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Dana paramita, ou generosidade: como o ato de doar nos deixa melhor

A fala importantíssima da professora Jetsunma Tenzin Palmo em seu livro "No coração da vida: Sabedoria e compaixão para o cotidiano"

O Buda colocou dana, que significa “doar” ou “generosidade” em sânscrito, bem no início do caminho do bodisatva porque é algo que todos podemos fazer. Por mais deludidos que possamos estar, por mais raiva que tenhamos, por mais ciumentos ou gananciosos que possamos ser, ainda assim podemos doar. É uma qualidade muito básica. Não precisamos atingir nenhuma elevação espiritual para aprender a doar. Doar significa abrir as mãos e o coração. É uma maneira muito bonita de responder aos outros.

Na Ásia, as pessoas entendem com clareza toda esta qualidade de praticar a doação e a generosidade de forma sincera. Baseia-se no entendimento de que, se quisermos prosperar e ser bem-sucedidos, não só agora, mas em nossas vidas futuras, temos que plantar as sementes. Não poderemos colher se não plantarmos sementes. As sementes da prosperidade são a generosidade e a doação. Portanto, se quisermos ter sucesso, temos que criar as causas para isso. Se temos dificuldade em obter dinheiro, se acabamos ficando sempre muito pobres, é porque não criamos as causas suficientes por meio da sinceridade e da generosidade no passado. O Buda disse que, se as pessoas entendessem o verdadeiro benefício futuro da doação, não guardariam uma única refeição apenas para si mesmos. Tentariam compartilhar todas as refeições. Mas, por não enxergarmos os resultados futuros, pensamos: “Se eu der isto aqui, vou ficar com o quê? O que sobrará para mim?”. Esse tipo de mentalidade não apenas suprime os nossos impulsos generosos, como também cria as causas para não sermos prósperos futuramente.

Doar é uma alegria! É a mente fechada do “Este sou eu, isto é meu, e eu não vou dar para ninguém” que nos causa tanta dor e nos impede de realmente apreciarmos o que temos. Veja, não é as coisas que possuímos que são o problema; o problema é nos agarrarmos a elas, é o nosso apego. São as coisas que nos possuem ou nós que possuímos as coisas? Somos capazes de segurar as coisas de leve, de tal forma que, ao vermos alguém em necessidade ou apenas por sentirmos apreço, sejamos capazes de doar?

Na Índia, eu tinha um amigo que era um swami hindu e morava em um ashram bastante simples, não muito longe do nosso mosteiro. Na verdade, era um discípulo direto do grande sábio indiano Ramana Maharshi, do sul da Índia. Nosso amigo swami tinha diversos discípulos em toda a Índia e no exterior. Mas vivia de maneira simples. As pessoas sempre levavam-lhe coisas difíceis de se encontrar na Índia — e por isso muito apreciadas. Todavia, quando alguém lhe dava qualquer coisa, não importava o que fosse, seu primeiro pensamento era: “Quem seria uma boa pessoa para eu dar isto?”.

Nada ficava preso entre seus dedos. Tudo o que chegava às suas mãos escorregava para as de outra pessoa. E ele era feliz porque a sua vida era um contínuo receber e passar adiante. Não havia acumulação. Não havia a necessidade de carregar suas posses com o medo de perdê-las, como um pesado fardo em suas costas. Mas isso não quer dizer que você deva ir para casa e se desfazer de todas as suas coisas. Na verdade a questão é abrir o coração, realmente ser capaz de ter satisfação em doar aos outros, e não apenas coisas materiais. As coisas materiais são um bom começo, mas também podemos doar nosso tempo e nossa solidariedade. Podemos estar ao lado das pessoas quando precisarem de nós. Podemos oferecer nosso destemor.

Na linguagem budista, existem três tipos de doação. Em primeiro lugar, a doação de presentes materiais. Em segundo lugar, a doação do Darma. Isso significa estar ao lado das pessoas ouvindo-as, tentando ajudá-las de alguma maneira, até mesmo clareando um pouco suas mentes, oferecendo conselhos. E depois há também a doação do destemor, de ser um meio de proteção e ajudar os outros a descobrirem a sua própria coragem — esse é um presente que não tem preço.

Podemos começar a doar de forma simples, desenvolvendo a qualidade de estarmos consciente dos outros e de suas necessidades. Podemos doar alegria e prazer por meio da intenção de ajudar os outros. Não dar presentes apenas no Natal, em aniversários ou ao fazer uma visita, mas espontaneamente — vemos algo de que gostamos e damos de presente a alguém, talvez até mesmo para alguém de quem não gostamos. Dar algo para pessoas de quem não gostamos é uma bela maneira de nos relacionarmos com os outros. O Buda enfatizou a importância da generosidade — essa qualidade de alegria em dar aos outros, sem sustentar sempre o senso de “o que eu posso pegar para mim”.

Tradicionalmente, existem três tipos diferentes de receptores de doações que nos são recomendados. Primeiro, pode-se doar para aqueles que de alguma maneira consideramos merecedores. Isso significa, na linguagem budista, os budas e bodisatvas. Significa a sangha monástica, seu professor espiritual ou qualquer professor considerado inspirador e superior em termos espirituais. Ofertamos em sinal de honra e respeito. O segundo grupo de receptores pode incluir aqueles a quem doamos por gratidão, particularmente nossos pais. Também podem ser nossos professores e qualquer um que tenha nos ajudado de alguma forma.

Somos gratos. As qualidades de homenagem, gratidão e respeito tornaram-se muito denegridas no mundo de hoje, essa é uma das razões pelas quais nossa sociedade está se desintegrando. Não incutimos mais essas qualidades do coração em nossos filhos. Alguns filhos abusam e falam mal dos pais. Mas sem nossos pais não estaríamos aqui. O nascimento humano depende dos pais. Quando nascemos, eles nos olharam e não nos jogaram fora dizendo: “Eca, que verme cor-de-rosa horrível!”. Nossos pais nos limparam, trocaram nossas fraldas, nos alimentaram e nos acalmaram quando choramos. Sem eles não estaríamos vivos hoje. Não importa quanto os achemos incorrigíveis. Eles são seres humanos e têm pontos positivos e falhas como todo mundo. Nossos pais sempre estiveram por perto e nos amaram quando éramos pequenos. Portanto, temos com eles uma imensa dívida de gratidão.

E então tivemos os nossos professores — não seríamos capazes de ler, de escrever ou de saber qualquer coisa se não fosse por essas pessoas que nos ensinaram, que nos mostraram como pensar, como aprender. Devemos ser muito gratos. Devemos ser sinceramente gratos por tudo que nos deram. Por que somos críticos? A sociedade é muito difícil, especialmente os jovens de hoje em dia. Tornamo-nos exigentes, críticos e egoístas.

Há pouca gratidão. Em terceiro lugar, podemos doar àqueles que estão em necessidade — os pobres e os doentes, ou qualquer um que tenha uma necessidade especial. É bacana oferecer o seu casaco para o seu melhor amigo, mas é mais significativo dá-lo a alguém que não tem um casaco e que está sentindo frio. Doar de forma apropriada para aqueles que realmente necessitam é fundamental. Às vezes as pessoas precisam apenas de atenção. Precisam de alguém que não as desconsidere e ouça a sua dor.

A qualidade de nossa vida, e a decisão de manter nosso coração fechado ou aberto, depende de nós. Portanto, o primeiro gesto de um coração aberto é a generosidade.

* * *

Nota do editor:  este texto é um trecho do livro No coração da vida: Sabedoria e compaixão para o cotidiano, de Jetsunma Tenzin Palmo, professora da linhagem Drukpa, recomendada por outros grande nomes como S.S. Dalai Lama, Alan Wallace entre outros. Ele foi traduzido e publicado pela editora Lúcida Letra, do Vitor Barreto, amigo e autor no PapodeHomem.

É parte de uma parceria nasce do respeito que temos pelo trabalho da editora, que promove um conteúdo de florescimento humano apoiado por nós. 

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publicado em 06 de Fevereiro de 2018, 00:00
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Jetsunma Tenzin Palmo

Autora de No Coração da Vida e uma das maiores professoras de budismo no mundo, oferecendo palestras e retiros por todo o mundo mundo. Também é fundadora de um monastério de monjas.


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