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Dan Eldon | Homens que você deveria conhecer #26

O que você faz quando se depara com uma situação de caos?

Ou então: como você se sente em relação ao lugar em que mora, com todas as dificuldades e problemas típicos? Quantas vezes por dia pensa em se mudar para um canto melhor? Tipo uma colina florida, para sentar e meditar em paz, observando os pássaros e cultivando jardins?

Muitos de nós temos essa vontade de encontrar um lugar pacífico para viver. Um lugar tranquilo, sem fome, sem preocupações, sem agonia e sofrimento. Simplesmente não passa pela nossa cabeça nos aproximar de situações aflitivas, do tipo que permeia os piores pesadelos. Frente a uma guerra, a reação mais lógica é, obviamente, fugir o mais rápido possível. Não se discute sobre isso, a menos que você seja alguém como Dan Eldon.

Dan e seu bichinho. Tá bom pra você?

Dan Eldon: A infância e a arte

Nascido em Londres em 18 de setembro de 1970, mudou-se para o Quênia quando ainda era criança. Seus pais tinham muitos amigos interessantes que costumavam visitar a casa. Pesquisadores, cantores de ópera, repórteres e políticos eram alguns dos tipos que por ali passavam. Por influência disso ou não, o jovem Dan Eldon, desde muito cedo, já manifestava um interesse e um dom: a arte.

O fato de ele ser um dos menores da sua classe, o tornaram um alvo fácil para professores e alunos. Isso fez com que ele se recolhesse em suas atividades artísticas. Na escola, era comum vê-lo carregando lápis de cor e material de desenho para onde quer que fosse.

Com apenas 12 anos de idade conseguiu publicar sua primeira fotografia no The Nation. Mas, talvez, o seu feito mais marcante tenha sido uma viagem na qual a sua turma escalou o Monte Quênia, quando foi possível observar o despertar de um Dan ligado à aventuras, incentivando seus amigos a irem cada vez mais longe e atingindo o topo.

Lesharo: o guerreiro viajante

Dan tinha uma verdadeira paixão pelo lugar que se acostumou a chamar de casa. Convivia com os diversos povos nativos da região, especialmente os Masai. E, assim, durante sua adolescência, os primeiros sinais de seu empenho apareciam.

Ao conhecer Kipinget, uma Masai que vivia nas colinas de Ngong, perto de Nairobi, Dan dedicou-se a vender o artesanato que ela confeccionava, com a finalidade de ajudá-la a manter sua pequena cabana e sustentar seus filhos.

Esta convivência fez com que ele absorvesse uma grande quantidade de conhecimento a respeito da cultura Masai. De dia ele trabalhava e brincava com as crianças e à noite, participava dos rituais, cantando e tocando. Por isso, foi aceito pela tribo, o que rendeu-lhe uma cerimônia simbólica de iniciação. Normalmente, este tipo de ritual inclui a circuncisão, mas neste caso ele apenas recebeu um novo nome, tornando-se um deles. À partir de então, foi chamado pela tribo de Lesharo, "aquele que ri". Tudo isso com apenas 15 anos.

Um Masai tem bons motivos para sorrir.

Ainda durante sua adolescência, uma colega de escola adoeceu do coração. Dan organizou uma série de festas no quintal de sua casa, motivando várias pessoas da sua idade a comparecerem. Conseguiu levantar dinheiro suficiente para pagar a cirurgia de sua amiga que infelizmente morreu no hospital por outras complicações.

Dan participou de várias atividades artísticas, viajou bastante neste período e terminou seus estudos na Escola Internacional do Quênia. Decidiu tirar um ano de férias que para ele, na verdade, era um ano de atividades intensas. Viajou para Nova Iorque e internou-se durante quatro meses no departamento de arte da revista Mademoiselle.

Claro que a separação entre Dan e sua terra não demoraria muito. Ele queria voltar e faria isso de qualquer jeito.

Em meio à guerra, fome e morte

Os EUA não foram um bom lugar para Dan. O frio Nova Iorquino o fez sentir-se solitário, então, foi para um lugar com um clima mais quente, a Califórnia. Passou um tempo estudando na Pasadena Community College e imediatamente formulou um plano para retornar à África.

Sua idéia tomou a forma de um safari, uma expedição de Nairobi até Malaui. Dan pesquisou o roteiro, pegou seu carro, uma Land Rover antiga chamada Deziree - em homenagem a uma garota por quem foi apaixonado - e tomou rumo, atravessando cinco países e enfrentando guardas e ladrões pelo caminho, hospedando-se em cadeias para fugir do perigo de assaltos.

Dan atraiu a atenção da imprensa local e conseguiu levantar um fundo para esta viagem, juntamente com outros quinze estudantes de seis nacionalidades diferentes. Ao final da expedição, doaram um dos três veículos para a Save the Children Fund, bem como dinheiro para três poços, e cobertores para um hospital infantil.

Sendo recebido de volta em sua última visita a Nairobi.

A esta altura, Dan fez mais uma série de expedições por zonas bem perigosas da África. Estes eram os últimos anos do Apartheid. Logo, não era uma boa época para viajantes, principalmente se você fosse branco. Era muito fácil ser confundido com o inimigo. Ele se inseria nos protestos e manifestações e fotografava tudo o que presenciava.

Seus olhos viram Moçambique ser devastada pela guerra. E isto não passou despercebido pelas suas lentes. Dan organizou mais uma expedição, levantou fundos fazendo eventos, vendendo camisetas e braceletes e - com medo de que o dinheiro não fosse usado corretamente - foi ele mesmo entregá-lo. Na mesma época, financiou de seu próprio bolso a construção de dois poços extremamente necessários em Nairobi.

No começo de 1992, ele ouviu falar sobre a fome tomar grandes proporções e a guerra civil entre diferentes clãs na Somália. Dan decidiu então reunir uma nova equipe e ir até um grupo de refugiados. O que ele viu, somado às conversas que teve com jornalistas experientes o fez perceber que algo estava para acontecer. Em seguida, rumou para Mogadishu, capital Somali e viu uma cidade completamente devastada.

Entre outras cenas, fotografou um garoto com uma arma semi-automatica fumando um cigarro, no que sobrou da catedral da cidade. Vendeu esta imagem para jornais locais e, com isso, conseguiu um emprego na Reuters.

Eles tinham fome. Na maioria dos lugares onde você vai, as pessoas pedem por doces ou pedem que você faça coisas divertidas, mas aqui eles estavam pedindo apenas por comida. Nem mesmo dinheiro, apenas pão. (Dan Eldon)

Guerra e fome, como viu Dan Eldon.

Dan, à partir deste momento, mergulhou naquele contexto dos pés à cabeça. Presenciou a chegada do exército americano, que apesar da ridícula e pomposa cobertura jornalística — com direito a espera dos soldados na praia, aguardando todos os repórteres estarem prontos para filmar e fotografar — trouxe uma preciosa e necessária ajuda, dando comida e reduzindo bastante a fome.

Seu empenho e sensibilidade, somados ao seu conhecimento da realidade local tornaram suas fotos muito conhecidas. Conseguiu capas na Time e na Newsweek, publicou um livro de fotografias da Somalia e chamou atenção internacional para o país.

Claro que em algum momento, Dan sentiria o peso de toda aquela tensão e violência. E, em junho de 1993, decidiu que já era hora de ir embora. Seus planos eram de visitar a Bósnia (outro país que estava em guerra naquele momento) e fazer fotos por lá. Em quase um mês, já havia preparado seu substituto e estava pronto para sair da Somália.

Não muito longe do hotel onde estava hospedado, começou um bombardeio. Alguns somalis vieram avisar do que estava ocorrendo e pediram que os jornalistas fossem documentar o fato. Ao chegar no local, assustaram-se com a quantidade de sangue que havia sido derramado. Cerca de cinquenta somalis estavam mortos e havia vários outros feridos. Os jornalistas, incluindo Dan, permaneceram ali e documentaram a cena por alguns instantes quando a multidão em fúria se levantou contra eles.

Hos Maina, Anthony Macharia, Hansi Krauss e Dan Eldon morreram apedrejados neste dia, 12 de julho de 1993.

O legado

A história de Dan Eldon serve para mostrar que podemos causar um impacto com o que fazemos, não importa o quanto sejamos jovens. Em seu curto tempo de vida, ele fez tanto e ajudou tantas pessoas que este texto, apesar do tamanho, simplesmente não pode pontuar. Muitas ações memoráveis ficaram de fora.

Dan visitou 46 países, construiu poços, fez doações para hospitais, ajudou tribos de diversos povos a repensarem a maneira como tiravam seu sustento, fotografou, fez colagens, desenhou camisetas, fez festas, safaris e expedições, reuniu fundos para salvar uma amiga de uma doença e ainda achou tempo para namorar, cuidar de sua família e cultivar grandes amizades.

Link Vimeo | Documentário essencial para quem deseja conhecer mais sobre Dan Eldon

As consequências disso nós podemos ver hoje, de uma maneira bem clara, na Creative Visions Foundation, mantida por Kathy e Amy Eldon — respectivamente, mãe e irmã de Dan — para dar suporte a ativistas criativos, incentivando-os a gerar mudanças positivas ao redor do mundo por meio da mídia e da arte. Também na The Dan Eldon Place Of Tomorrow, onde ensinam à centenas de crianças quenianas valores como criatividade, liderança e trabalho em equipe.

Além disso, deixou para trás 17 volumes de registros artísticos que documentam sua vida. E, mais recentemente, foi anunciado que Daniel Radcliff interpretará Dan no cinema, num filme que deverá se chamar Journey.

Dan acreditava que suas habilidades podiam fazer alguma diferença. Ele acreditava que o seu trabalho seria útil e poderia ajudar aquelas pessoas que estavam naquela situação terrível. Situação muito pior do que qualquer coisa que nós tenhamos experimentado no conforto da nossa cadeira em frente ao computador. Ele viu fome, viu guerra, viu a verdadeira face da miséria.

E, diferente do que muitos de nós costumamos fazer quando assistimos ao jornal, enfrentamos um engarrafamento ou uma fila na farmácia, ele não pensou em ir embora.


publicado em 24 de Janeiro de 2012, 05:50
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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