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Crianças geniais ou adultos ingênuos?

Surgiu de uma conversa no fórum do lugar, a recomendação de um livro por Gustavo Gitti (indicado pela Silvia Strass).

Sentimento das fezes foi ditado por um menino de seis anos de idade e é uma pérola repleta de dicas de um treinamento para viver bem. Ryuki conta casos do seu cotidiano de modo doce e bonito com a poesia da fala das crianças.

Link PDF | "Agradeço a ninguém porque agradeço a todo mundo. Este livro é para todas as pessoas, qualquer uma."

Ryuki começa o livro dizendo uma verdade tão bonita que soa como arte a quem lê, quase que ouve. É o mesmo encantamento que nos causa Manoel de Barros, com sua ingenuidade no trato com as palavras, no jeito que nos faz "perder a inteligência das coisas".

Criança é tão incrível porque desconstrói a realidade dada de maneira muito simples, muito viva. De um jeito que os artistas conseguem depois de muito tentar. Como Picasso desenhando o touro até chegar nas linhas certas. Como Manoel de Barros carregando água na peneira.

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Deste momento de adoração ao livro de Ryuki surgiu uma discussão sobre a maneira com que tratamos a infância. Sem dúvidas, Ryuki está bem amparado pela família, que fez o livro para que estas pérolas não se percam com o tempo.

Mas como nossa sociedade trata a infância? A inteligência, a sabedoria, a pureza encantadora, como lidar com elas?

Trouxe dois pontos que vejo diariamente em meu trabalho como educadora.

Idealização da pureza da infância

A criança diz muitas coisas de maneira óbvia (porque é óbvio, a gente é que complica). Já ouvi história de criança que deu o brinquedo que mais gostava para a criança pobre que passou na rua. "Mas este você adora, por que não dá um daqueles com que você não brinca?", insistiu a mãe. "Porque eu não gosto daqueles, este é o mais legal!".

Isso é lindo, mas não é uma grande sabedoria. Nós é que fomos perdendo a sensibilidade do óbvio, não são eles que nascem como deuses. Idealizar a criança infantiliza e "adultiza" a própria ao mesmo tempo.

Toda criança deve ter o direito de ser levada a sério e o de poder dizer grandes asneiras sem que registrem o que disse. A reação lógica (se vou oferecer algo, quero dar o brinquedo mais legal) não pode ser encarada como uma atitude racional de bondade suprema. Encarando assim damos um peso descabido a esta ação.

Do livro "Casa das estrelas: o universo contado pelas crianças", de Javier Naranjo
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À criança devemos dar o direito de errar, de oferecer o brinquedo e se arrepender dois segundos depois aos berros (acontece…). Elogios descabidos só prejudicam seu desenvolvimento. E colocar rótulos de sabedoria ou de inteligência também.

"O problema é que os elogios incondicionais dos pais e dos adultos não produzem 'autoconfiança', mas dependência: os filhos se tornam cronicamente dependentes da aprovação dos pais e, mais tarde, dos outros.
'Treinados' dessa forma, eles passam a vida se esforçando, não para alcançar o que desejam, mas para ganhar um aplauso."
— Contardo Calligaris

Endossamento dos pais da genialidade da criança

"Meu irmão, aos dez anos, quis que todos escutássemos uma música que ele acabava de 'compor'. Movimentando ao acaso os dedos sobre o teclado (não tínhamos a menor educação musical), ele cantou uma letra que começava assim: sou bonito e eu o sei.
Minha mãe escutou, constrangida, e, no fim, declarou que a letra era uma besteira, e a música, inexistente. Mas, se meu irmão quisesse, ele poderia estudar piano — à condição que se engajasse a se exercitar uma hora por dia. Meu irmão (desafinado como eu) desistiu disso e se tornou um médico excelente."
— Contardo Calligaris

Seu filho é o mais lindo do mundo para você. É uma paixão avassaladora que te faz enxergar os atos do cotidiano como supremos, fantásticos, repletos de ações maravilhosas que a maioria dos outros mundanos não têm, não conseguem ter nem chegar perto. Isso é super maléfico.

Assim como a criança não fala palavrão do nada, tirando nomes horrendos da própria cabeça, ela também não diz que vai meditar porque entendeu o sentido da vida. Ela já ouviu este palavrão antes e já foi induzida a acreditar que meditar é uma coisa boa. Da mesma forma, somos ingênuos ao pensar que as crianças de hoje nascem diferentes porque sabem mais sobre tecnologia. Eles sabem mais porque são mais expostas a isso.

O contexto é tudo. Se ela está num bom caminho, parabéns, vocês a estão conduzindo de uma maneira bacana, ela está descobrindo a vida de um jeito bem bonito. Mas acreditar que ela é isso de muito lindo, um ser mais especial do que a média, só faz você não achar as outras crias do mundo tão legais.

E daí pra se fixar em apenas ser pai, apenas ser mãe e só enxergar o melhor filho do mundo é meio caminho andado. Seu filho é único da mesma forma que os filhos de todas as pessoas do mundo são.

Deixar a criança ser

É muito fácil santificar a pureza infantil, porque elas são fofas mesmo, são ingênuas, falam e fazem coisas maravilhosas… Mas são pequenos seres! Podem bater, morder, gritar e falar palavrão tanto quanto nós. E aí, então, vamos deixar de considerá-las incríveis?

Lembro de um aluno, de três anos de idade, encanado com punições. Um dia, alguém fez alguma coisa errada e ele veio até mim, eufórico e me pegou no susto:

— Você vai bater nele, né, tia?
— Claro que não.
— Não, não nele, na cara dele, né, tia?

Expliquei que as professoras não batem em ninguém. Decepção da parte dele. Ele é ruim? Maldoso? Impuro?

Que tenham todos eles o direito de errar, de não serem geniais e de serem bem medíocres. E que a gente idealize menos e respeite muito mais.

Mais

Estamos engajados em aprender sobre educação no lugar. Dentre os participantes interessados no tema, Marcelo Michelson, do "Conexão Pais e Filhos", divide algumas de suas experiências conosco.

No ano passado fizemos um encontro com Ana Thomaz, em que ela nos contou do seu processo educativo. Este vídeo está disponível apenas para participantes do lugar, mas "O que aprendi com a desescolarização" está disponível na íntegra para quem quiser saber mais.

Quer colocar isso em prática?

Para quem está cansado de apenas ler, entender e compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar, criamos o lugar: um espaço online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação.

veja como entrar e participar →


publicado em 13 de Janeiro de 2014, 08:29
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Isabella Ianelli

Pedagoga interessada em arte e educação. Escreve no blog Isabellices e responde por @isabellaianelli no Twitter.


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