Darth Vader e o medo da morte

Um pouco sobre a filosofia e psicologia por trás de Darth Vader

Não sei se preciso chover no molhado aqui, mas vamos lá: Darth Vader é um dos maiores vilões do cinema. Tão popular que George Lucas, quando quis ganhar mais uns trocados com Star Wars, decidiu que faria uma nova trilogia inteira contando a história de como ele se tornou o ciborgue-samurai-com-voz-cavernosa que tanto amamos.

Assim, ainda que muita gente fale mal dos filmes da pré-trilogia, não dá pra negar que jogar luz sobre as origens de Darth Vader e como as teias foram se tecendo até chegar à história que aprendemos a amar, com Luke, Leia, Han e Chewie, adicionou toda uma profundidade não só ao personagem como a todo o universo da franquia.

Em alguns dias estreia um novo filme, Rogue One, no qual a sombra de Darth Vader provavelmente vai ter alguma influência. Assim, é legal entender um pouco das motivações do personagem.

O Wisecrack, sério candidato a melhor canal do Youtube, fez um vídeo destrinchando a filosofia por trás do personagem e o que faz aquela cabecinha cheia de escuridão e ódio suspirar à noite.

Link Youtube

E pra quem não está a fim de gastar a língua da rainha, transcrevi o vídeo e traduzi pra gente poder conversar aqui embaixo, na caixa de comentários.

A filosofia de Darth Vader

Hey Wisecrack.

Jared de novo, e hoje nós vamos falar sobre o mais famoso ciborgue-feiticeiro-espadachim-laser da galáxia: Darth Vader.

Talvez, nenhum vilão na história do cinema seja mais icônico ou mais importante para uma franquia. Seria a voz sedutora de James Earl Jones? Sua armadura samurai malvadona de ficção científica? Sua propensão a usar a Força para enforcar seus críticos? Ou é outra coisa?

Talvez a descida para o lado negro de Anakin Skywalker ressoe talvez forte porque ela represente algo que todos nós enfrentamos - um medo da morte que consome a todos.

Por meio de Vader, Star Wars explora duas respostas filosóficas diferentes para a morte. Ao explorar essas ideologias que competem entre si, podemos entender como esse moleque reclamão se tornou o Senhor dos Sith.

Bem vindo à edição do Wisecrack sobre a filosofia de Darth Vader.

O que vai transformar Anakin Skywalker em Darh Vader é medo–especificamente medo da morte.

Em seu livro de 1973 The Denial of Death, o antropologista Ernest Becker argumenta que quase tudo que fazemos é uma forma de gerenciar o medo do falecimento, nosso e dos outros ao nosso redor.

Essa ansiedade, conhecida como negação da morte, é especialmente presente em Darth Vader, e tem sua origem na sua infância.

Quando encontramos Anakin Skywalker pela primeira vez, ele é um garoto de nove anos implausivelmente sábio e articulado, um gênio com habilidades super-humanas de pilotagem.

Ele é o produto de um nascimento de uma virgem, é mais inteligente que qualquer adulto ao seu redor e há uma profecia que sugere que ele deve ser o messias.

Ah, por sinal, a aptidão à Força agora pode ser medida em midichlorians, então podemos estabelecer desde o começo que Anakin é objetivamente mais poderoso que todo mundo.

Mas mesmo o Jesus Jedi não é imune a borrar as calças de medo da morte.

A aflição de Anakin sobre a mortalidade de sua mãe vai assombrá-lo. À medida em que envelhece, esse medo torna-se uma fixação. 

Yoda percebe que esse medo vai ser um problema bem cedo. Isso poderia explicar por que os Jedi são tão exitantes em treiná-lo, por causa de sua idade.

Apesar de nunca ser explicado canonicamente por que só crianças muito novas são treinadas, o diálogo sugere que Yoda e Mace Windu estão preocupados com a negação da morte e suas ramificações para o jovem Anakin.

Perceba que quando crianças são muito novas, é mais fácil doutriná-las a não temer a morte. As crianças, de acordo com o psicólogo James A. Graham, só começam a entender a morte como permanente entre as idades de 5 a 9 anos, mas só como algo que acontece com gente velha e chata – digamos, sua mãe Shmi.

Só mais tarde, lá pelos 10 anos, que crianças percebem que a permanência da morte vem pra todos.

Anakin tem 9 anos – capaz de perceber a mortalidade de sua mãe e prestes a entender a sua própria. 

O conselho Jedi acaba permitindo que o Obi-Wan treine Anakin, mas isso vem com um terrível custo. Se os Jedi não são treinados a partir de uma certa idade por causa do seu medo da morte, deve haver uma boa razão.

De acordo com Becker, a violência humana é uma reação natural à negação da morte. Como ele diz: "apenas bodes expiatórios podem aliviar alguém de seu próprio medo da morte." Matar dá às pessoas um senso de controle sobre isso, seja no campo de batalha ou no bom e velho homicídio.

Para Anakin, isso é uma passagem só de ida para o Lado Negro.

Ainda que nunca tenha ido para o corte final, o roteiro original do Episódio I mostrava Anakin dizendo algo para a Padmé que sintetiza seu arco inteiro: 

ANAKIN: “Medo atrai os medrosos. Ele estava tentando superar seu medo esmagando você. Tenha menos medo.”
PADME: “E isso funciona pra você.”
ANAKIN: “Até certo ponto.”

O roteiro prevê que pelo medo de perder seus amados, Anakin vai tentar superar essa ansiedade "esmagando" a morte, para ganhar um senso de controle sobre ela, ao invés de simplesmente ter menos medo.

Quando Anakin descobre que sua mãe foi mortalmente ferida pelo Povo da Areia, ele abate a vila inteira. Esse tipo de vingança faz sentido, de acordo com Becker, que argumenta que matar outras pessoas traz a ilusão de controle sobre a morte, evocando o medo do qual o Conselho Jedi  o alertou.
Quanto mais Anakin mata, mais a morte parece algo que ele domina.

Quando a mãe de Anakin morre, ele volta a ter pesadelos—dessa vez que
Padmé vai morrer no parto.

Ele então se culpa pelas duas mortes; de sua mãe depois que ele a deixou,
e ele acredita que sua esposa vai morrer por que ele a engravidou.

É nesse ponto que Anakin tem um dilema sobre como lidar com a morte — do jeito Sith ou do jeito Jedi.

Anakin vai até Yoda com suas dúvidas.

A resposta de Yoda vem direto do budismo — o que não é surpresa, considerando que Lucas disse ter baseado Yoda em um mestre do Budismo Tibetano, o lama Tsenzhab Serkong Rinpoche.

De acordo com o texto Budista "O cânone Páli", jaramarana — o desejo de escapar da velhice e da morte — é um impulso humano perigosamente sedutor.

O não-apego — ou abandonar os seus desejos — é o único jeito de derrotá-lo.

E Yoda pratica o que ele prega: quando ele encontra sua própria morte em O Retorno de Jedi, ele está tão calmo com isso...

Becker vai chamar Yoda de "cavaleiro da fé", um termo que ele emprestou do existencialista dinamarquês Soren Kierkegaard.

De acordo com Becker, ter uma fé real e autêntica em algo mais poderoso que a morte é uma ótima forma de gerenciar nosso terror.

Para Kierkegaard, isso significa fé em Deus.

Para Yoda, seu não-apego ao jaramarana é fundamentado na sua fé no lado da luz da Força.

De qualquer jeito, isso não é algo que você possa escolher. Esse tipo de fé, nas palavras de Becker, são "uma questão de graça, não de esforço humano."

Anakin não tem a fé de Yoda, então ele vai até Palpatine por uma resposta. A abordagem Sith é de abraçar seus desejos – nesse caso, o desejo de prevenir a morte de Padmé, ou seja: negação da morte.

Ao contar uma velha lenda sobre Darth Plagueis, o Sábio, Palpatine deixa escapar que o lado negro da força pode permitir que você derrote a morte.

Anakin decide seu lado e se torna um Lorde Sith – sob uma condição.

Anakin sacrifica seu nome, sua lealdado aos Jedi, e mesmo sua consciência para aprender como proteger Padmé da morte.

Ao se recusar a aceitar a morte, Anakin toma um caminho de escuridão: mata crianças, sua esposa e até tenta matar seu mentor.

Ele sacrificou completamente sua personalidade e valores para se tornar pouco mais que um zumbi aprisionado em uma máquina.

Esse é o ponto final da negação da morte, de acordo com Becker. Ele diz: "a pessoa busca evitar a morte, mas o faz matando tanto de si mesmo e um espectro tão grande de seu campo de ação que acaba se isolando e diminuindo ao ponto de ficar como se morto.”

Deixado sem ninguém para proteger da morte, Darth Vader se torna um instrumento de poder e pouco além disso.

Com isso em mente, podemos finalmente entender o que diabos Obi-Wan estava fazendo no Episódio IV.

Se as prequelas foram a história de como a Ordem Jedi perdeu Anakin para Palpatine por causa de sua negação da morte, então pode-se argumentar que a morte de Kenobi foi a maneira da Ordem confrontar a escolha infeliz de Anakin.

Veja o duelo de sabre de luz deles na Estrela da Morte.

Não parece que Kenobi estava de fato tentando matar Vader.

Eles lutam por alguns minutos e então ele basicamente se oferece como sacrifício.

Mas não antes de dizer algo crítico.

Vader brande o sabre de luz e então Kenobi meio que é arrebatado.

Poderíamos dizer que o primeiro filme tinha pouca verba pra efeitos especiais, mas Vader parece confuso pelo que acabou de acontecer, também.

Kenobi exibiu o fato de que ele tinha uma outra solução que o tornava, bem, mais poderoso do que Vader jamais poderia imaginar. Ver que Kenobi estava pronto para encarar a morte ofereceu uma alternativa à negação da morte para Vader.

Além disso, os Sith não tinham descoberto a imortalidade.

No fim da Vingança de Sith, descobrimos exatamente como Kenobi aprende a enganar a morte.

Isso não significa bem conquistar a morte no sentido tradicional, por que Kenobi e Yoda continuam tecnicamente mortos.

Seria mais transcender a morte.

Eles podem interagir com Jedis vivos assumindo a forma de fantasmas da Força. Mesmo Anakin se junta ao esquadrão depois que se redime.

Também podemos ver essa discrepância entre a negação e a aceitação em como Anakin e Luke confrontam a morte.

Os confrontos mais notáveis de Anakin com a morte foram quando ele matou violentamente o Povo da Areia para vingar sua mãe.

Ao final, Anakin mata até Padmé em sua fúria.

Ou ela só morreu de texto ruim mesmo. Não está claro.

De qualquer jeito, Luke está disposto a desistir da vida para evitar se tornar
a coisa que ele odeia.

Quando Darth Sidious o manda matar Vader, ele se recusa.

Essa aceitação da morte é o que realmente separa um Jedi de um Sith.

Só quando Anakin pega a dica do seu filho e aprende a renunciar à sua própria vida que ele abraça a realidade da morte e conquista jaramarana.

A história de Anakin Skywalker é a história que todos nós temos de viver. Jaramarana pode moldar nossa personalidade, extirpar nossos valores e nos motivar a fazer coisas terríveis.

De acordo com Becker, a negação da morte é responsável pelo nosso desejo de ser violentos uns com os outros, de conquistar e controlar o que vemos ao redor.

Impérios do Mal, no mundo real e no mundo de Star Wars, devem sua existência à nossa inabilidade em aceitar a mortalidade.

Mas não importa quanto de nós mesmos tenhamos investido na nossa negação, aceitar a realidade da morte pode nos dar dignidade, construir nossa coragem e expandir nossa compaixão.

Nunca foi tarde demais para Darth Vader e nunca é tarde demais para nós.

Enquanto você ainda respirar, pode entrar em termos com a realidade da morte—ou negá-la e arriscar ceder ao Lado Negro.


publicado em 08 de Dezembro de 2016, 01:30
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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