Da felicidade como não-constante

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A felicidade é uma constante em sua vida? Na minha parca experiência, pude notar certas coisas que me fizeram mudar as principais pilastras de pensamento que nos cercam e atingir um pouquinho mais do que o senso comum. Foi o que acabei por chamar de “senso de falta”.

Supunha uma tristeza incontrolável. Talvez, seu ápice de adolescência. Imagine que nesse seu estado torpe de vida, em que tudo é ridicularizável e você deseja se sentir o mais especial dentro de um grupo, você realmente consegue ser o mais especial dentro de um grupo.

"Você é o melhor do colégio, cara. Você é especial. Único! Não se esqueça disso. Todos te amam. Todos te amam!"

Ante a morfologia da palavra “especial”, temos “espécie”, e tudo aquilo que é específico. Se você desempenha uma função na vida de alguém que só você consegue desempenhar, você é especial para ele/ela. O “senso de falta” desta pessoa tilintaria caso ela te perdesse, faltaria um momento-chave na vida dela, que é a sua presença e suas ações.

Entretanto, não há meios de sempre ser especial. E estou falando muito mais num sentido emocional do que empresarial. Não conseguimos ser o ápice de todos os cantos apresentados na sociedade. Temos que nos contentar com aquilo que, por hora, temos e somos.

Creio que o único sentimento, então, que é uma constante em sua vida e que, em momentos de felicidade, se torna uma via secundária, é a “indiferença”. O homem é um ser que de um lado está triste e entediado e às vezes está triste e sofrendo realmente. Porém, o único sentimento que paira sobre esses é o da indiferença. Como poderia não sê-lo? Como poderias tu se importar com as coisas das quais não tem conhecimento?

A felicidade é algo que galgamos em momentos-chave que se tornam, às vezes, inesquecíveis. Não há como viver em uma felicidade plena, caso contrário, não seria mais felicidade, mas sim apenas a indiferença.

Em exemplo: só quem andou de ônibus/metrô/trem durante muitos anos sabe a felicidade que é ter um carro próprio e a liberdade de não se submeter a horários fixos. Quem nunca teve que suar num coletivo em pé e tem a mordomia de um carro próprio provavelmente não sente a “tristeza” da falta de tê-lo.

E quando a sociedade sofre certas crises financeiras que lhe fazem vender seu carro à preço de banana nanica, é aí que o peso vai pender e a pessoa não aguentará descer seu nível social.

Nos momentos-chave aqui suscitados, pode-se considerar logicamente, então, que o não-ter e o ter-em-excesso são opostos definidores da felicidade aos olhos do ser humano. Uma vez que você tem aquilo que nunca teve, sempre pensa que será muito zeloso e cuidadoso com o objeto ou pessoa em questão. Na prática, acontece um pouco diferente.

De quando comprei meu carro, realmente achava que o lavaria uma vez a cada duas semanas. Lavei apenas uma vez por mês, durante três meses. Não conseguia deixá-lo limpo, tampouco tinha paciência para lustrá-lo à cera e coisas mais. Demorou pouco até que eu quisesse trocar de carro e não muito mais até que eu ficasse irritado com as contas a pagar e com todas as finanças indiretamente associadas ao bem.

Ah... o carro dos sonhos. O IPVA dele. O Seguro. O trânsito. As manchas de sujeira. As peças caras e importadas pra trocar. A gasolina danada que ele consome. Carro do cacete.

A felicidade em questão não se trata apenas do automóvel, mas sim de um momento em que você vive, perdulário ou não, num esquema temporal. Houve época de minha vida em que fiquei um ano inteiro feliz. Houve época que o sentimento era recorrente, porém, o dia-a-dia era maçante. Não adianta buscar a felicidade constante, pois somos eternos insatisfeitos por natureza.

Foi isso que nutriu esse senso de grandeza que o ser humano tem. Foi isso que desenvolveu toda a sociedade extremamente consumista. A gana de querer chegar mais longe, de querer obter mais. É claro, isso causa certos danos, à posteriori, dificilmente reparáveis, um efeito colateral do desenvolvimento desenfreado, que por sua vez é efeito colateral da motivação de ter (eterna insatisfação).

Procuro não me atarraxar aos conceitos mais existencialistas, pois é difícil depreender disso uma decisão que você venha a tomar na sua vida. Posso, hoje, dizer que seria o mais aprazível estilo de vida uma casa na beira de um rio, perto de uma cachoeira, com uma parceira ao lado e uma estante de livros que sempre quis ler mas ainda não consegui tempo. No entanto, em quanto tempo, eu enjoaria dessa rotina ou da falta dela?

Não há certeza, mas não duraria muito tempo toda essa senda onírica.

Antes de começar a trabalhar pra valer, passava bastante tempo ocioso em casa, durante a semana. O final de semana não valia tanto para mim, uma vez que era semelhante aos outros dias. Frequentava a faculdade, durante a tarde lia alguma coisa e ia pra academia. Eventualmente tive que botar meus passos em outro caminho e, por agora, sinto como se cada final de semana fosse único e especial, que eu não precisasse corresponder às expectativas profissionais e pudesse ignorar qualquer ser humano que viesse tratar do ambiente de trabalho para comigo. Aprendi a valorizar as coisas em sua pequenez. O que é um mero final de semana? Tempo o suficiente para dar o devido cuidado ao seu círculo social e tentar ser especial para alguém?

Então, se um dia você escutasse uma dica minha, a menos indiferente seria: tente sempre manter a felicidade recorrente, mas nunca constante.

Em pulos de alegria, em “ter prato entupido de comida que você mais gosta, ser carregado ou carregar gente nas costas”, de voltar a sentir o perfume da sua antiga casa ou revisitar aquele rio em que você naufragava enquanto jovem. Mas se isso ocorre todo dia, pode apostar que a mesma paisagem te faz enjoar e procurar sempre aquilo que você não tem ou não pode ter.

Ah... o melhor lugar do mundo pra se morar! Calmo, tranquilo, a natureza, o silêncio, a distância da civilização, não tem mercado perto (tem que pegar o carro), não tenho com quem conversar, nem pra onde ir, silêncio chato da porra, os bichos entrando em casa a noite, a solidão, quero me mudar. Alguém quer comprar essa belezinha nas montanhas?

Trocando em miúdos: a dosagem é a métrica mais importante. De grão em grão a galinha enche o papo, nem sempre feliz, mas pelo menos não está enjoada da sua felicidade para com as pequenas coisas que ela realmente pode ter.


publicado em 26 de Janeiro de 2013, 08:00
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Liury Nascimento

Liury Nascimento é acadêmico de Direito. Escreve mais por diversão do que por conclusão. Desde moleque pretendia a responsabilidade, mas quando ela bateu na porta, se assustou e tentou se esconder. Agora ela grudou no seu pé e diz que não vive mais sem ele.


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