encontro casual ele parece liberar o leão, mas no convívio diário parece se entediar logo.

Esse tédio, na maior parte das vezes, não é por ter ao seu lado uma mulher desinteressante, mas por ter que encarar ele mesmo as lacunas de seu repertório sexual.

Ciúme patológico

Como não consegue administrar e admitir suas inseguranças, o homem precisa eleger um inimigo imaginário, uma figura hipotética que estaria à espreita em qualquer lugar para roubar sua mulher.

A mente sempre cria uma fixação nos pontos de fissura e fragilidade. Quando alguém está muito bem resolvido financeiramente, não precisa ficar falando disso o tempo inteiro, pois está focado em qualidade de vida e novos projetos. Quem fala de dinheiro o tempo todo é quem passa aperto com isso ou nunca se sente potente (note o trocadilho) o suficiente para pensar em outras coisas.

Com o sexo ocorre o mesmo. Quem está muito à vontade com sua sexualidade e desempenho não precisa criar uma compensação social e passar o tempo todo falando de sua virilidade ou fazendo os amigos pensarem que ele é o garanhão. Quem come bem, come quieto.

Como tem uma rachadura inconsciente com sua sexualidade, o homem projeta em tudo essa temática. Em sua mente só navegam pensamentos sexualizados, de calçados a viagens espaciais parece sempre haver um peito e uma bunda.

O ciúme patológico surge dessa armadilha da mente que vê sexo em tudo, inclusive de sua mulher transando com o padeiro, o colega do escritório e o amigo que deu uma curtida no Facebook dela. Na sua mente frágil, que projeta todo seu conteúdo interno, existe sempre uma segunda intenção maliciosa.

Ele cai na própria rede e fica sofrendo com sua imaginação e, na maior parte das vezes, atormentando e cercando a parceira.

A relação paranoica

O relacionamento amoroso, enquanto vivência humana, deveria ser um espaço de crescimento, relaxamento, diversão e entrega. Os casais ciumentos, no entanto, parecem viver em outra estação, pois habitam um lugar de rivalidade potencial. Nesse tipo de interação, a única coisa que pode garantir a segurança é a presença física ou a monitoração das atividades do outro.

O grande temor do homem inseguro é ser feito de bobo, pois para ele existe essa possibilidade constante e iminente. Ele não está empoderado em si mesmo, mas em referências externas que o certificam de seu valor. Se sua mulher o trai, ele seria invariavelmente um trouxa e não alguém que terá que lidar com essa questão com maturidade para entender o cenário geral.

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Para a mente paranoica, o problema está sempre lá fora, perseguindo suas melhores intenções. Ser esperto nesse sentido é passar a vida se cercando e garantindo que ninguém aja pelas suas costas.

Na realidade, ele está pouco concentrado em sua felicidade, mas em impedir que outros desestabilizem sua frágil segurança que está fora de si e não dentro.

Se o Ricardão pode avançar, ele estará sempre um passo à frente, cercando o olhar de sua parceira. Ao invés de produzir uma experiência aconchegante na vida, ele passa boa parte do seu tempo tampando os olhos da parceira para impedir o desejo inevitável dela.

Se ele tivesse aprendido um pouco com o Johnny, ao invés de resmungar enciumado, colocaria uma música para dançar com sua mulher. Ele adicionaria uma experiência positiva e não tentaria subtrair a alegria dela em desejar e viver.

Sobre ser manso

Todo corno deveria ser manso, sem vergonha alguma nisso.

Ao descobrir a traição, esse homem teria muitas possibilidades pela frente, a mais comuns passariam por tirar uma arma da cintura até passar anos amargando uma bebedeira. Talvez o passo mais sensato seria olhar para o quadro todo e sentar com sua parceira para uma bela e talvez rara conversa honesta.

Ele deveria ser manso porque não perdeu a honra – isso é coisa do cangaço –, porque se a honra de uma pessoa for pautada pela fidelidade do parceiro amoroso, então seria preciso redefinir o que é honra. Um homem incrível pode ser traído e seguir sendo incrível.

“Se ele tivesse sido mais esperto, não teria tomado chifre”, essa seria a conversa de bastidores sobre o amigo corno. Mas será que alguém deveria ser estimulado a passar uma vida inteira sendo paranoico, desconfiado e aflito para ser feliz? Penso que um relacionamento deveria ser um lugar para deitar na rede e curtir, não passar o tempo checando quem será o potencial Ricardão.

Se sua parceira o "enganar", ela estará atestando mais uma confusão pessoal do que passando a perna em você. Neste caso, depois de se recuperar do choque pela nova informação mereceria ajuda e não tapa na cara. É de felicidade que estamos falando e não de objetos sexuais/amorosos danificados.

Abrir o assunto poderia levar um casal a descobrir aspectos ocultos na relação que poderiam redefinir o rumo da história, mais do que arrastar uma sequência de problemas intermináveis.

Essas questões não são simples e nem fáceis, pois mexem em fragilidades profundas e inseguranças antigas que permeiam grande parte dos relacionamentos. Atestar dificuldade não acaba com o problema de que a traição, longe de ser uma questão moral, digna de reprovação ou reivindicações pessoais afetadas, está mais para um dilema no sentido bem humano do termo.

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publicado em 06 de Fevereiro de 2014, 08:00
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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