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Cotas, Kinder Ovo e Privilégio

Sobre como descobri que não estava sempre do lado privilegiado e como isso mudou minha maneira de enxergar a sociedade

A palavra privilégio vem me causando grande perturbação. Minha trajetória em sua companhia é bastante particular, por isso falo por poucos.

Sempre considerei que tive uma vida repleta de privilégios. Minha mãe dizia isso, e parecia ser mesmo. Fatos peculiares nunca me sairam da memória, como quando estudei em escola pública e tinha vergonha de levar os coleguinhas na minha casa. Achava que eles me chamariam de “riquinha” por causa da casa de dois andares, uma vida confortável, o mar pertinho.

Há alguns anos, minha certeza sobre esse senso comum foi abalada. Quando me inscrevi para o vestibular e me auto declarei parda, tive uma surpresa: eu tinha direito ao programa de cotas da Universidade Federal de Santa Catarina.

Como eu, com uma infância tão plena, danoninhos na geladeira, caixa de sapatos cheia de brinquedos de Kinder Ovo, poderia estar de algum jeito em desvantagem? O que eu, depois de estudar a maior parte da vida em escola particular, ter pais com ensino superior, poderia falar de oportunidade em relação aos outros?

O vestibular passou, escolhi cursar Matemática, um curso incomum para mulheres, o que me fez confrontar com o privilégio novamente. Comecei a ser exposta a textos e pessoas que me colocavam em grande desvantagem de gênero, expunham a dificuldade de ser mulher e respeitada. Claramente, eu via que a mulher tinha papel social diferente do homem, mas isso nunca havia me soado como uma limitação, ou desvantagem. Eu não percebia isso nos meus dias, mesmo convivendo praticamente só com homens. Era como se fosse um delírio, como se o mundo tivesse coisa mais séria para se preocupar.

Este pensamento falho de alguns anos não era tão bobo ou egoísta quanto pode parecer. Demorei muito tempo para entendê-lo. Até então, para mim, essa palavra estava estritamente ligada à condição financeira e educação. Qualquer outro tipo de discussão me parecia aceitável, mas sempre tinha um tom incômodo de exagero.

O assunto se popularizou e eu demorei anos desconstruindo e retomando o que tinha de fato e de equívoco no meu pensamento. Enfrentei uma resistência incomum por minha situação ser completa exceção. Esse processo me transformou bastante, mas a conclusão foi basicamente a mesma: sou enormemente privilegiada.

A primeira coisa que descobri, e que é raiz de muita confusão, é que privilégio social é um tipo diferente de qualquer outro privilégio individual. Cada um tem seus desafios na vida, e nem todos são da conta ou de controle da sociedade.

De forma geral, quando usamos essa palavra, pensamos no lugar que alguém ocupa na sociedade, um privilégio social. Por mais clara que essa constatação seja, muitas vezes ao ouvir serem privilegiadas, as pessoas parecem entender que deveriam estar felizes ou satisfeitas com a vida, quando na verdade deveriam entender que possuem um status social mais alto. Privilégios individuais como saúde ou amigos são tão ou mais definitivos para felicidade.

Essa separação aparantemente pouco importante tirou do termo o peso da satisfação e felicidade, e trouxe a vontade de desenvolver uma empatia maior com pessoas em situações diferentes. A leitura atenta e observação, parte essencial desse processo, fez cair a sensação que eu tinha que tudo era um grande exagero.

Percebi que não era o Kinder Ovo depois do almoço minha principal vantagem, nem tampouco as boas escolas, apesar de sua importância. Meu principal privilégio não era social, e sim individual. O que eu tanto tinha de especial era a família e ambiente no qual cresci.

A começar por minha casa, família formada por pai branco e mãe negra, com a incrível possibilidade de perceber isso socialmente aos 14 anos, quando falaram de racismo na escola. As pessoas que trabalharam na minha casa sempre foram brancas, como boa parte das pessoas em Santa Catarina, contrastando com grande parte da minha família. Por tabela, a maior parte das pessoas que me relacionei era de ascendência alemã ou italiana, sem sentir nenhuma hostilidade.

Mas não para por aí. Com pais muito diferentes do padrão, nunca ouvi nenhum comentário machista em casa. Meus pais não me incentivaram só a estudar, me incentivaram a não me sentir intimidada, a ser independente, a tomar minhas próprias decisões, sair do ninho, escolher de forma livre as pessoas com quem eu gostaria de me relacionar e profissão que queria ter. Ensinaram-me a guiar minha vida por minhas próprias escolhas. E o melhor: fizeram isso sem eu perceber, sem me colocar contra a sociedade.

Este era um privilégio que, justamente por ser como é, me passou batido por muitos anos. Percebê-lo exigiu empatia com outras pessoas, exigiu acreditar num sofrimento que não era o meu, e finalmente, exigiu voltar atrás e lembrar de momentos que eu não percebi acontecer, e que só confirmaram minha constatação.

Lembrei de como não gostava de algumas características físicas minhas na infância e adolescência, de como meus ídolos eram diferentes de mim, como eu achava as meninas loirinhas mais bonitas que eu. Lembrei das situações de assédio no ônibus, situações familiares, amigos que, de forma incrivelmente padronizada, não ficavam com meninas negras. Lembrei de comentários que ouvi de pessoas próximas sobre como que supostamente “ter menos personalidade combina mais com ser mulher”, ou pessoas que acham graça em eu dar minha opinião. Coisas que não levei em conta graças a uma construção interna que favorecia muito a idéia de que eram casos isolados, mas que poderiam ter me magoado. Observei pessoas ao meu redor e construí uma nova visão, que leva em conta as várias formas que a sociedade tem de nos moldar, e de nos fazer odiar a posição que estamos.

No entanto, minha vivência não serviu somente para elogiar meus pais. Enxergar o conflito que existe hoje desse ângulo é também, porque não, um privilégio.

Tentamos dividir a sociedade em grupos de mais e menos favorecidos socialmente, prezando pela união desses grupos, o que é genuinamente bom. Mas minha experiência grita que essa é uma união de pessoas que têm uma causa em comum, não uma vida.

Sinto que tenho tanto em comum com as mulheres do mundo quanto com as pessoas que pegam ônibus comigo. Posso lutar com elas por mais um horário da linha, mas não há motivo para não olhar para quem não anda no mesmo horário. Sinto que “nossa luta” deixa de ser minha a partir do momento que o movimento se fecha para visões de fora, tornando as diretrizes mais importantes do que a causa. Falando de dentro para dentro.

Temo que isso jamais dê certo. Temo que consigamos politicas provisórias que jamais acabem, leis específicas que se apliquem para sempre. Que a situação nunca melhore de verdade, já que em países que discutem isso há anos enfrentam ainda os mesmos problemas.

Não quero me unir às mulheres, aos negros, aos homossexuais. Quero me unir às pessoas que enxerguem suas pautas como importantes. Não quero me unir a grupos de minorias, quero me unir a ideias. Afinal, quem está do lado de lá também tem a contribuir e a repensar.

Parecemos seguir a premissa perigosa de que é impossível se colocar no lugar do outro, o que por si só já assume que jamais chegaremos a uma solução para esses problemas.

Vale lembrar que jamais consideraremos todas as possíveis vantagens sociais. Nascer no Brasil, pais de IDH acima da média mundial, pode ser, por exemplo, uma vantagem. Que dirá nascer na Noruega, país com maior índice de desenvolvimento humano do mundo. Seria, no entanto, estranho cobrar dos noruegueses que acordassem todos os dias agradecendo por seu privilégio e, por isso, pedir-lhes que não opinem em questões mundiais, pois não podem compreender a complexidade social do mundo.

Curiosamente, neste caso uma lógica inversa entra em vigor. Queremos ouvir os noruegueses sobre como é ter tantos direitos, saúde e educação de qualidade. Damos a sua conquista um ar de superioridade, como se esta sim fosse apenas meritocrática.

Esta é uma questão delicada. Já me considerei inclusa em qualquer definição de privilégio até as pessoas começarem a discutir mais ativamente feminismo. Parece estranho achar que finalmente chegamos na divisão perfeita entre quem é favorecido e quem não é, em uma sociedade aberta capaz de discutir todas as suas entranhas.

Falta, enfim, empatia para os dois lados. É lastimável ver pessoas negando as vantagens em ser branco, homem, heterossexual ou parte de qualquer grupo que não sofre por ser o que é. Isso reflete uma inocência, ou limitação, de quem é incapaz de olhar para o outro. Na outra ponta, também acho nociva a agressividade de muitos segmentos dos movimentos sociais, desprezando a empatia de quem não é alvo. Como se só a falta de um determinado privilégio social os desse direito de se colocar no lugar do outro.

Vejo como um avanço enorme assuntos como o racismo estarem sendo discutidos no Brasil. Vejo as prisões que eu mesma tive sem perceber, e como elas foram pequenas comparadas às de outras pessoas sem as mesmas oportunidades que eu. Vejo como isso pode dar força e clareza a todos nós, e torço para que isso siga seu melhor rumo.

Ainda assim, sei que eu jamais mereceria aquela vaga por cotas – que não participei. Sei que sou exceção. Sei que gostaria que todos tivessem esse mesmo benefício, não meramente financeiro, que eu tive, e não sei o melhor caminho para chegarmos até lá.

Apenas desejo que não nos calemos, e que não invalidem nossa voz, privilegiados ou não.

* * *

Para aprofundar a leitura

Prisão Privilégio

Como se sente uma mulher

O privilégio de não ser negão (Racismo e normalidade – Parte 1)

"Basta se esforçar que você chega lá"

Carta aberta a uma estudante que perdeu a vaga por causa das cotas


publicado em 20 de Setembro de 2015, 00:00
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Clara Lage

Quando criança quis ser poeta, tornou-se matemática. Da poesia leva a paixão por música, pessoas, arte. Da matemática o gosto por ciência e bons argumentos.


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